Tuesday, June 08, 2010

Jarmelo


no cimo o burburinho as barracas na feira as vacas jarmeleiras no último reduto


os rostos tisnados contam a rudeza do trabalho e a dureza do sol a sol


a casa de granito a capela


a terra em tempos arrasada de sal


a tragédia de Inês e Pedro


plasmada a ferro


no monte do Jarmelo.


Wednesday, May 26, 2010

Paz

talvez seja isto a paz!

estes momentos:


o vento vagaroso


empurrando


as nuvens cinzentas,


a chuva caindo cantando


sobre folhas, trevos,


rosmaninhos e rosas,


as almas dos poetas


pairam sobre a terra.

Monday, May 24, 2010

tardes de maio


tardes de maio
com sabor a trigo verde
ondulante
ao vento.




tardes de maio


com sabor a mar


a barca entra na vaga


um abraço de amantes...




Wednesday, May 12, 2010

Pesadelos


Cortem-me estas amarras

que me pesam

me prendem

a pesadelos e demónios

a vaguear na escuridão

das noites negras:

nem as cigarras

posso ouvir

nem sei colher

o pequeno malmequer

do outro lado

do arame farpado
com este aperto

no peito que me tolhe;

enquanto caminho

a destropeçar de pedra

em pedra,

sinto uns passos,

volto-me de repente,

vejo-me sombra

da minha sombra,

um restolhar de folhas

mais nada nem ninguém...

Monday, May 03, 2010

Milagre


Chego de manhã

à varanda

espreito a terra

a planta a rasgar

o torrão escuro

sobe devagarzinho

em direcção ao céu

ao sol às estrelas

cada dia cresce

mais um bocadinho

agora desvenda

a cor da flor

mantém-se ainda

escondida num véu

amanhã talvez

talvez o milagre

e a flor rasga

lentamente

o fino tecido

sai uma pétala

do invólucro

como uma pena

de pintainho amarelo

como uma asa

de borboleta

amanhã talvez...

à noite voltei atrás

antes de me ir deitar

fui espiar

a flor à varanda:

às escondidas

nas hastes compridas

surgira

esbelta e vaidosa

uma flor esplendorosa

sob as estrelas...

abro o coração

recolho o milagre

e a voz da cotovia

e, com a alegria

na alma, sonho!

Wednesday, April 28, 2010

À espera


ouço a porta fechada

fico a acordar os sonhos

saio para a rua

debaixo de chuva

a lavar as lágrimas

que o vento enxuga;

não tarda o sol...

Sunday, April 11, 2010

de quando em quando



de quando em quando
uma noite em branco
texto nas entrelinhas
sangue sem azul
dias desiguais
pássaros a despropósito
pensamento insólito
parêntesis no sol
viagem para sul
conversa fiada
passo em falso
capela entre vinhas
flores nos laranjais
o silêncio nas fontes
um vão de escada
a varanda para o rio
alma penada
o ninho vadio
a água da nascente
a enchente
a passagem na ponte
o vinho e o poeta
a porta aberta
a portagem
a estrada

de quando em quando
a viagem
o saltimbanco
o salto

de quando em quando

o sobressalto...


Saturday, March 27, 2010

Vazio


em cima da mesa de cabeceira


abandonada


a conversa inacabada,


enclavinhada nas dobras do lençol


inquietou-se a alma vazia e dorida


nesta noite esfarrapada,


o pesadelo vampiriza os sonhos,


ficam frios


os pés.

Wednesday, March 17, 2010

Incerteza

vou espiando a primavera
por entre os ramos descarnados;
fugidio, arisco, soberbo
um pássaro,
demora um segundo,
senhor do mundo,
depois lança-se no ar
nos céus deslavados
de indecisão.


Sunday, March 14, 2010

F.

... ... ... ... ... ... ... ...

Levantaste-te da mesa apenas para ir lá fora fumar o último cigarro.

É isso que eu quero crer.

(Não voltaste.

Partiste.

Num domingo cinzento.)


excerto/final de um texto a recordar a minha amiga F.
e que vou guardar para mim.

Monday, February 22, 2010

Passados

o velho arrastou os pés

com uma mão no peito

através

do caminho estreito

afastando as silvas

tropeçando

nos arbustos invasores

até à casa dos bisavós,

a casa em ruínas

as paredes ainda de pé

abrigavam árvores novas,

o sobreiro antigo engrossou

a figueira velha medrou

a videira apoiada ao choupo

mirrou

de tristeza entre devoradores

trágicos dos miasmas

de antepassados fantasmas;



o velho encostou o corpo

à parede

estendeu as mãos, quis rodear

todas as vidas passadas,

o tempo escorreu-lhe

entre os braços,

as vidas passam

tão depressa,

ainda ontem saí desta casa

cheia de gente

à procura do mundo,

agora regressei

e já não encontrei

ninguém...



o telhado há muito caiu

ruiu

a chaminé, na pedra do lar

na cozinha de terra batida

nem as marcas das cinzas

vingaram...



o velho lançou um olhar

ao sobreiro que restou,

à figueira, ao choupo preso à videira,

retrocedeu mais encurvado

pelo caminho estreito

a mão no peito,

a reter as lágrimas na garganta,

o tempo corre danado

como torrente

indomável ...



a mão no peito

pelo caminho estreito

arrimado

às lembranças,

as lágrimas

presas na voz,

a mão no peito

pelo caminho estreito...

Sunday, February 21, 2010

Cartas de amor

acende a lareira
aquece-me o coração de chuva
o comboio partiu dentro do horário
não sei em que dia de tempestade
esqueci-me de virar a folha do calendário
perdi o relógio, a hora, a sanidade
fiquei a arder nesta fogueira
de chama e sombra escura...

escrevo sem paragem
o tempo voltou atrás sem pressa nem vagar
anda desorientado em cartas dispersas de amor
nem sei se fui eu que as escrevi
de tanto tempo fugido e esquecido
aquela mulher não era eu na voragem
da paixão e da ausência num patamar
de outras vidas sem flores e sem cor
nem eras tu devo ter sonhado ou descrevi
esse ser e não ser sem nenhum sentido
só para constar de um romance desvairado
que não pode ter existido.

essas folhas de papel quadriculado
não fui eu que as escrevi
a caligrafia não é minha
nem é minha a vida dessas cartas
são papéis de um armário desarrumado
que encontrei em tempos e onde vi
a confusão romântica de gratas
memórias que a distância vai
embelezando ou destruindo
até ao esquecimento.

a chuva, não te esqueças da chuva
e acende a lareira
nem te esqueças dos papéis
lá no fundo do armário
vira a folha do calendário
e acende a lareira
trago o coração de chuva
muito frio
acende a lareira
o comboio já partiu
ficámos os dois com as velhas cartas nas mãos
lê essas cartas não são tuas nem minhas
são um romance antigo dos nossos avós
não te prendas
podes ficar preso nas malhas das palavras
e, se não voltas, fico para sempre à tua espera
à espera que acendas
outra vez este fogo
em dia de chuva...

ouves a música?
é a chuva ou o teu coração?
o meu não é, há muito que não sei dele!

acende a lareira...

Thursday, February 18, 2010

Barcelona



esta manhã

não descemos o carrer de radas

para ir à Calábria tomar um cortado

e comer uma ensaimada

contigo.




não te acompanhámos

no metro da linha verde

até à esquina de frame 25,

nem voltámos

sobre os nossos passos

nem subimos a encosta do parque Güell

assoberbadas pelo trabalho fantasioso

do arquitecto Gaudí,

nem desconstruímos com Picasso

os retratos

e os quadros

as pombas e as flores

numa bebedeira de azul rosa e absinto,

nem sequer nos abrigámos da chuva

na pastelaria ao canto do palácio do rei,

nem passámos na boquería

onde se almoça a filosofar

entre cheiros e cores.


não esperámos por ti

para comer os pintxos

ou beber un cava rosado.


esta manhã foste sozinha no metro da linha verde...


nós abrimos a casa da misericórdia

de Margarit

página trinta e nove

e lemos el vendedor de rosas
solitario y furtivo , con su ramo,
va a locales ncturnos en busca de parejas.

guardámos na agenda os bilhetes de metro

e dos museus

metemos as fotos nos álbuns digitais

e voltámos à rotina da nossa (in)segurança.
não me esqueci outra vez da máquina fotográfica
para te deixar à entrada da porta
um beijo rápido e muitos risos.


esta manhã
não descemos a rua
para ir tomar um café
e beber um sumo de laranja
contigo...

Sunday, January 31, 2010

Sol de Inverno


não fui à missa das onze
nem a outra qualquer
recolhi-me no meu santuário
imaginário
e rezei ou nem sequer
isso, não é rezar
andar
pelo jardim
olhar
assim
espantada
cada árvore estilizada
sem folhas sem nada
só os galhos secos mirrados
aprumados
num céu de sol
azul de inverno.

onde se recolherão os pássaros
em árvores assim pasmadas?

Sunday, January 24, 2010

Baloiço


a miúda ri ao ritmo do baloiço
para cá e para lá

houve um baloiço à beira-mar
num tempo de verão e éramos pequenas
tão pequenas que quase me esqueci
dávamos-lhe balanço com força
esticávamos as pernas os pés
atirávamos a cabeça
e os ombros para trás
e baloiça que baloiça
o baloiço subia no ar
cada vez mais alto
dávamos-lhe balanço
parecia voar
os risos erguiam-se nas gargantas
batiam-se palmas
dávamos-lhe balanço
sem descanso
pernas esticadas
cabeça para trás
e muitos risos
subíamos alto
mais alto
do outro lado da barra
víamos o mar.

o pai empurra o baloiço
da miúda dá-lhe balanço
talvez um dia procure
sozinha alcançar lá do alto
o mar...

Sunday, January 17, 2010

Lar, doce lar


velhas e velhos
numa casa
arrumados
em frente
à televisão

chamam-lhes lares
a essas casas
onde as velhas e os velhos
inquinado o tempo
numa volta da vida
se arrumam
encurralados
à espera de vez

há uma lista
de nomes escritos
nuns papéis amarrotados
na (des)esperança de ocupar
o lugar
do passageiro que partir
primeiro

é uma sala de espera
onde aguardam
muito arrumados
a chamada
para o último comboio.

Wednesday, January 13, 2010

Caminhos



Caminho.
Desenrolo pensamentos.
O nevoeiro esconde-me.
Tu sais de casa para me encontrar.
Segues os meus passos.
Encontras-me.

Não trago relógio.
Guio-me pela chegada
e partida dos comboios.

Ou quando chegas
ou quando não vens.

Desenrolo pensamentos.
Caminho.

Saturday, January 02, 2010

Douro


choravam as lajes de xisto,
tristejavam cinzento as videiras
ajoujadas nas terras
roubadas à pedra,
o douro desatinava
em sangue de barro
entre as penedias,
verdes, as oliveiras
orlavam os socalcos,
a água descia nas levadas,
escorria dos montes
numa invernia sem nome,
um copo de vinho
sobre a toalha branca de linho
descobria sabores antigos
arrancados à profundeza
da história dos homens.

Saturday, December 19, 2009

Prenúncio de neve



sumiu-se
o canto dos pássaros
no estridente assobio
de vento gelado...

Tuesday, December 15, 2009

carta

o homem envia uma carta
que não escreveu,
não aprendeu
a ler.

Graus... negativos

o sol finge conforto
no frio marcado a branco
geométrico
na sombra do banco
de madeira,
em todas as sombras.

Thursday, December 10, 2009

Manhã simples de Outono



o céu riscado

de branco-giz

o velho sentado

ao sol de outono

no banco de pedra

rabisca na aragem

morna e quieta

versos sem rima

de tempo ou sonho

que imagina

tranquilo e feliz…

Wednesday, December 09, 2009

Duplicado


a luz fugidia
filtrada
pelas nuvens cinzentas
da manhã serena
suaviza
o ar parado,
nem um sussurro
da folhagem;
o canto dos pássaros
sossegado enternece,
a realidade revela-se no lago,
em duplicado,
o comboio partiu
sem ruído,
vazio,
ninguém procura
outros sóis, outra paragem;
o alecrim floresce
no canteiro selvagem.

Saturday, December 05, 2009

Dia de chuva

a noite chegou a meio da tarde
trouxe o nevoeiro do cimo da serra
e cobriu de frio a face da terra
o lago, o rio, o mar, a árvore...
amanhã choverá o dia inteiro
a clarear a alma angustiada,
descerá a prece da madrugada
e a água vai engolir o nevoeiro...
como quem chora sem saber porquê!

Monday, November 30, 2009

Frio


o frio arde sobre as águas do lago

a conversa flui à lareira

o vento corre desatinado

como se procurasse eira ou beira

onde se abrigar da aragem da serra

a noite cai escura; tu chegas e apenas

entardece nas palavras certas.

Thursday, November 19, 2009

Muro


Sigo o meu caminho habitual,
encontro o sentido proibido
prantado no meio da rua.

Ignoro o sinal?
escolho outra estrada
sem escolhos à vista?

Encolho os ombros
de cinismo puro?

Volto atrás
a ganhar alento?

Salto o muro.
Ponto.

Perguntam: qual muro?
Um muro. Invisível.
Mas estava lá.

E os pássaros?
Sei lá!
Voaram.

Tuesday, November 17, 2009

Depois da tempestade




depois da tempestade
escorre subterrânea a água,
a terra respira saciedade,
os pássaros voam em bandos
eufóricos da bonança,
as pedras magoadas
de granito cinzento,
o lago quieto hoje
espelha árvores
ao contrário.

Friday, November 13, 2009

Pesadelo


Contorciam-se enroscadas umas nas outras
as cobras.

Acordei: estava presa num qualquer lugar esquecido,
as portas não abriam,
gritava por ti sem voz
e não ouviste o meu pensamento.

Acordei: chovia e o céu cinzento oprimia a terra,
que não respirava nem gerava flores.


Acordei: quatro caminhos e eu sem saber o destino.
O comboio nem sequer partiu para lado nenhum.

Quero adormecer e acordar nos teus braços.

Monday, November 09, 2009

Contra a corrente


vou contra a corrente
desço ao fundo da memória

a resgatar vestígios da minha história.


cruza um pássaro a voar

diante do meus olhos.


ainda não chove,
as aves pressentem a chuva

no perfume do vento.

Wednesday, November 04, 2009

Viagem

andavam empurrados
por fortes ventanias
de terra em terra;
de quando em quando,
em momentos de acalmias,
ainda lhes tremiam
as pernas de lutar
contra os vento desorientados,
encontravam um lugar
momentâneo e abrigado
dos ares furiosos e das neves;
sabiam que não era para sempre,
amarravam as árvores ao chão
para não voarem à procura
de uma nesga de céu, quando
se adivinhava vendaval;
não sentiam compreensão
naquela viagem sem destino,
sem levar objectos nem amigos,
não havia tempo de os guardar,
eram para eles um sonho fugaz;
um dia, cada um, por cansaço
ou escolha, encontraram a paz
num canto e sentem prazer
em ficar mais e mais,
embora a alma de nómadas
de antigamente continue inquieta;
então, fogem através das montanhas
sem pensar, sem ventos nem tempestades,
e procuram o mar; depois, regressam,
não sabem se é para ficar.

Sunday, November 01, 2009

Sonho


caiu uma chave
ao fundo do poço.

um véu de folhas
amarelas desceu
e cobriu a entrada.

nunca mais ninguém
encontrou a chave.

Wednesday, October 21, 2009

Cinzento-luz

está uma linda manhã cinzento-luz
( a luz brilhou na tua voz alegre
logo cedo do outro lado
sem o torrencial da água!) ,
o pássaro esconde-que-aparece
entre as gotas no silvado,
a chuva cai mansamente
tão mansamente a cantar
baixinho que nem o silêncio
mexe no verde-árvore
dos salgueiros junto ao lago.


Monday, October 19, 2009

Outubro


a luz fresca da manhã azul-miragem
a aragem de franzir o estômago
o prenúncio do aferrolhar o corpo
em outra roupagem,

uma esplanada no âmago
da cidade quieta em sopro
de vida translúcida e amarga,

só apetece entrar no comboio e partir.
Lá para onde o horizonte abrir
em liberdade ilimitada.

Tuesday, October 13, 2009

Pássaros


trago no olhar o canto dos pássaros
e nos cabelos um fio de brisa fresca
volto tão leve que me apetece voar
(quem sabe se não voei?)...

Wednesday, October 07, 2009

Depois da tempestade


depois da tempestade nocturna

não me conformo nesta prisão sem grades;

se não decido partir, como vou conhecer

os cinzentos indecisos espalhados pelos céus,

como vou saber as árvores desfalecendo

em gotas e folhas e o ribeiro descendo

envolto em lama e espuma,

e como vou seguir o vento alvoroçado

sem bússola nem norte

ou os pássaros estonteados de água,

como posso encontrar o caminho?

quero ler o espanto das gentes,

quando eu atravessar o temporal.

vou partir, livre como um verso,

serei árvore e seiva

sem criar raízes num lugar só.

Outono



Esfuma-se em brumas avalónicas a cinzentura do dia,

descolam-se as gotas das nuvens

e poisam a embalar a vermelhidão de folhas,

cânticos desfeitos em águas cristalinas

ecoam na montanha invisível,

deslizam pelas pedras endurecidas,

nem fio de vento passa entre as divindades

ocultas de rochedos e águas.

Saturday, October 03, 2009

Outono



o outono vai escorrendo verão pelas horas de sol
traz à solta uma brisa de crianças e pássaros
finge pinturas nas folhas amarelo-avermelhadas
e bonançosas crescem as rosas lá onde os botões
pequenos coloridos riem de primaveras passadas!

Tuesday, September 22, 2009

aparência


manhã magnífica
de pássaros, rosas
amoras e flores silvestres,
parece que a terra
rima facilmente
com alma pacífica,
não fosse o olhar
que emperra
nos títulos garrafais
e tristes dos jornais,
não fosse o submerso
fundo lodoso do lago
perturbar o equilíbrio
ténue do universo.

Saturday, September 19, 2009

Pássaro e rosas



o som do sino

um longínquo sinal

chega de uma igreja

que não sei

ouço os pássaros

não os vejo

apenas os entre-sonho

nos ramos gotejados

da chuva matinal.

o homem de chapéu

na cabeça quedou

sentado inclinado

no banco de pedra

leva as mãos ao rosto

(cansado do caminho que fez

ou do que tem para andar?);

páro o olhar nas gotas

caídas pelas folhas

e flores, olho outra vez

e o homem já abandonou

o momentâneo lugar

de paragem.


à passagem,

meto na boca duas

amoras maduras;

sento-me no chão lento

de palha amarela,

não quero espantar

o pássaro pousado

no galho mais alto;

sigo o céu cinzento

que amanhã não

será mais igual,

amanhã volto contigo!


sem me esconder,

roubo rosas e pássaros

para pôr nas fotografias.

Thursday, September 17, 2009

noite


a noite fez-se mesmo uma antiga noite de breu sem luz, sem velas, sem candeias, sem sinos,
apenas a noite do princípio dos tempos: clarões abrasadores arrasaram a escuridão
por momentos claros; pressentiu-se a queda das gotas ao longe antes da real percepção
da chegada em aluvião
da chuva carregada de cheiros

a manhã chegou limpa
límpida
acalmou o pó nos caminhos
e os pardais entrecruzam os voos e os cantos
de ramo em ramo como se tivesse chegado a primavera…

Sunday, September 13, 2009

pássaros


ar morno
trovoada no ar
nuvens em castelo
anda um corvo
negro a voar
flores pequenas
amarelas
entre a secura
do restolho;
as rãs escolhem
a frescura
do lago artificial
adiante ainda as amoras
maduras e negras
a chamar os caminhos
quentes e esquecidos;
onde andam os pássaros
que ninguém os ouve?
talvez à sombra quietos
a fugir das horas
batidas pelo calor.
e nisto que surpresa!
ultrapassam nossos passos
e em abraços
prendem os ramos
(nós vamos
lado a lado
e paramos)
os pássaros…

Thursday, September 03, 2009

Garça


o rio outrora selvagem

desliza águas agora serenas

as vinhas cobrem encostas

solarengas

imagem

de sangue e suor

lágrimas e sonhos

em socalcos plantados

por tempos seculares

na margem

a garça

com graça

o rapaz abraça

a jovem

navegantes

(amantes

efémeros

julgando-se eternos)

de um barco

em bonança.

Monday, August 31, 2009

pensamento


o que eu penso
muita gente pensa
a diferença
é este atrevimento
de colocar o pensamento
em palavras
no papel... virtual.

Wednesday, August 26, 2009

historieta




acordo sem horas de relógio
ainda nem o encontrei
exilado que foi
para algum saco sem fundo
abro a cortina
de elementos marítimos
saio para a varanda
e alongo o olhar sem neblina
no mar em frente
a praia ainda aparentemente
deserta
desperta
as barracas nuas ainda
um guarda-sol verde plantado
cedo na areia
e sempre o olhar no profundo
mar este sentimento
de obsessão e loucura
de conhecimento
do mais além
se calhar foi assim
que o ínclito infante
se pôs em sagres
a mão em pala, os olhos
a cismar e a cabeça
a imaginar outro mundo

regressei
à montanha e trouxe comigo
aquela imagem trago-as sempre
fecho os olhos e estou
numa varanda frente ao mar
o mesmo mar outra praia
um rochedo algas e areia
e na praia quase deserta
que desperta
pouco a pouco
duas mulheres caminham
páram e avançam
em gestos e risos
e guardam as conversas
como conchas e búzios...

Monday, August 24, 2009


corpos estendidos na areia sedentos de sol
gaivotas sem gritos inquietos espreitam o mar

ao sabor das ondas e do tempo
o rochedo
ergue-se em altar


nas horas de nevoeiros sebastiânicos
partem os pescadores


e à tardinha o sol cai em fogo

ou anuncia a noite em branco brilhante.

Tuesday, August 04, 2009

pausa

Este blogue está pasmado: é do sol... vai continuar pasmadito até finais de Agosto... boas férias, bom descanso!

Thursday, July 30, 2009

insónia

a insónia atrai pesadelos

das entranhas do mundo

anseios telúricos, apelos

das profundezas ignoradas

vulcões quase extintos

as lavas-fogo escoadas

em fantasmas não ditos

presenças pressentidas

em corpos inabitáveis

poços escuros sem fundo

monstros ingovernáveis

de almas partidas…

enquanto não emerge

a aurora e o sol não cresce

das cinzas nocturnas…

Tuesday, July 21, 2009

A lua

a lua tem sabor a noites de verão em céu estrelado estendíamos a mão e tocávamos com os dedos
na luz e nas crateras

ou ficava inatingível e descíamos das estrelas para a escuridão com muitos pontos brilhantes e o estio era um país único e tinha noites quentes e avós

Friday, July 17, 2009

relógio


guardei o relógio
não sei onde
ando assim à toa
sem horas nem desoras
guiada por ecos de luz
sombras coladas
às paredes caladas
e penumbras ocas
pelas vozes vadias
dos pássaros inquietos
o vazio das esplanadas
o nevoeiro dos sonhos
entre sonos à solta…

guardei o relógio
... só o tempo não pára…

Tuesday, July 07, 2009

Poeta

Poeta
ficcionista de sentimentos
paisagens interiores
de tormentos
e amores
espírito fora dos muros
do mundo
desconstrói-se
em pedras e chão
eleva-se
em absinto e explosão
a alma embriagada
de palavras e vida...

Saturday, July 04, 2009

Hortênsias

Apago a noite.
Durmo.
Acordo com a luz da manhã.
Cada dia, renascer
é um milagre, que não sabemos...

Na jarra bojuda, um ramo
de hortênsias
brancas, rosa e azuis...

Thursday, July 02, 2009

dia perdido

perdi um dia;
procurei-o
por toda a parte,
encontrei-o trancado num sótão
sem chave possível...


Wednesday, June 24, 2009

Vou ali...

Vou ali e volto já!
Até terça!!!

Monday, June 22, 2009

Medos

o tempo
ultrapassa-me
num desconcerto
tenho medo
de ir até ali
tão perto
e ao voltar
já não me encontrar!

Monday, June 15, 2009

Sem sentido

o sábado inteiro
-há quem passe a vida inteira-
à procura de um sentido
para a vida

e se não há sentido?
se a vida não é uma passagem?
nem vale de lágrimas
nem desfiladeiro nem cruz?

se a vida é simplesmente
sentido proibido
miragem
caminho de sombras sem luz
nem chegada nem partida
palavra sem direito a erro
desterro
precipício
delírio
beco sem saída
naufrágio
jogo sem princípio
nem fim?

se é apenas o tempo
de uma rosa florir
efeito borboleta
equilíbrio de balança
o eclodir
de um ovo
gota de sangue
uma bênção
dos avós
uma criança sorrir
passo de dança
a chuva cair
a água gelar
a queda de uma folha
uma decisão
a sós
desgosto de amor?


o tempo
de um suspiro
o cansaço
uma palavra
um abraço?

será breve
sempre
o tempo

será mais leve
se alguém estiver
à nossa espera?!

… entretanto,
num tempo
de um pranto,
de um riso,
de um cheiro,
um segundo impreciso,
três mulheres colhem flores de sabugueiro…

Friday, June 12, 2009

Prémio Lemniscata

da kaótica http://opafuncio.blogspot.com/
"O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.


Sobre o significado de LEMNISCATA:

LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.”


Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)


Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.
Texto da editora de "Pérola da cultura"


Segundo as regras este prémio é para ser atribuído a 7 blogues.

Levem-no os primeiros sete visitantes...

Thursday, June 04, 2009

Passeio

Saio
para um passeio
o caminho ladeado
de pássaros,
esperam por mim,
saltam do meio
dos arbustos e das flores,
levantam voo
até mais à frente
voltam atrás,
voltam à direita,
giram à esquerda,
sobem e descem
passam em tangente,
ziguezavoam,
equilibram-se
num ramo frágil,
baloiçam,
espreitam da árvore,
escondem-se em cantorias,
fogem, regressam,
descem em voo baixo,
serpenteiam,
tonteiam,
esperam...
e recomeçam
as traquinices,
passeio num caminho
ladeado de pássaros...

Monday, June 01, 2009

Crianças


Os pássaros novos algazarreiam em coro de brincadeiras e chilreios escondidos nos ramos ou voam poisando no chão sobem entre as folhas escapando ao calor
procuram a sombra logo pela manhã


as crianças em roda
debaixo da árvore comem uma maçã

Tuesday, May 26, 2009

Fim de semana


pedrada
na rotina
a água
em círculos
suaves
os mercados
as catedrais
as conversas
as calçadas
ancestrais
a água
retoma
a superfície
tranquila
a rotina
os pássaros
aos pares
voam
do chão
florido
dois melros
amarelos
saem ao caminho

Saturday, May 16, 2009

Ponto-pássaro























Era um ponto.

Parecia um pássaro.

Era um pássaro.


Parecia um ponto.



um ponto perdido?


um pássaro ferido?



dei um passo


estendi os dedos


o pássaro acordou


do seu ponto


no céu ficou


um pássaro

ou um ponto

ao longe!

Friday, May 15, 2009

Aniversário


Era a mãe e a filha
em viagem
a criança a (dis)correr
silêncios
no quadro da paisagem
muito quieta
ensimesmada
e a mãe:
então, filha,
vais tão calada?

e a criança, baixinho,
para não espantar
os espíritos
os sonhos as urzes
da serra:

schiu! Estou a pensar!...

e caiu entre elas

um momento
único cúmplice e lento
de eternidade
que ficou só

entre elas…

Monday, May 11, 2009

Chuva


acompanhou-me a chuva sem surpresa

duas asas negras de estorninhos
num voo apressado
e solitário

nenhum outro pássaro
a voz encharcada
esconderam-se no arvoredo

molhadas as pontas do cabelo
a chuva na cara


perto, os carros mastigavam o chão.

Tuesday, May 05, 2009

Manhãs




ai o estio destas manhãs
a jogar às escondidas
os pássaros e eu
os grilos e as rãs
as aves a cruzar
o ar à frente atrás
em direcções várias
eu atarantada
a correr por uma foto
a rã a fugir na água
verde estagnada
o pássaro veloz
em voos de dança
acrobática
os grilos camuflados
numa cantoria danada
e o verão quase ...