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Saturday, February 23, 2013

Neve

o turista chegou numa manhã de neve

gelaram os gestos no alto do castelo
e o vento levou as palavras frias.








Tuesday, February 28, 2012

O gato

o gato escondido
felino
camaleónico
entre os tufos de erva
verde esturricada
da geada

pressente-nos

encolhe-se
enterra-se
os olhos espertos
estica-se
distende-se todo
sobre as patas traseiras

desviamos o olhar
um segundo
um mísero segundo

vai o gato todo ufano
cabeça de lado
a olhar de viés
a desaparecer
junto à casa em ruínas

juro que vai a rir-se...

Friday, February 18, 2011

Gotas

espreito por entre o ar frio
a primavera

espio
os gomos nos galhos

são gotas de chuva.

Saturday, January 29, 2011

Neve

o ar macio
o pássaro negro de gravata vermelha
ancorado num ramo da árvore esquálida
o céu pálido
a neblina encaracolando-se no cume da serra
desce a neve
na quietude do cinzento.

Tuesday, January 11, 2011

sonho




deste-me uns lençóis às flores,
quando eu não tinha chão;
prendeste-me nos braços,
quando eu caí à procura de uma estrela;
lançaste um papagaio de papel para eu ver o céu...

Wednesday, January 05, 2011

Nevoeiro

 no caminho, seguem-me os meus próprios passos
as gotículas do nevoeiro trespassam-me os sonhos complexos
a chuva entranha-se nos meandros oníricos das manhãs...

Wednesday, December 22, 2010

Sunday, January 31, 2010

Sol de Inverno


não fui à missa das onze
nem a outra qualquer
recolhi-me no meu santuário
imaginário
e rezei ou nem sequer
isso, não é rezar
andar
pelo jardim
olhar
assim
espantada
cada árvore estilizada
sem folhas sem nada
só os galhos secos mirrados
aprumados
num céu de sol
azul de inverno.

onde se recolherão os pássaros
em árvores assim pasmadas?

Sunday, January 24, 2010

Baloiço


a miúda ri ao ritmo do baloiço
para cá e para lá

houve um baloiço à beira-mar
num tempo de verão e éramos pequenas
tão pequenas que quase me esqueci
dávamos-lhe balanço com força
esticávamos as pernas os pés
atirávamos a cabeça
e os ombros para trás
e baloiça que baloiça
o baloiço subia no ar
cada vez mais alto
dávamos-lhe balanço
parecia voar
os risos erguiam-se nas gargantas
batiam-se palmas
dávamos-lhe balanço
sem descanso
pernas esticadas
cabeça para trás
e muitos risos
subíamos alto
mais alto
do outro lado da barra
víamos o mar.

o pai empurra o baloiço
da miúda dá-lhe balanço
talvez um dia procure
sozinha alcançar lá do alto
o mar...

Saturday, January 02, 2010

Douro


choravam as lajes de xisto,
tristejavam cinzento as videiras
ajoujadas nas terras
roubadas à pedra,
o douro desatinava
em sangue de barro
entre as penedias,
verdes, as oliveiras
orlavam os socalcos,
a água descia nas levadas,
escorria dos montes
numa invernia sem nome,
um copo de vinho
sobre a toalha branca de linho
descobria sabores antigos
arrancados à profundeza
da história dos homens.

Wednesday, February 04, 2009

Inverno


o sol irritou-se com a chuva imparável

veio à janela e abriu as cortinas

foi um momento

a mãe chamou-o para dentro

e as gotas os ventos as neblinas

retomaram o ciclo (in)quebrável...