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Saturday, April 09, 2016

Saudade



A lua inundou o céu, vermelha, majestosa, cheia de contos fantásticos e lendas.
O homem acordou o gato, embrulhou-se na manta quente e macia.
Instalou-se na varanda, sozinho e quieto, afagando, sem cessar,  a cabeça do gato
Que se quedou ronronando, aconchegado ao peito do dono solitário.
Adormeceram ambos, ao luar de Setembro, como se fosse noite em Janeiro.
O homem sonhou o corpo da mulher, descansado, desejado,  ali ao lado,
Envolveu-a num abraço, apertou-a contra si, fortemente,
Estremeceu, adivinhando que podia um dia perdê-la para sempre.
Ainda hoje acorda todas as manhãs e espera encontrá-la junto a si.
No café, o dono vê-o a olhar fixamente a primeira página do jornal diário
Sem nunca passar dali: aguarda que a mulher passe as folhas devagar,
 Não acontecerá nunca mais, mas o homem vive ainda essa fantasia.
Coloca dois pratos na mesa, escolhe a toalha que ela preferia,
 E chora,  dolorosamente, quando se dá conta da ausência prolongada.
O homem despertou manhã já entrada, os pés frios, a alma gelada.
O gato escapuliu-se-lhe do colo e entrou casa dentro sorrateiramente.


in 
Somos Instantes, Colectânea  
Papel d'Arroz Editora




Tuesday, February 10, 2015

Insónia-memória

Dentro da insónia,
um emaranhado de videiras
Enredam nos sonhos
Um conjunto de nós;
Na casa antiga dos avós
Palavras adormecidas
Coladas nas paredes
Em cartas de amor
E fotos desamparadas
 numa triste nostalgia
em aparente vigia,
os móveis esquecidos
as camas paradas,
vidas ultrapassadas.
Os caminhos despercebem-se
Atolados em sedimentos
Acumulados nos tempos
A correr sem parar.
Uma mesa num canto
Espavorida de espanto
Acompanha o ranger
De um soalho carcomido
Sem passos a correr.
Lá fora, um malmequer
(Ou será bem-me-quer?).
Nos ouvidos, um zumbido
Do vento a esbracejar
Como um búzio perdido
Afastado do mar.


Saturday, March 03, 2012

Casas

a casa
a casa onde nasceste
no meio de quintais
ao lado do poço
a casa de passagem
na rua da nesga do mar
a casa da tua infância
a infância foi ali
(depois perdeu-se
não sei em que momento do caminho
encruzilhada
viagem
portal
casa
janela
lágrima
riso)
diante da baía
a baía vive também nos livros
a baía do Verão
da praia das barracas coloridas
às riscas
dos banhos no mar
dos polvos arrancados às pedras
das corolas azuis sobre os muros
das ervilhas-de-cheiro
a casa do nascimento
da tua primeira irmã
a casa do Inverno
o mar a entrar corredor dentro
o pai a lançar-se às ondas de Fevereiro
os pass(e)antes a vê-lo a nadar
encolhidos de frio
a praia de todos
a praia só nossa
as pequenas fugas
os pequenos desgostos
as tranças
o livro minúsculo do José do Egipto
(existe até hoje milhões de anos passados)
a irmã em convalescença
o Catitinhas as barbas brancas
a criançada
sentada na areia
a ver os robertos
a estação a automotora
que te levou do paraíso...


Sunday, March 14, 2010

F.

... ... ... ... ... ... ... ...

Levantaste-te da mesa apenas para ir lá fora fumar o último cigarro.

É isso que eu quero crer.

(Não voltaste.

Partiste.

Num domingo cinzento.)


excerto/final de um texto a recordar a minha amiga F.
e que vou guardar para mim.

Wednesday, October 08, 2008

Quando falta o chão...

Eras o esteio:
a morte sobreveio
dura
numa loucura
de outros
na estrada
molhada,
na ponte,
a alegria
estagnou.

Tomou
o teu lugar
o teu coração
a serenidade
do teu irmão.

Hoje faltou
o nosso chão!

Saturday, August 23, 2008

Era o mar


Ao pôr-do-sol, ficávamos suspensos das cores do céu e do mar;
- nada nem ninguém entre nós e o céu ou o mar!-
mais tarde, só o mar percebia o imenso silêncio
desencadeado pela noite fora-dentro...
já as manhãs mansinhas entre neblinas transparentes
vinham fustigadas de ventos persistentes
até desaparecerem e os raios do sol bem quentes
incendiavam corpos e adormeciam princesas;
pelos areais sem fim, os minúsculos grãos de luzes acesas
deixam-nos sem fôlego de tão brilhantes e intensos;
magicamente, escapam-se por entre a areia espumas
brancas, leves e fofas e as ondas enredam-se umas
nas outras e desafiam-se em corridas e as águas
límpidas e frescas são pérolas a cantar a beleza;
fechamos os olhos no silêncio com mar em fundo e cheiro a maresia
e guardamos este verão em nós como um sonho ou fantasia...
....



Pelas praias belíssimas de Peralta, Val(e)mitão, Areia Branca, S. Bernardino, , Consolação
E agora ainda vamos dar mais uma voltinha ( lá para o nordeste); não tarda voltamos ao ritmo normal (?)...

Wednesday, March 26, 2008

Tempo de (matar) saudades



foi o tempo de
um sopro
uma aragem
uma paragem
uma giesta em flor
um floco de neve
uma pedra de granizo
um carinho
um abraço
uma palavra
um gesto
chegaste


no tempo de
um sorriso
e partiste


como brisa
de saudade!