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Wednesday, June 30, 2010

Momentos


Do meio do feno cortado


escapuliu-se uma cobra


para a estrada onde sobra


metade do réptil estatelado,




trespassou-me um arrepio


vindo da memória do princípio


sem fim dos tempos bíblicos


pagãos, supersticiosos e míticos.


Wednesday, May 26, 2010

Paz

talvez seja isto a paz!

estes momentos:


o vento vagaroso


empurrando


as nuvens cinzentas,


a chuva caindo cantando


sobre folhas, trevos,


rosmaninhos e rosas,


as almas dos poetas


pairam sobre a terra.

Wednesday, April 28, 2010

À espera


ouço a porta fechada

fico a acordar os sonhos

saio para a rua

debaixo de chuva

a lavar as lágrimas

que o vento enxuga;

não tarda o sol...

Saturday, December 19, 2009

Prenúncio de neve



sumiu-se
o canto dos pássaros
no estridente assobio
de vento gelado...

Thursday, December 10, 2009

Manhã simples de Outono



o céu riscado

de branco-giz

o velho sentado

ao sol de outono

no banco de pedra

rabisca na aragem

morna e quieta

versos sem rima

de tempo ou sonho

que imagina

tranquilo e feliz…

Wednesday, December 09, 2009

Duplicado


a luz fugidia
filtrada
pelas nuvens cinzentas
da manhã serena
suaviza
o ar parado,
nem um sussurro
da folhagem;
o canto dos pássaros
sossegado enternece,
a realidade revela-se no lago,
em duplicado,
o comboio partiu
sem ruído,
vazio,
ninguém procura
outros sóis, outra paragem;
o alecrim floresce
no canteiro selvagem.

Monday, November 30, 2009

Frio


o frio arde sobre as águas do lago

a conversa flui à lareira

o vento corre desatinado

como se procurasse eira ou beira

onde se abrigar da aragem da serra

a noite cai escura; tu chegas e apenas

entardece nas palavras certas.

Tuesday, November 17, 2009

Depois da tempestade




depois da tempestade
escorre subterrânea a água,
a terra respira saciedade,
os pássaros voam em bandos
eufóricos da bonança,
as pedras magoadas
de granito cinzento,
o lago quieto hoje
espelha árvores
ao contrário.

Wednesday, October 21, 2009

Cinzento-luz

está uma linda manhã cinzento-luz
( a luz brilhou na tua voz alegre
logo cedo do outro lado
sem o torrencial da água!) ,
o pássaro esconde-que-aparece
entre as gotas no silvado,
a chuva cai mansamente
tão mansamente a cantar
baixinho que nem o silêncio
mexe no verde-árvore
dos salgueiros junto ao lago.


Wednesday, October 07, 2009

Depois da tempestade


depois da tempestade nocturna

não me conformo nesta prisão sem grades;

se não decido partir, como vou conhecer

os cinzentos indecisos espalhados pelos céus,

como vou saber as árvores desfalecendo

em gotas e folhas e o ribeiro descendo

envolto em lama e espuma,

e como vou seguir o vento alvoroçado

sem bússola nem norte

ou os pássaros estonteados de água,

como posso encontrar o caminho?

quero ler o espanto das gentes,

quando eu atravessar o temporal.

vou partir, livre como um verso,

serei árvore e seiva

sem criar raízes num lugar só.