Chove.
A minha Mãe branca, fria, silenciosa, coberta de flores.
Chove.
O meu Pai arranca do coração gritos de pedra.
Chove.
Nós emudecemos de espanto da ausência
que entra pelos olhos dentro e nos cega.
O meu Pai recorre os passos da vida dele.
da vida dela.
da nossa vida.
Como uma via sacra.
Chove.
Chove. Ou não chove.
Quem passa, deixa palavras que mal se ouvem.
O meu Pai em solilóquios de dor não acredita.
Sabe que as pessoas chegam e partem
partilham o seu sofrimento
e ele percebe isso e fica incrédulo.
Parou de chover.
A minha Mãe esconde-se num buraco escavado no chão.
Cobriram-na de rosas vermelhas. Nós temos os olhos vermelhos.
Já não temos lágrimas.
Andamos por ali como sonâmbulos enlouquecidos.
A falar baixinho. Sem falar. A trocar tudo.
Aos abraços. A alma aos tropeções.
Chove.
A minha Mãe, branca, fria, coberta de flores.
Sempre que voltarmos de longe ou de perto,
se demorarmos muito ou pouco,
quando abrirmos a porta,
Ela já não vai estar lá, como sempre esteve, à nossa espera.
Chove. Outra vez.
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Friday, March 29, 2013
Thursday, March 22, 2012
Ainda outra casa
a casa do andar de cima
numa travessa quase sem saída
tinha um sótão
e um quintal com um tanque
a tua Mãe gastou-se naquele tanque
também tinha um galinheiro ao fundo
havia sempre um quintal e um galinheiro
nas casas onde viveste
o quintal dava para um caminho estreito
era aí que havia as nespereiras
de um lado e outro
o caminho ia ter à rua dos combatentes
por ele ias ver a saída do futebol
e os jogadores da académica
o zé carvalho foi depois campeão
dos 400 m barreiras
morava lá perto
muitas vezes
estava à janela
o teu pai partiu
voltou
as paredes velhas
choraram a ausência
o chão encerado
a arca de folha ao cimo das escadas
o terramoto, uma vez houve um terramoto.
numa travessa quase sem saída
tinha um sótão
e um quintal com um tanque
a tua Mãe gastou-se naquele tanque
também tinha um galinheiro ao fundo
havia sempre um quintal e um galinheiro
nas casas onde viveste
o quintal dava para um caminho estreito
era aí que havia as nespereiras
de um lado e outro
o caminho ia ter à rua dos combatentes
por ele ias ver a saída do futebol
e os jogadores da académica
o zé carvalho foi depois campeão
dos 400 m barreiras
morava lá perto
muitas vezes
estava à janela
o teu pai partiu
voltou
as paredes velhas
choraram a ausência
o chão encerado
a arca de folha ao cimo das escadas
o terramoto, uma vez houve um terramoto.
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Zé Carvalho
Friday, May 15, 2009
Aniversário
Era a mãe e a filha
em viagem
a criança a (dis)correr
silêncios
no quadro da paisagem
muito quieta
ensimesmada
e a mãe:
então, filha,
vais tão calada?
e a criança, baixinho,
para não espantar
os espíritos
os sonhos as urzes
da serra:
schiu! Estou a pensar!...
e caiu entre elas
em viagem
a criança a (dis)correr
silêncios
no quadro da paisagem
muito quieta
ensimesmada
e a mãe:
então, filha,
vais tão calada?
e a criança, baixinho,
para não espantar
os espíritos
os sonhos as urzes
da serra:
schiu! Estou a pensar!...
e caiu entre elas
um momento
único cúmplice e lento
de eternidade
que ficou só
único cúmplice e lento
de eternidade
que ficou só
entre elas…
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