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Friday, April 08, 2016

Fantasiando



Deslizam as gotas da chuva devagar
Contra o vidro transparente
Parecem lágrimas por chorar,
Rosto colado à janela à tua espera.
Passa o tempo e tu ausente,
Deito-me na cama vazia
Na esperança de uma quimera,
Sonho ou vivo uma fantasia,
Dou voltas, enrolo-me em mim,
Tropeço no sono, acordo outra vez,
Durmo aos repelões, a porta fechada,
Na ânsia da luz da madrugada.
Surge a manhã, doída, dorida, sem ti.
Talvez chegues mais logo, talvez,
Quando eu tiver partido assim
Desfeito o engano, a ilusão,
Deixando pelos cantos ali
Perdido um retalho do coração.
Talvez chegues mais tarde, talvez…
Quando, um dia, envelhecer
Vou lembrar este preciso instante
Em que nos perdemos um do outro
E no jardim, deixou de chover:
Escorrem sobre as pétalas de rosa
Gotículas de água como pérolas
Sobre seda!

in 
Somos Instantes, Colectânea  
Papel d'Arroz Editora

Tuesday, January 27, 2015

Os tempos

Antes de a chuva chegar
a roupa colorida
baloiça divertida
nos estendais
camisas e camisolas
braços a dançar
e cabeças de pernas para o ar
e os pardais, uns estarolas,
a fugir de entre os raminhos
entre gargalhadas loucas e fininhas
enganados pelo sol.

Virá a chuva, o frio, o vento, a neve,
os pássaros vão embrulhar-se quietos
junto aos ramos mais fortes, discretos
como folhas leves.

Ao longe, o comboio passa no horário certo.

Virá a neve, o gelo, virá a calma, o frio
os pardalitos pequenos
dispõem-se à beira do lago
em pose de mergulho, voam a rasar a água
ou equilibram-se numa folha a boiar
e agitam as asas em direcção ao céu.

Virá a neve, o gelo,
o sol, o degelo.

Ao longe, um sobressalto, o incerto, o inesperado
ao toque de um sino assustado.


Monday, June 11, 2012

Na cidade. A chuva.

na cidade
ruas desertas molhadas sombrias
correm fogem as pessoas nestes dias
penumbras dentro-portas de repente


o gato
sobre o telhado velho e ferrugento
sai a tomar ar e sol até vento
a aragem forte corre na rua em frente.



Friday, May 04, 2012

Hoje chove

hoje chove
não já aquela chuva arrependida
mas chuva assim bem caída
directa direita à terra sedenta

na ponte
havia uns escritos uns sarrabiscos
umas palavras mal escritas uns riscos
um redundante amo-te amante






Monday, April 16, 2012

No parque. Chuva.

Que saudades eu tinha
de caminhar à chuva
limpar a alma
seca do pó dos tempos
caminhar nesta calma
sentir cada gotinha
que a terra suga
e as flores sorvem
ficar assim parada
as andorinhas em acrobacias
rasantes sobre o lago cinzento
quedar-me assim deslumbrada
a sensação de fresca liberdade
das crianças de sempre
de outros tempos e lugares
a chapinhar em cada poça encharcada
chegar a casa molhada
e os pés às gargalhadas...




Monday, March 14, 2011

A primavera... talvez

cai uma chuvinha tonta
a primavera grita sob o céu ainda cinzento
a tristeza dói até à medula

caminho no chão enlameado
para onde fugiram os pássaros, que ninguém os ouve
voa de ramo em ramo um corvo
sobrevoam o lago umas andorinhas de penas negras
as gotas escorrem nos caules das árvores adormecidas

um sobressalto de primavera
numa volta do caminho

no vaso esquecido ao canto da varanda
desabrocha a medo um botão pequenino.

Wednesday, January 05, 2011

Nevoeiro

 no caminho, seguem-me os meus próprios passos
as gotículas do nevoeiro trespassam-me os sonhos complexos
a chuva entranha-se nos meandros oníricos das manhãs...

Wednesday, June 09, 2010

Sob a chuva


chuva no parque

o parque só para mim

os pássaros em voo rasante sobre o lago

reflectem-se na água

enlouqueço a correr em semi-círculos

de braços abertos

e guarda-chuva no ar

caminho nas poças sem a minha mãe protestar

as rãs saltam

a chocalhar no ribeiro

passa o vento suavemente

das folhas caem gotas

flores e folhas inclinadas em reverência

o rosmaninho as giestas as papoilas

as cores vivas das gotas

regresso leve sob a chuva

o coração enfeitado de rosas

e o cabelo molhado.

Wednesday, May 26, 2010

Paz

talvez seja isto a paz!

estes momentos:


o vento vagaroso


empurrando


as nuvens cinzentas,


a chuva caindo cantando


sobre folhas, trevos,


rosmaninhos e rosas,


as almas dos poetas


pairam sobre a terra.

Saturday, January 02, 2010

Douro


choravam as lajes de xisto,
tristejavam cinzento as videiras
ajoujadas nas terras
roubadas à pedra,
o douro desatinava
em sangue de barro
entre as penedias,
verdes, as oliveiras
orlavam os socalcos,
a água descia nas levadas,
escorria dos montes
numa invernia sem nome,
um copo de vinho
sobre a toalha branca de linho
descobria sabores antigos
arrancados à profundeza
da história dos homens.

Saturday, December 05, 2009

Dia de chuva

a noite chegou a meio da tarde
trouxe o nevoeiro do cimo da serra
e cobriu de frio a face da terra
o lago, o rio, o mar, a árvore...
amanhã choverá o dia inteiro
a clarear a alma angustiada,
descerá a prece da madrugada
e a água vai engolir o nevoeiro...
como quem chora sem saber porquê!

Monday, November 09, 2009

Contra a corrente


vou contra a corrente
desço ao fundo da memória

a resgatar vestígios da minha história.


cruza um pássaro a voar

diante do meus olhos.


ainda não chove,
as aves pressentem a chuva

no perfume do vento.

Wednesday, October 21, 2009

Cinzento-luz

está uma linda manhã cinzento-luz
( a luz brilhou na tua voz alegre
logo cedo do outro lado
sem o torrencial da água!) ,
o pássaro esconde-que-aparece
entre as gotas no silvado,
a chuva cai mansamente
tão mansamente a cantar
baixinho que nem o silêncio
mexe no verde-árvore
dos salgueiros junto ao lago.


Wednesday, October 07, 2009

Outono



Esfuma-se em brumas avalónicas a cinzentura do dia,

descolam-se as gotas das nuvens

e poisam a embalar a vermelhidão de folhas,

cânticos desfeitos em águas cristalinas

ecoam na montanha invisível,

deslizam pelas pedras endurecidas,

nem fio de vento passa entre as divindades

ocultas de rochedos e águas.

Monday, May 11, 2009

Chuva


acompanhou-me a chuva sem surpresa

duas asas negras de estorninhos
num voo apressado
e solitário

nenhum outro pássaro
a voz encharcada
esconderam-se no arvoredo

molhadas as pontas do cabelo
a chuva na cara


perto, os carros mastigavam o chão.

Saturday, April 11, 2009

Chuva de Páscoa


acordaram os pássaros

estremunhados

estranhamente nos ramos,

as gotas tamborilavam


as saudades sobre os telhados,


fortes e cadenciadas


batiam às portas e janelas,


sonolentas e fechadas,


a chuva acalmava o pó


das gargantas da terra...

Wednesday, February 04, 2009

Inverno


o sol irritou-se com a chuva imparável

veio à janela e abriu as cortinas

foi um momento

a mãe chamou-o para dentro

e as gotas os ventos as neblinas

retomaram o ciclo (in)quebrável...



Saturday, December 06, 2008

Nem sei se é noite se é tarde se escuridão simplesmente

A lareira brilha
esconde no fogo
a tarde escura
fora de portas
e a triste chuva
cai-sem-cair nem
sabe se é chuva
a televisão em ponto
morto em música
repetida e lenta
a roupa sobre a tábua
lisa e pachorrenta
o ferro sobre a roupa
passa-que-passa
pára e repassa
a cabeça na lua
jornais caídos no sofá
revistas fechadas
num canto esquecido
livros lidos nunca-lidos
talvez-lidos repetidos
um-dia-hão-de ser-lidos
lidos repetidamente
nos mesmos capítulos
as fotos nas molduras
de sempre-para-sempre
o quadro das mulheres
com cores imaginárias
os bibelôs barrigudos
em estantes de granito
a lareira o único grito
de calor de luz e vida
a mão agarra o ferro
sobre a roupa sobre
a tábua tão quieta
a lareira quente
e desperta...

Thursday, February 21, 2008

Desânimo

dói o corpo às horas arrastadas até à exaustão
até uma hora incompreensível num relógio qualquer;
vagueia a mente angustiada e triste
em nebulosos tempos de invisível cansaço;
quebra-se a vontade a alegria o ânimo
em atalhos labirínticos e confusos;
perde-se a graça de uma nuvem que passa
da chuva que cai da lama na alma;

vem e prende-me nos teus abraços quentes
afasta este frio do futuro...