O pardal
mal
me pressente
fica um momento
quieto no ramo ainda sem folhas nenhumas.
Voa
da árvore sem ainda folhas nenhumas
despida
para o ramo da árvore florida
cheiinha de folhas verdes.
Esconde-se.
Vou andando
muito lentamente.
O pardal rodeia o ramo da árvore florida.
Camuflado, queda-se entre a ramagem.
Uma miragem.
Espera.
Espera mais um bocadinho.
Vou andando.
O pardal
encolhe-se.
Joga às escondidas.
Como quem ri.
Voa.
Para longe.
Como quem ri à gargalhada.
Malandro, ainda te apanhei.
Na fotografia!
Monday, April 09, 2012
Thursday, March 29, 2012
Tantas casas depois
a casa
a vida o amor
os sonhos
a simplicidade
apostaste a tua vida naquela casa
as desilusões
os pesadelos
os vizinhos
a vida de aldeia
as festas
os casamentos os baptizados
funerais nascimentos
no quintal houve a certa altura
a mó antiga
de um moinho ainda mais antigo
a servir de mesa
noutro ano nasceram os amores-perfeitos
mais perfeitos que jamais viras
nunca mais nasceram outros iguais
naquela casa entrou a certa altura
a tua filha, a tua força,
a luz da tua vida, a bússola no teu caminho
quando viste que não ia ser a casa para sempre
agarraste no que te sobrava de ilusão
e foste embora sozinha.
a casa dos teus Pais
era a casa dos Verões dos garotos
sabe sempre bem
porque os teus Pais estão ainda ali
a casa
a essa casa chegaste com uma trouxa feita de nada
a casa tinha uma varanda para o campo
e largas janelas altas na cozinha
gostavas daquela largueza
plantaste umas flores junto à janela
e acreditavas.
a casa não tinha culpa
chegaste sem nada
apenas tu
cada lanço de escadas era uma vitória
foram dias de espera
de desespero de mudanças
de inquietações de sobressaltos
de lágrimas e risos confusos
os Invernos foram frios e tristes
encontramos pessoas que nos entorpecem o caminho
o nosso purgatório
tempos de desesperança
de lágrimas de hipocrisias
criaste uma carapaça
tiveste insónias
foram tempos maus
e ainda muito piores
houve tempos de sorrisos
remendaste o coração
e aprendeste tudo de novo.
foram tantas as casas
as vidas
agora deixa estar essas paredes
esses móveis essas louças
não apagues essas memórias
são as memórias que construíste
nesses armários de vinte anos
onde guardas pratos desirmanados
os tachos de ferro fundido
talheres quanto bastem
nos móveis cada peça que guardas
tem uma história marcada
a porta do armário
da cozinha não fecha,
fica encostada
abre devagarinho
como se andasse um fantasma perdulário
por aí sozinho
não há fantasmas antigos
os fantasmas de agora
brincalhões, amigos
guardam-te a casa, esperam-te à entrada
quando sais uma temporada
mais prolongada
deixa ficar a lareira acesa
no Natal, nas noites frias
aconchega-te no teu canto do sofá
partilha a alegria
dessa vida que escolheste
sorve cada segundo
a um canto da estante
vive um despertador
entre as fotos nas molduras
e uns jarrões transparentes
as sardinheiras todos os dias
floridas evocam-te sorrisos
um cabaz de flores silvestres
debaixo da mesa do telefone
os galos cantam
a qualquer hora
ao longe
e ao longe tocam os sinos
as horas certas
deixa entrar o sol
enquanto despertas
segue os rituais
na rua lá em baixo
os inquietos pardais
procuram migalhas
na varanda desabrochou uma flor.
Esta é A casa.
a vida o amor
os sonhos
a simplicidade
apostaste a tua vida naquela casa
as desilusões
os pesadelos
os vizinhos
a vida de aldeia
as festas
os casamentos os baptizados
funerais nascimentos
no quintal houve a certa altura
a mó antiga
de um moinho ainda mais antigo
a servir de mesa
noutro ano nasceram os amores-perfeitos
mais perfeitos que jamais viras
nunca mais nasceram outros iguais
naquela casa entrou a certa altura
a tua filha, a tua força,
a luz da tua vida, a bússola no teu caminho
quando viste que não ia ser a casa para sempre
agarraste no que te sobrava de ilusão
e foste embora sozinha.
a casa dos teus Pais
era a casa dos Verões dos garotos
sabe sempre bem
porque os teus Pais estão ainda ali
a casa
a essa casa chegaste com uma trouxa feita de nada
a casa tinha uma varanda para o campo
e largas janelas altas na cozinha
gostavas daquela largueza
plantaste umas flores junto à janela
e acreditavas.
a casa não tinha culpa
chegaste sem nada
apenas tu
cada lanço de escadas era uma vitória
foram dias de espera
de desespero de mudanças
de inquietações de sobressaltos
de lágrimas e risos confusos
os Invernos foram frios e tristes
encontramos pessoas que nos entorpecem o caminho
o nosso purgatório
tempos de desesperança
de lágrimas de hipocrisias
criaste uma carapaça
tiveste insónias
foram tempos maus
e ainda muito piores
houve tempos de sorrisos
remendaste o coração
e aprendeste tudo de novo.
foram tantas as casas
as vidas
agora deixa estar essas paredes
esses móveis essas louças
não apagues essas memórias
são as memórias que construíste
nesses armários de vinte anos
onde guardas pratos desirmanados
os tachos de ferro fundido
talheres quanto bastem
nos móveis cada peça que guardas
tem uma história marcada
a porta do armário
da cozinha não fecha,
fica encostada
abre devagarinho
como se andasse um fantasma perdulário
por aí sozinho
não há fantasmas antigos
os fantasmas de agora
brincalhões, amigos
guardam-te a casa, esperam-te à entrada
quando sais uma temporada
mais prolongada
deixa ficar a lareira acesa
no Natal, nas noites frias
aconchega-te no teu canto do sofá
partilha a alegria
dessa vida que escolheste
sorve cada segundo
a um canto da estante
vive um despertador
entre as fotos nas molduras
e uns jarrões transparentes
as sardinheiras todos os dias
floridas evocam-te sorrisos
um cabaz de flores silvestres
debaixo da mesa do telefone
os galos cantam
a qualquer hora
ao longe
e ao longe tocam os sinos
as horas certas
deixa entrar o sol
enquanto despertas
segue os rituais
na rua lá em baixo
os inquietos pardais
procuram migalhas
na varanda desabrochou uma flor.
Esta é A casa.
Thursday, March 22, 2012
Ainda outra casa
a casa do andar de cima
numa travessa quase sem saída
tinha um sótão
e um quintal com um tanque
a tua Mãe gastou-se naquele tanque
também tinha um galinheiro ao fundo
havia sempre um quintal e um galinheiro
nas casas onde viveste
o quintal dava para um caminho estreito
era aí que havia as nespereiras
de um lado e outro
o caminho ia ter à rua dos combatentes
por ele ias ver a saída do futebol
e os jogadores da académica
o zé carvalho foi depois campeão
dos 400 m barreiras
morava lá perto
muitas vezes
estava à janela
o teu pai partiu
voltou
as paredes velhas
choraram a ausência
o chão encerado
a arca de folha ao cimo das escadas
o terramoto, uma vez houve um terramoto.
numa travessa quase sem saída
tinha um sótão
e um quintal com um tanque
a tua Mãe gastou-se naquele tanque
também tinha um galinheiro ao fundo
havia sempre um quintal e um galinheiro
nas casas onde viveste
o quintal dava para um caminho estreito
era aí que havia as nespereiras
de um lado e outro
o caminho ia ter à rua dos combatentes
por ele ias ver a saída do futebol
e os jogadores da académica
o zé carvalho foi depois campeão
dos 400 m barreiras
morava lá perto
muitas vezes
estava à janela
o teu pai partiu
voltou
as paredes velhas
choraram a ausência
o chão encerado
a arca de folha ao cimo das escadas
o terramoto, uma vez houve um terramoto.
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Pai,
Rua do Teodoro,
Rua dos Combatentes,
Zé Carvalho
Monday, March 19, 2012
Mais uma casa
a casa um andar
no primeiro andar
hoje chamar-se-ia T3
tinha um quintal
um quintal que também era um jardim
e havia galinhas num galinheiro ao canto
para lá do quintal-jardim
era um descampado
o Salvador saltava os muros
e vinha conversar connosco
a tua irmã mais nova foi para a escola
pela primeira vez
esqueceu-se do porta-lápis
ainda a tua Mãe não chegara a casa
já ela estava lá à porta
à espera
a casa era nas Devesas
perto da estação do caminho de ferro
andámos de comboio todos os dias
para o liceu
era o rainha agora já não existe
o comboio atravessava a ponte devagarinho
fizeste muitos amigos no comboio
um dia o nome da tua irmã desapareceu
da pauta do exame
como tinhas anunciado
zangada
ficaste apavorada
pela premonição
nunca mais quiseste fazer isso
era muita responsabilidade
quem sabe hoje serias a maya
ficaste muito assustada
com medo dos pensamentos
na casa do lado morava a norinha
era diminutivo de Leonor
a tua prima também morava naquela casa
no andar do outro lado morava a D. Luísa
e no andar de cima já nem me lembro,
mas era aí que íamos (raramente)
ver televisão
(não havia televisões em todas as casas)
foi aí que Portugal ganhou à Coreia 5-3
e que a Madalena Iglésias foi à eurovisão,
aqueles anos passaram depressa
na ilusão de que aquela casa
seria casa para sempre, não foi.
no primeiro andar
hoje chamar-se-ia T3
tinha um quintal
um quintal que também era um jardim
e havia galinhas num galinheiro ao canto
para lá do quintal-jardim
era um descampado
o Salvador saltava os muros
e vinha conversar connosco
a tua irmã mais nova foi para a escola
pela primeira vez
esqueceu-se do porta-lápis
ainda a tua Mãe não chegara a casa
já ela estava lá à porta
à espera
a casa era nas Devesas
perto da estação do caminho de ferro
andámos de comboio todos os dias
para o liceu
era o rainha agora já não existe
o comboio atravessava a ponte devagarinho
fizeste muitos amigos no comboio
um dia o nome da tua irmã desapareceu
da pauta do exame
como tinhas anunciado
zangada
ficaste apavorada
pela premonição
nunca mais quiseste fazer isso
era muita responsabilidade
quem sabe hoje serias a maya
ficaste muito assustada
com medo dos pensamentos
na casa do lado morava a norinha
era diminutivo de Leonor
a tua prima também morava naquela casa
no andar do outro lado morava a D. Luísa
e no andar de cima já nem me lembro,
mas era aí que íamos (raramente)
ver televisão
(não havia televisões em todas as casas)
foi aí que Portugal ganhou à Coreia 5-3
e que a Madalena Iglésias foi à eurovisão,
aqueles anos passaram depressa
na ilusão de que aquela casa
seria casa para sempre, não foi.
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Vila Nova de Gaia
Wednesday, March 14, 2012
Outras casas
a casa detrás dos montes
fria e vazia
do pão escuro e ázimo
sem luz nem calor
a casa que ficou para trás
a casa do largo
junto ao fontenário
cheia de janelas e sol
as portas vermelhas
(hoje pintadas de verde)
de vizinhos e lareira acesa
de neves, de gelos,
de escola e companheiros
de Verões, cereais, laranjas
e cantigas feitas de tabuadas
a casa do nascimento
da segunda e última irmã
a cruzinha, o Douro
a casa dos avós
de férias abençoadas e longas
quentes de milho cortado
de milho nas eiras
de uvas maduras
a casa longe
na fronteira
no fim do mundo
lá onde não há mais caminhos
só becos sem saída
de voltar atrás
de sombras húmidas
a casa grande
ao cimo das escadas
a porta vermelha
o quintal o jardinzinho
a tua irmã rachou a cabeça o queixo
a bola saltou para o telhado
a irmã do meio escondeu-se no armário do sótão
"saltou" um ano na escola
os pintos pavoneiam-se no galinheiro
com os patinhos amarelos
a imensidão o aconchego da lareira
as frieiras as mezinhas o pó de Maio
o susto o médico o remédio o alívio
a espreguiçadeira o armário antigo dos pratos
o frio, os nevões autênticos, a lenha a crepitar
o jogo do ringue os joelhos esfolados
a fonte o jardim o terço rezado
no mês de Maio à tardinha
nos Carnavais andam à solta os Diabos
deixaste esta casa numa madrugada de Janeiro:
nevava, céus, como nevava!!!
fria e vazia
do pão escuro e ázimo
sem luz nem calor
a casa que ficou para trás
a casa do largo
junto ao fontenário
cheia de janelas e sol
as portas vermelhas
(hoje pintadas de verde)
de vizinhos e lareira acesa
de neves, de gelos,
de escola e companheiros
de Verões, cereais, laranjas
e cantigas feitas de tabuadas
a casa do nascimento
da segunda e última irmã
a cruzinha, o Douro
de férias abençoadas e longas
quentes de milho cortado
de milho nas eiras
de uvas maduras
na fronteira
no fim do mundo
lá onde não há mais caminhos
só becos sem saída
de voltar atrás
de sombras húmidas
ao cimo das escadas
a porta vermelha
o quintal o jardinzinho
a tua irmã rachou a cabeça o queixo
a bola saltou para o telhado
a irmã do meio escondeu-se no armário do sótão
"saltou" um ano na escola
os pintos pavoneiam-se no galinheiro
com os patinhos amarelos
a imensidão o aconchego da lareira
as frieiras as mezinhas o pó de Maio
o susto o médico o remédio o alívio
a espreguiçadeira o armário antigo dos pratos
o frio, os nevões autênticos, a lenha a crepitar
o jogo do ringue os joelhos esfolados
a fonte o jardim o terço rezado
no mês de Maio à tardinha
nos Carnavais andam à solta os Diabos
deixaste esta casa numa madrugada de Janeiro:
nevava, céus, como nevava!!!
Saturday, March 03, 2012
Casas
a casa
a casa onde nasceste
no meio de quintais
ao lado do poço
a casa de passagem
na rua da nesga do mar
a casa da tua infância
a infância foi ali
(depois perdeu-se
não sei em que momento do caminho
encruzilhada
viagem
portal
casa
janela
lágrima
riso)
diante da baía
a baía vive também nos livros
a baía do Verão
da praia das barracas coloridas
às riscas
dos banhos no mar
dos polvos arrancados às pedras
das corolas azuis sobre os muros
das ervilhas-de-cheiro
a casa do nascimento
da tua primeira irmã
a casa do Inverno
o mar a entrar corredor dentro
o pai a lançar-se às ondas de Fevereiro
os pass(e)antes a vê-lo a nadar
encolhidos de frio
a praia de todos
a praia só nossa
as pequenas fugas
os pequenos desgostos
as tranças
o livro minúsculo do José do Egipto
(existe até hoje milhões de anos passados)
a irmã em convalescença
o Catitinhas as barbas brancas
a criançada
sentada na areia
a ver os robertos
a estação a automotora
que te levou do paraíso...
a casa onde nasceste
no meio de quintais
ao lado do poço
a casa de passagem
na rua da nesga do mar
a casa da tua infância
a infância foi ali
(depois perdeu-se
não sei em que momento do caminho
encruzilhada
viagem
portal
casa
janela
lágrima
riso)
diante da baía
a baía vive também nos livros
a baía do Verão
da praia das barracas coloridas
às riscas
dos banhos no mar
dos polvos arrancados às pedras
das corolas azuis sobre os muros
das ervilhas-de-cheiro
a casa do nascimento
da tua primeira irmã
a casa do Inverno
o mar a entrar corredor dentro
o pai a lançar-se às ondas de Fevereiro
os pass(e)antes a vê-lo a nadar
encolhidos de frio
a praia de todos
a praia só nossa
as pequenas fugas
os pequenos desgostos
as tranças
o livro minúsculo do José do Egipto
(existe até hoje milhões de anos passados)
a irmã em convalescença
o Catitinhas as barbas brancas
a criançada
sentada na areia
a ver os robertos
a estação a automotora
que te levou do paraíso...
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Pampilhosa,
paraíso,
S. Martinho do Porto,
saudade
Tuesday, February 28, 2012
O gato
o gato escondido
felino
camaleónico
entre os tufos de erva
verde esturricada
da geada
pressente-nos
encolhe-se
enterra-se
os olhos espertos
estica-se
distende-se todo
sobre as patas traseiras
desviamos o olhar
um segundoum mísero segundo
vai o gato todo ufano
cabeça de lado
a olhar de viés
a desaparecer
junto à casa em ruínas
Thursday, February 23, 2012
Saturday, February 11, 2012
Alma
inquietam-se os corvos
num voo de lusco-fusco gélido
pérfido.
num voo de lusco-fusco gélido
pérfido.
sob um céu azul-frio,
a alma desmantelada
junta os pedacinhos
num abraço.
Thursday, January 26, 2012
Chávena
junto de outras chávenas,
penduro a chávena branca com flores azuis:
fica a tinir música num riso muito fino.o sol atravessa a vidraça,
as sardinheiras vermelhas florescem,
os pássaros andam estouvados em círculos.
Thursday, January 12, 2012
Tempo
tantos sóis passados
as luas em mil crescentes e decrescentes
novas e cheias
a água a passar por debaixo das pontes
as ribeiras secaram nos leitos cansados
pontes caíram esgotadas e frágeis
ajoelharam nas lajes das igrejas os crentes
em orações mágicas, fantásticas panaceias
eclipsaram-se umas atrás das outras as primaveras
as neves acumularam-se no alto das serras
escorreram pelas encostas em delírio,
deram de beber às nascentes
vieram e partiram outonos de folhas caídas
e os verões ganharam-se e perderam-se
como areia escapulindo-se por entre os dedos
vivemos vidas mais que as que esperávamos
entre paredes vazias caiadas de medos
e esperanças arrancadas a ruas de alegria
caímos umas tantas vezes mas sobrevivemos
andámos à procura da harmonia dos deuses
ainda andamos à procura andaremos sempre,
na balança, as impossibilidades e as ilusões
desequilibradas as forças, os ganhos, as perdas,
cruzaram-se e descruzaram-se os caminhos
em mil e uma voltas até ao fim do labirinto,
já não somos os mesmos, não estás à minha espera
na praça onde os pássaros se perfilam nos fios,
nem eu te escrevo poemas inconsequentes,
continuamos a ouvir canções à beira dos rios,
a sonhar chuvas e sóis em românticos poentes,
a desconstruir estradas nos céus desconhecidos,
ninguém colheu as amoras à beira da estrada
no verão passado e agora mirraram da espera,
sob a neblina, o musgo verde cobre as pedras,
ainda suspiramos perante o arco-íris completo,
bate forte o coração ao sentir na boca
o sabor antigo de pêssegos verdadeiros
e, junto ao mar, a alma baloiça entre loucas
tempestades e a bonança (in)esperada,
somos capazes de tudo, outras vezes de nada,
queima-nos o sol, tolhe-nos o frio,
sacudimos fantasmas, viramos páginas,
sofregamente, bebemos as noites, os dias...
agora, cai a tarde, nasce a ternura...
as luas em mil crescentes e decrescentes
novas e cheias
a água a passar por debaixo das pontes
as ribeiras secaram nos leitos cansados
pontes caíram esgotadas e frágeis
ajoelharam nas lajes das igrejas os crentes
em orações mágicas, fantásticas panaceias
eclipsaram-se umas atrás das outras as primaveras
as neves acumularam-se no alto das serras
escorreram pelas encostas em delírio,
deram de beber às nascentes
vieram e partiram outonos de folhas caídas
e os verões ganharam-se e perderam-se
como areia escapulindo-se por entre os dedos
vivemos vidas mais que as que esperávamos
entre paredes vazias caiadas de medos
e esperanças arrancadas a ruas de alegria
caímos umas tantas vezes mas sobrevivemos
andámos à procura da harmonia dos deuses
ainda andamos à procura andaremos sempre,
na balança, as impossibilidades e as ilusões
desequilibradas as forças, os ganhos, as perdas,
cruzaram-se e descruzaram-se os caminhos
em mil e uma voltas até ao fim do labirinto,
já não somos os mesmos, não estás à minha espera
na praça onde os pássaros se perfilam nos fios,
nem eu te escrevo poemas inconsequentes,
continuamos a ouvir canções à beira dos rios,
a sonhar chuvas e sóis em românticos poentes,
a desconstruir estradas nos céus desconhecidos,
ninguém colheu as amoras à beira da estrada
no verão passado e agora mirraram da espera,
sob a neblina, o musgo verde cobre as pedras,
ainda suspiramos perante o arco-íris completo,
bate forte o coração ao sentir na boca
o sabor antigo de pêssegos verdadeiros
e, junto ao mar, a alma baloiça entre loucas
tempestades e a bonança (in)esperada,
somos capazes de tudo, outras vezes de nada,
queima-nos o sol, tolhe-nos o frio,
sacudimos fantasmas, viramos páginas,
sofregamente, bebemos as noites, os dias...
agora, cai a tarde, nasce a ternura...
Sunday, November 13, 2011
Asfixia
ouvi farfalhar
talvez a fuligem despresa das paredes da chaminé
um rumor
talvez a fuligem caindo das paredes da chaminé
um baque surdo
talvez a fuligem solta das paredes da chaminé
gritos presos nas asas agonizantes de susto
a agonia da prisão
o clamor
um pássaro negro de fuligem
no estertor
da escuridão
a asfixia
o coração encurralado
abram essa janela
deixem entrar o ar
o sol, o calor,
a liberdade
vai o pássaro em agonia
quase se estilhaça
contra o desespero da vidraça
corrige o rumo
fora, desata num voo livre, recto, forte
longe, longe
talvez a fuligem despresa das paredes da chaminé
um rumor
talvez a fuligem caindo das paredes da chaminé
um baque surdo
talvez a fuligem solta das paredes da chaminé
gritos presos nas asas agonizantes de susto
a agonia da prisão
o clamor
um pássaro negro de fuligem
no estertor
da escuridão
a asfixia
o coração encurralado
abram essa janela
deixem entrar o ar
o sol, o calor,
a liberdade
vai o pássaro em agonia
quase se estilhaça
contra o desespero da vidraça
corrige o rumo
fora, desata num voo livre, recto, forte
longe, longe
Monday, October 31, 2011
Cores
dentro de um envelope azul
as palavras
fortes suaves azuis
em papel rosa
num dia cinzento
Friday, October 07, 2011
ouço os meus pensamentos a falar sozinhos
depois de te deixar à varanda a dizer adeus
o céu vagueia azul buscando os tentilhões
escondidos entre as ramagens das árvores
para isso se encheram de folhas
para esconder os tentilhões
os botões de rosa são rosas amanhã
depois de amanhã são pétalas desfolhadas
desfolham-se sobre a terra seca
esmorecidas de calor extemporâneo
quando voltares, traz-me o perfume das rosas
Wednesday, September 28, 2011
Dantes, também escrevia cartas assim
a pôr pontos nos is
a gastar-me de mim
a desgastar-me
a desgostar-me.
Agora, fecho os olhos à mágoa
ouço os pássaros, sinto a leveza
das asas espanejando no ar
e a água
do lago a borboletear baixinho
canções de amores.
Pela manhã, ando à procura,
procuro o caminho das rosas,
pressentindo que já partiram
rumo à primavera seguinte.
Encontro gotas de chuva...
... ainda há rosas no parque.
a pôr pontos nos is
a gastar-me de mim
a desgastar-me
a desgostar-me.
Agora, fecho os olhos à mágoa
ouço os pássaros, sinto a leveza
das asas espanejando no ar
e a água
do lago a borboletear baixinho
canções de amores.
Pela manhã, ando à procura,
procuro o caminho das rosas,
pressentindo que já partiram
rumo à primavera seguinte.
Encontro gotas de chuva...
... ainda há rosas no parque.
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setembro
Friday, September 16, 2011
Insónia
o sono anda vadio
foge de si próprio
vê a madrugada
subtil e espantada
e revolve os lençóis
procura o sossego
o melhor soneto
e dói a pele, a carne
escolhe entre escolhos
algas aos molhos
na espuma dos mares
sobem suores frios
na noite, arrepios
de febres e insónias
o sono anda vadio
foge de si próprio.
foge de si próprio
vê a madrugada
subtil e espantada
e revolve os lençóis
procura o sossego
o melhor soneto
e dói a pele, a carne
escolhe entre escolhos
algas aos molhos
na espuma dos mares
sobem suores frios
na noite, arrepios
de febres e insónias
o sono anda vadio
foge de si próprio.
Tuesday, September 06, 2011
Vidas
a neta
sem certeza era a neta
acompanha o avô
deixa-o à entrada,
em passadas trôpegas
seguras
compra o jornal
dirige-se a uma mesa
senta-se de óculos grossos
e lupa
lentamente como quem mede
cada gesto como quem pensa
cada segundo
estende a mão, hesita, segue,
pára, segue, puxa o jornal
como quem viu passar depressa
o passado e quer agora
segurar um pouco mais o tempo,
pressente o café na chávena.
O comboio parte. São dez e quarenta.
sem certeza era a neta
acompanha o avô
deixa-o à entrada,
em passadas trôpegas
seguras
compra o jornal
dirige-se a uma mesa
senta-se de óculos grossos
e lupa
lentamente como quem mede
cada gesto como quem pensa
cada segundo
estende a mão, hesita, segue,
pára, segue, puxa o jornal
como quem viu passar depressa
o passado e quer agora
segurar um pouco mais o tempo,
pressente o café na chávena.
Wednesday, August 17, 2011
Mar, o mar
só percebo o marulhar
do mar rasando a baixa-mar
espraiando-se umas horas mais.
afasto as cortinas floridas
ando de varanda em varanda
o mar o vento não abranda
já o sol aquece a areia.
descem guarda-sóis
pelas escadas de madeira
a água fria em cachoeira
enterra-se, cobra invisível.
Sunday, August 14, 2011
Praia
sou um vulto quieto
sentado numa cadeira
por dentro da moldura
da porta.
lá fora, a varanda alta
em baixo, o mar,
a linha ínfima do horizonte
em sol fogo.
a areia da praia
vai ficando só.
sou o vulto ensimesmado
não tiro os olhos
das ondas contínuas.
a luz de prata fere o olhar
a seguir desmaia e cai.
onde vai o barco à vela
que passa sem parar?
ficou a praia deserta
a noite vem sorrateira.
deixo o meu vulto
à varanda e desço.
pedimos a bebida do costume.
vamos brindar ao sol.
Sunday, June 12, 2011
Ruínas
No centro da cidade antiga,
o interior da casa quase em ruínas
foi escaqueirada à marretada.
o vento fustiga os recantos e as esquinas
deixadas agora as portas escancaradas
sorri, ali colada, capa de calendário,
no papel de parede cor-de-rosa.
Ninguém olha.
Nem os fantasmas que habitaram a casa
na casa ao lado, aquela onde as portas
dão para lado nenhum
e as janelas para um beco sem saída.
o interior da casa quase em ruínas
foi escaqueirada à marretada.
A parede ainda de pé ao fundo
foi em tempos coberta de papel rosa;o vento fustiga os recantos e as esquinas
deixadas agora as portas escancaradas
as janelas desassombradas, devassadas;
a imagem da jovem seminua , sofisticadasorri, ali colada, capa de calendário,
no papel de parede cor-de-rosa.
Ninguém olha.
Nem os fantasmas que habitaram a casa
quiseram saber o que se vai passar a seguir.
Saíram sem olhar para trás e encafuaram-se na casa ao lado, aquela onde as portas
dão para lado nenhum
e as janelas para um beco sem saída.
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