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Saturday, March 03, 2012

Casas

a casa
a casa onde nasceste
no meio de quintais
ao lado do poço
a casa de passagem
na rua da nesga do mar
a casa da tua infância
a infância foi ali
(depois perdeu-se
não sei em que momento do caminho
encruzilhada
viagem
portal
casa
janela
lágrima
riso)
diante da baía
a baía vive também nos livros
a baía do Verão
da praia das barracas coloridas
às riscas
dos banhos no mar
dos polvos arrancados às pedras
das corolas azuis sobre os muros
das ervilhas-de-cheiro
a casa do nascimento
da tua primeira irmã
a casa do Inverno
o mar a entrar corredor dentro
o pai a lançar-se às ondas de Fevereiro
os pass(e)antes a vê-lo a nadar
encolhidos de frio
a praia de todos
a praia só nossa
as pequenas fugas
os pequenos desgostos
as tranças
o livro minúsculo do José do Egipto
(existe até hoje milhões de anos passados)
a irmã em convalescença
o Catitinhas as barbas brancas
a criançada
sentada na areia
a ver os robertos
a estação a automotora
que te levou do paraíso...


Wednesday, March 04, 2009

Aniversário



( 2 imagens da net)


hoje
chove…
quando nasceste
o dia chegou
com certeza
lindo de luz
faiscando
sobre a baía
da nossa infância
estrelejando
de alegria e ânsia…

não me lembro do sol
só me lembro
de uma criança
pequena
muito pequena
morena
muito morena
que seria
sempre
minha companhia
e o meu farol…


(a casa lá está
frente ao mar
as palmeiras
cresceram primeiro
que nós
ainda se avista
o rasto
das traineiras
e no ar
ainda se sente
às vezes
na nossa mente
o perfume
das ervilhas de cheiro)

Thursday, July 17, 2008

Volta pelas praias


S. Martinho do Porto


vem lá de longe da infância


de começar a conhecer,


da noção de existir e ser,


vem de uma distância


até à Escola de laçarote,


de jogar como um rapazote,


de viver junto à desenhada


Concha inconfundível,


de nos escapulirmos a correr


para nos espantarmos


com a recém-chegada TV,


dos banhos no mar no Verão,


da praia a toda a hora,


do mar a entrar pela casa fora


no surpreso Inverno terrível,


os búzios, o cheiro a maresia,


o nascimento de uma irmã,


a praia vazia pela manhã,


a Mãe, tão jovem e linda,


um cágado no jardim, o perfume


das ervilhas de cheiro ainda,


as corda-de-viola ou campainhas


a saltar por todos os muros,


as mulheres de negro


noite dentro à espera


dos pescadores, homens,


filhos e irmãos, amigos,


em presságios cruéis e duros,


como estátuas doloridas,


a irmã cortou-se num pé


não pode andar,


está sentada, sossegada,


numa cadeira


e eu, à sua beira,


leio a história do José


do Egipto de fio a pavio,


o mar a marulhar,


em música de fundo.