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Saturday, June 04, 2016

O gato



O gato escapava-se, enredava-se, numa ascensão por lugares desconhecidos,
Caminhava junto às paredes, esticava-se e, entre danças e malabarismos,
Subia ao telhado pintado de musgo, procurava o triângulo de sol quentinho
E amodorrava ao calor das manhãs.
Sob o peso do tempo e das intempéries, o telhado enfim ruiu,
O gato anda agora atordoado pelas ruas e tornou-se vadio.
Vagueia sem rumo sem aprumo, desgostoso e macambúzio
Numa procura insana.
Nas noites de nevoeiro, cruza-se com os fantasmas dos antigos amantes:
Aconchegados um ao outro, segredam intimidades não ditas antes,
Escondem-se nos portais das casas  e trocam carícias extravagantes
A coberto da escuridão.
Outras noites, encolhe-se à passagem titubeante de bêbados inveterados
A cantarem canções patéticas e a desafinarem poemas inventados.
Pela manhã, as pombas fogem dele, em voos desenfreados
De asas espavoridas.
O gato segue indiferente, olhos no chão, com saudades do sol
E do telhado que ruiu.

in
Jardim de Palavras, 2ª Antologia Poética, Orquídea Edições









Thursday, December 13, 2012

Filosofando em dia de nevoeiro


o nevoeiro desce sobre todos
sobre tudo
não se vê nada, só vultos
a fugir sem pressa,
fantasmas a dobrar
as esquinas
de ruas assombradas.

nestas manhãs pardas
que mistérios nos esperam
no final da ponte
nas curvas da estrada
nas encruzilhadas?

o gato estendeu o corpo amarelado
no telhado
confundiu a luz cinza-esbranquiçada
da neblina e procurou o seu lugar
das manhãs de sol.

à socapa
o homem no supermercado
entretém-se a trocar os preços
dos produtos à venda.


Monday, June 11, 2012

Na cidade. A chuva.

na cidade
ruas desertas molhadas sombrias
correm fogem as pessoas nestes dias
penumbras dentro-portas de repente


o gato
sobre o telhado velho e ferrugento
sai a tomar ar e sol até vento
a aragem forte corre na rua em frente.



Saturday, May 19, 2012

Céu de Verão

céu de Verão
ruas quietas casas caladas
o gato no telhado à sombra
pela porta entreaberta
a novela
salta para a viela
as pombas
encostadas
às paredes
a picotear migalhas
sementes miúdas
não fogem
não voam
ficam por ali de bicos no chão.


Tuesday, February 28, 2012

O gato

o gato escondido
felino
camaleónico
entre os tufos de erva
verde esturricada
da geada

pressente-nos

encolhe-se
enterra-se
os olhos espertos
estica-se
distende-se todo
sobre as patas traseiras

desviamos o olhar
um segundo
um mísero segundo

vai o gato todo ufano
cabeça de lado
a olhar de viés
a desaparecer
junto à casa em ruínas

juro que vai a rir-se...