Friday, July 06, 2007

Encadeado

O calor , chegou o calor!

Queda-se nos campos

o feno cortado

estendido ao sol

como outrora

nas eiras do Douro

o milho dourado ...

e o meu avô calejado

encostado ao mangual

rastreava com os olhos

as terras calmas

em socalcos

a correr para o rio...

e do outro lado

Resende

"-dizem que viva Resende

não sei que graça lhe achais

terra do milho miúdo

alimento dos pardais-"

cantavam ao desafio

em despique

nas noites da desfolhada

com beijos de mel

em horas de milho-rei

pelo s. miguel

e a minha avó

entre as panelas de ferro

e as malgas cheias

de caldo a rescender

a ementas nunca mais

saboreadas

nem Jacinto

a subir para Tormes

e a provar a canja

e o célebre arroz de favas

se lhes compara

e as pequenas acaloradas

os pés descalços

a chapinhar

pelas levadas fora ...

e as uvas gordas

a inchar pelas tardes

e as meninas a seguir

o avô em passos

de sombra

que ele tem um segredo:

na ramada do Rosso

preso nos bagos maduros

de Fernão Pires

vivia o sol!

4 comments:

Carminda Pinho said...

Belo texto Renda, até me pareceu que estava a assistir a tudo aquilo tal a veracidade da descrição.
É de recordações destas também que se vive..."panelas de ferro e as malgas cheias de caldo...".
Bjs

bell said...

Outros tempos...

Agora as comidas imitam as das cidades e o roncar dos tractores substituiu as pachorrentas mulas no arar dos campos. E, embora algumas tradições se mantenham, a aldeia é cada vez mais cidade.

Bom domingo!

**

rendadebilros said...

Carminda e Bell
Assisti mesmo ... em tempos que já lá vão e Tormes ficava mesmo ali à lonjura de um passeio a pé pela tardinha...

Madalena said...

Olá! Muito bonito, e se mergulharmos profundamente no poema conseguimos até sentir e cheirar todas as suas descrições.

Beijinhos