vou contra a corrente
desço ao fundo da memória
a resgatar vestígios da minha história.
cruza um pássaro a voar
diante do meus olhos.
ainda não chove,
as aves pressentem a chuva
no perfume do vento.
depois da tempestade nocturna
não me conformo nesta prisão sem grades;
se não decido partir, como vou conhecer
os cinzentos indecisos espalhados pelos céus,
como vou saber as árvores desfalecendo
em gotas e folhas e o ribeiro descendo
envolto em lama e espuma,
e como vou seguir o vento alvoroçado
sem bússola nem norte
ou os pássaros estonteados de água,
como posso encontrar o caminho?
quero ler o espanto das gentes,
quando eu atravessar o temporal.
vou partir, livre como um verso,
serei árvore e seiva
sem criar raízes num lugar só.
Esfuma-se em brumas avalónicas a cinzentura do dia,
descolam-se as gotas das nuvens
e poisam a embalar a vermelhidão de folhas,
cânticos desfeitos em águas cristalinas
ecoam na montanha invisível,
deslizam pelas pedras endurecidas,
nem fio de vento passa entre as divindades
ocultas de rochedos e águas.