Friday, April 14, 2017

Poesia





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Saturday, June 04, 2016

O gato



O gato escapava-se, enredava-se, numa ascensão por lugares desconhecidos,
Caminhava junto às paredes, esticava-se e, entre danças e malabarismos,
Subia ao telhado pintado de musgo, procurava o triângulo de sol quentinho
E amodorrava ao calor das manhãs.
Sob o peso do tempo e das intempéries, o telhado enfim ruiu,
O gato anda agora atordoado pelas ruas e tornou-se vadio.
Vagueia sem rumo sem aprumo, desgostoso e macambúzio
Numa procura insana.
Nas noites de nevoeiro, cruza-se com os fantasmas dos antigos amantes:
Aconchegados um ao outro, segredam intimidades não ditas antes,
Escondem-se nos portais das casas  e trocam carícias extravagantes
A coberto da escuridão.
Outras noites, encolhe-se à passagem titubeante de bêbados inveterados
A cantarem canções patéticas e a desafinarem poemas inventados.
Pela manhã, as pombas fogem dele, em voos desenfreados
De asas espavoridas.
O gato segue indiferente, olhos no chão, com saudades do sol
E do telhado que ruiu.

in
Jardim de Palavras, 2ª Antologia Poética, Orquídea Edições









Wednesday, May 25, 2016

Viciei-me



Viciei-me em ti
Os teus pensamentos
Adivinho
As tuas frases
Termino
Os teus desejos
Prevejo
Antevejo
Cada beijo
As tuas mãos
No meu rosto
O calor no corpo
O sol de Agosto
As tuas memórias
Por instinto
Pressinto
Os teus abraços
A ansiedade
Da tua face os traços
As rugas da idade
Conheço
As tuas insónias
E contradições
As divagações
Nocturnas
Adormeço
As inquietações
Soturnas
Esqueces-te de ti
Esqueço-me de mim
Entrego-me
Acolhes-me
Afastas
De mim cada sombra
Que assoma
Acalmas
As minhas dores
Os anjos vingadores
Suavizas os meus delírios
Com rosas e lírios.
É o arco-íris, a promessa
Da paixão que começa,
É a cerejeira em flor,
Da laranja o sabor,
É talvez o amor!

in
Jardim de Palavras, 2ª Antologia Poética, Orquídea Edições

Wednesday, May 04, 2016

Não te conheci quando te vi a primeira vez



Não te conheci quando te vi a primeira vez:
O destino desatinado lançava os dados
e jogava  descaradamente à cabra-cega.
Sempre que te via não me apercebia
Dos fios do novelo, trocados, enredados
 Em cada dia como uma cegarrega.
O tempo seguia marcado nos ponteiros
De um relógio desatinado numa altivez
Desconcertante, os nossos encontros adiados.
Aquela noite, abraçámo-nos, numa dança inesperada,
A música louca enchia o espaço, mas não se ouvia
Nem se via o mundo, só sabia de ti, sem saber nada.
Não podia deixar-te, não respirava sem a tua presença,
Sem os teus abraços, afogava-me em mim.
Escrevias bilhetinhos com as flores e os beijos feiticeiros
Murmuravas cenários de utopia e crescia a crença
De um abismo salvador, a minha boca na tua enfim
A tua pele na minha pele sem fundo sem fim
Uma procura que terminava ali começava ali
As voltas, reviravoltas, espero por ti, vou fugir,
Tu vens, tu partes, voltas e não sabes, não sei se ir
Se ficar, sem mim, nada sabes, não sei nada, sem ti.
Tentámos os demónios, caímos em tentações,
Aliciámos os anjos, pecámos, unimos os corações
Tardámos séculos até encontrar o momento certo
Perdemos tempo, chegámos a tempo, tão perto.
Ainda dói a espera; apodera-se de mim, ao acordar,
 Junto a ti, um sereno sobressalto: deixa essa música tocar!

 in
PERDIDAMENTE
Antologia Poetas Lusófonos Contemporâneos
Colectânea de vários autores
Editora Pastelaria Studios

Wednesday, April 13, 2016

Tempo(s)



O tempo corre
Escorre
Discorre
Entre as gotinhas de chuva
No meio das tempestades
Em dias serenos
Tu estás
Não estás
Chegaste
Partiste
Correste
Fugiste
Acertaste
Duvidaste
Voltaste
Encontro-te
Desencontro-te
Espero
Desespero
Vislumbro a tua silhueta
Como areia numa ampulheta
Que se escapa sem volta atrás.

in 
Somos Instantes, Colectânea  
O Percurso das Palavras
Papel d'Arroz Editora



Tuesday, April 12, 2016

Ao acaso



Ao acaso por aí,  subo as escadinhas e atravesso a ponte pedonal
Leio as confissões de amor escritas sobre o tabuleiro da ponte
E as declarações de guerra no mesmo lugar
Algumas gravadas há tempos nem o tempo nem a chuva nem o sol
as conseguiu ainda apagar
o pastor encostou-se à parede da casa em ruínas a descansar a sentir
o calor do astro-rei e as ovelhas andam por ali como num presépio a destempo
e as cabras treparam à encosta, passa uma mulher, o cão vem a correr a ladrar
as almas dos fantasmas a viver nas casas esventradas embalam os ramos dos choupos
 à noite, junto ao regato, juntam ao cantarolar fresco das águas os murmúrios roucos
e afastam da casa sem telhado, sem portas nem janelas os demónios loucos
o comboio parte às horas em ponto, passa sob o viaduto no começo da viagem
ao longe, toca o sino baladas saudosas numa qualquer igreja perdida no monte
se o lago continuar sereno, um espelho límpido, as árvores a reflectir
os troncos, os ramos, as folhas de pernas para o ar, a imagem
das casas de telhado ao contrário, as pessoas a caminhar de cabeça invertida
se o comboio seguir sobre os carris sem contratempos
se o sol brilhar sempre, mesmo em dias de nevoeiro
se todos os dias acordar ao teu lado, beijar-te como se cada beijo fosse o primeiro
se o mundo dentro de nós, fora de nós viver em equilíbrio e harmonia
cada dia será quase perfeito, e o dia seguinte será certamente melhor e outro dia
melhor ainda, e contigo ao meu lado, o céu é azul mesmo cinzento e o mar é belo,
sempre que o barco nos deixe em terra firme.


in 
Somos Instantes, Colectânea  
O Percurso das Palavras
Papel d'Arroz Editora