caminho sobre a terra dos meus avós
e sinto a terra sumir-se debaixo dos pés.
sento-me, à sombra, nos degraus à porta de casa
numa tarde quente de Maio, podia ser Agosto.
rareiam as palavras, o caminho vazio,
só chegam ecos de longe na tarde de calor.
a estrada engoliu um caminho que nunca existiu,
a eira reduzida a umas lajes tristonhas.
o carreiro antigo anda ali às voltas para se encontrar
e os tanques na velha fonte agonizam entre paredes.
à noite, pela janela aberta, entra o silêncio, o sino a rezar,
os cães a ladrar e as luzes reflectem-se douradas, no rio.
voltamos à casa, esperamos ouvir lá dentro a avó,
mas não cheira a café, nem a broa, nem o forno está aceso.
olhamos o fim do caminho, a qualquer momento, o avô
pode aparecer, chapéu na cabeça, enxada ao ombro.
desviamos o olhar um instante, e voltamos a lançar os olhos
lá para o fim da ruela, pode ser que as ovelhas precedam o avô.
pode ser que ainda chegue a tempo da noite estrelada
e que nos sentemos com ele muito quietas a olhar o céu.
pode ser que, entre todos aqueles pontinhos brilhantes,
na noite escura, diante dos dedos do avô, avistemos a estrela polar.
in POEMÁRIO 2016
Pastelaria Studios
Sunday, December 06, 2015
Saturday, May 23, 2015
Loucura
Dizem que, para o fim, enlouqueceste,
se é que já não andavas louca, sem tino,
há muito.
Só tu para te levantares, enfeitiçada, naquela manhã
de tempestade entre chuva gelada e vento desnorteado
e ires abraçar nos teus braços e nas tuas palavras,
em segredo, com um grande braçado de rosas,
outra louca, uma louca por amor.
Ainda cheira a rosas polvilhadas a preceito com gotas de chuva fria.
se é que já não andavas louca, sem tino,
há muito.
Só tu para te levantares, enfeitiçada, naquela manhã
de tempestade entre chuva gelada e vento desnorteado
e ires abraçar nos teus braços e nas tuas palavras,
em segredo, com um grande braçado de rosas,
outra louca, uma louca por amor.
Ainda cheira a rosas polvilhadas a preceito com gotas de chuva fria.
Sunday, April 12, 2015
Memórias
Uma palavra, uma imagem
corre voraz o mundo
à velocidade da luz
traz paz ou amor profundo
agora anjo de asas puras
logo obra do diabo
de origens obscuras
chega-nos sem contar
com a brusquidão
de uma bofetada
de um azarado trovão
o cérebro confuso
as sinapses em paragem
sem saberem que pensar
um baque no coração
no estômago uma azia
assalta-nos sem parar
um vómito, uma agonia.
corre voraz o mundo
à velocidade da luz
traz paz ou amor profundo
agora anjo de asas puras
logo obra do diabo
de origens obscuras
chega-nos sem contar
com a brusquidão
de uma bofetada
de um azarado trovão
o cérebro confuso
as sinapses em paragem
sem saberem que pensar
um baque no coração
no estômago uma azia
assalta-nos sem parar
um vómito, uma agonia.
Há tanto tempo não te via
vi-te depois da passadeira
quase ao virar da esquina
atitude sempre sossegada;
foste embora de sorriso triste
como quem se despedia.
Quando voltei a ver-te
Tinhas o rosto parado
Pespegado num folheto
Banal de uma
funerária
Soltei um grito de espanto
Ali estavas quieta, apagada
na lista arbitrária
a que ninguém escapa.
Vai uma pessoa pelo caminho
um bocado à toa
cruza-se com uma pessoa
que não vê há tempos
ou vê todos os dias
e sem mais nem quê
a pessoa apaga-se.
Abrigo-me no sono
cortado a meio
no meio da noite;
pesadelos aberrantes,
estridentes sobressaltos
espezinham os sonhos,
arranham o pensamento
até que a luz da madrugada
espante os espíritos errantes,
os fantasmas desconcertados,
abram essas janelas devagar
de par em par, deixem lá
a música namorar as palavras
dos poemas vagabundos,
deixem lá a memória resistir
ao esquecimento.
e sem mais nem quê
a pessoa apaga-se.
Abrigo-me no sono
cortado a meio
no meio da noite;
pesadelos aberrantes,
estridentes sobressaltos
espezinham os sonhos,
arranham o pensamento
até que a luz da madrugada
espante os espíritos errantes,
os fantasmas desconcertados,
abram essas janelas devagar
de par em par, deixem lá
a música namorar as palavras
dos poemas vagabundos,
deixem lá a memória resistir
ao esquecimento.
Thursday, March 12, 2015
Fugaz
Preciso de terras, lugares,
pessoas concretas
para dissipar as incertezas
as dúvidas discretas.
Busco confirmação
só para saber que não sonhei
nem inventei nada:
Aquela praia era uma baía,
uma concha, o paraíso,
reencontro na lembrança,
uns grãos de areia fina,
na realidade encontro
um livro minúsculo,
umas fotos antigas
o sabor a maresia
e as cores variadas
das ervilhas-de-cheiro.
Preciso de saber: não sonhei,
Não inventei nada.
Naquela praceta
havia um fontanário
ali perto da porta vermelha,
hoje é verde-esperança.
Naquele outro sítio
é um jardim em frente
ao colégio misto,
ainda lá está, mas eu insisto
em ver. Não sonhei
não inventei nada.
E a Judite ainda lá vive
contudo sem trança.
Além,
para dissipar as incertezas
as dúvidas discretas.
Busco confirmação
só para saber que não sonhei
nem inventei nada:
Aquela praia era uma baía,
uma concha, o paraíso,
reencontro na lembrança,
uns grãos de areia fina,
na realidade encontro
um livro minúsculo,
umas fotos antigas
o sabor a maresia
e as cores variadas
das ervilhas-de-cheiro.
Preciso de saber: não sonhei,
Não inventei nada.
Naquela praceta
havia um fontanário
ali perto da porta vermelha,
hoje é verde-esperança.
Naquele outro sítio
é um jardim em frente
ao colégio misto,
ainda lá está, mas eu insisto
em ver. Não sonhei
não inventei nada.
E a Judite ainda lá vive
contudo sem trança.
Além,
Fecho os olhos:
A voz da avó ecoa
Por aquelas quebradas
E, dentro do forno,
Acabada de cozer: a broa.
De manhã, ouço a colher
A mexer o café
No caçoilo de barro.
Nem quero abrir os olhos
Que é tudo uma ilusão
que se some de repente
se me esquecer.
Antes de abrir os olhos,
quero ver ainda
o avô de enxada
às costas, a sorrir
ao fundo do caminho.
E a avó, de lenço
de ramagens na cabeça
sacode o avental
junto ao portão.
Abro os olhos devagarinho
e o avô ajeita o chapéu,
como quem nos abençoa,
a avó de lenço na cabeça
a acenar, a chamar,
a desaparecer, a esfumar-se.
Abro os olhos sem pressa,
contra o sol que me encandeia,
me atordoa.
Já não vejo nada,
não vejo ninguém.
Preciso de terras, lugares,
de chamar à vida pessoas concretas,
que a nossa vida só faz sentido,
enquanto eu me lembrar.
Antes de abrir os olhos,
quero ver ainda
o avô de enxada
às costas, a sorrir
ao fundo do caminho.
E a avó, de lenço
de ramagens na cabeça
sacode o avental
junto ao portão.
Abro os olhos devagarinho
e o avô ajeita o chapéu,
como quem nos abençoa,
a avó de lenço na cabeça
a acenar, a chamar,
a desaparecer, a esfumar-se.
Abro os olhos sem pressa,
contra o sol que me encandeia,
me atordoa.
Já não vejo nada,
não vejo ninguém.
Preciso de terras, lugares,
de chamar à vida pessoas concretas,
que a nossa vida só faz sentido,
enquanto eu me lembrar.
Thursday, March 05, 2015
O pássaro
Uma gaiola
Um pássaro colorido dentro
A porta fechada.
A mulher cuidadosamente
Protegeu
o pássaro do pó e dos ruídos
E colocou
a gaiola na varanda,
A gaiola com pássaro colorido dentro
E a porta fechada.
Um dia depois, na varanda alta,
Olhou e viu a gaiola,
A gaiola e a porta aberta.
Saltou-lhe do peito o coração,
Abriu a boca de aflição,
Num segundo fugaz, pensou:
Lá fugiu o pássaro.
Reparou melhor, em alerta,
suspirou:
o pássaro colorido
dentro da gaiola,
a porta aberta.
Habituadas
à prisão, as asas
atrofiadas
nem perceberam a liberdade
em aberto naquela porta escancarada.
Um pássaro colorido dentro
A porta fechada.
A mulher cuidadosamente
Protegeu
o pássaro do pó e dos ruídos
E colocou
a gaiola na varanda,
A gaiola com pássaro colorido dentro
E a porta fechada.
Um dia depois, na varanda alta,
Olhou e viu a gaiola,
A gaiola e a porta aberta.
Saltou-lhe do peito o coração,
Abriu a boca de aflição,
Num segundo fugaz, pensou:
Lá fugiu o pássaro.
Reparou melhor, em alerta,
suspirou:
o pássaro colorido
dentro da gaiola,
a porta aberta.
Habituadas
à prisão, as asas
atrofiadas
nem perceberam a liberdade
em aberto naquela porta escancarada.
Tuesday, February 10, 2015
Insónia-memória
Dentro da insónia,
um emaranhado de videiras
Enredam nos sonhos
Um conjunto de nós;
Na casa antiga dos avós
Palavras adormecidas
Coladas nas paredes
Em cartas de amor
E fotos desamparadas
numa triste nostalgia
em aparente vigia,
os móveis esquecidos
as camas paradas,
vidas ultrapassadas.
Os caminhos despercebem-se
Atolados em sedimentos
Acumulados nos tempos
A correr sem parar.
Uma mesa num canto
Espavorida de espanto
Acompanha o ranger
De um soalho carcomido
Sem passos a correr.
Lá fora, um malmequer
(Ou será bem-me-quer?).
Nos ouvidos, um zumbido
Do vento a esbracejar
Como um búzio perdido
Afastado do mar.
Saturday, January 31, 2015
O pastor
O pastor
vigia o rebanho,
as ovelhas escolhem as ervas menos tisnadas
pelas últimas geadas
e as cabras saltitam ao sol
só a cabra coxa se arrasta vencida pela dor.
O pastor
senta-se, agarrado
ao bordão encostado
à parede descascada
da casa desabitada,
uns buracos abertos
onde foram antigamente
portas e janelas.
O pastor
abriga-se, uma figura
estampada na parede,
à espera que o tempo passe
sem que o vento estilhace
a paz do momento.
vigia o rebanho,
as ovelhas escolhem as ervas menos tisnadas
pelas últimas geadas
e as cabras saltitam ao sol
só a cabra coxa se arrasta vencida pela dor.
O pastor
senta-se, agarrado
ao bordão encostado
à parede descascada
da casa desabitada,
uns buracos abertos
onde foram antigamente
portas e janelas.
O pastor
abriga-se, uma figura
estampada na parede,
à espera que o tempo passe
sem que o vento estilhace
a paz do momento.
Tuesday, January 27, 2015
Os tempos
Antes de a chuva chegar
a roupa colorida
baloiça divertida
nos estendais
camisas e camisolas
braços a dançar
e cabeças de pernas para o ar
e os pardais, uns estarolas,
a fugir de entre os raminhos
entre gargalhadas loucas e fininhas
enganados pelo sol.
Virá a chuva, o frio, o vento, a neve,
os pássaros vão embrulhar-se quietos
junto aos ramos mais fortes, discretos
como folhas leves.
Ao longe, o comboio passa no horário certo.
Virá a neve, o gelo, virá a calma, o frio
os pardalitos pequenos
dispõem-se à beira do lago
em pose de mergulho, voam a rasar a água
ou equilibram-se numa folha a boiar
e agitam as asas em direcção ao céu.
Virá a neve, o gelo,
o sol, o degelo.
Ao longe, um sobressalto, o incerto, o inesperado
ao toque de um sino assustado.
a roupa colorida
baloiça divertida
nos estendais
camisas e camisolas
braços a dançar
e cabeças de pernas para o ar
e os pardais, uns estarolas,
a fugir de entre os raminhos
entre gargalhadas loucas e fininhas
enganados pelo sol.
Virá a chuva, o frio, o vento, a neve,
os pássaros vão embrulhar-se quietos
junto aos ramos mais fortes, discretos
como folhas leves.
Ao longe, o comboio passa no horário certo.
Virá a neve, o gelo, virá a calma, o frio
os pardalitos pequenos
dispõem-se à beira do lago
em pose de mergulho, voam a rasar a água
ou equilibram-se numa folha a boiar
e agitam as asas em direcção ao céu.
Virá a neve, o gelo,
o sol, o degelo.
Ao longe, um sobressalto, o incerto, o inesperado
ao toque de um sino assustado.
Wednesday, January 07, 2015
A pedra
A pedra no meio do caminho
diz o poeta sem decidir o que fazer
A pedra no meio do passeio
Passo de um lado
de outro lado
salto por cima?
Dou-lhe um pontapé.
Ou deixo ficar a pedra quieta
no meio do passeio.
Depende do tamanho da pedra.
diz o poeta sem decidir o que fazer
A pedra no meio do passeio
Passo de um lado
de outro lado
salto por cima?
Dou-lhe um pontapé.
Ou deixo ficar a pedra quieta
no meio do passeio.
Depende do tamanho da pedra.
Sunday, July 21, 2013
Saudades
O calor intenso a canícula o cérebro parado o pensamento quieto o corpo inquieto revivem os espíritos dos meus mortos
sento-me nas escadas gastas em frente ao velho portão e espero a levada que há-de chegar em cachão terroso antes do meu avô que surge quase ao mesmo tempo chapéu de palha na cabeça e sachola ao ombro
límpida a água depois as garotas de vestido fresco a brincar no líquido refrescante ao fim da tarde a mãe a ralhar que ainda se constipam
a avó de lenço a cobrir os cabelos a fingir que ralha sai lá da cozinha térrea a enxugar as mãos
o calor tem outro sabor
os corpos frescos os pés nus os degraus gastos em frente ao portão antigo e as lágrimas a doerem das saudades
Sunday, April 28, 2013
Actor-poeta
O actor
levanta os olhos
enfrenta a plateia
cheia
procura o público.
O poeta que é actor
por amor
às palavras
baixa o olhar
a pensar
molda a voz
no coração
sopesa as sílabas
vê os significados
na alma
e diz os caminhos
marcados
desde a infância
a letras-tipos-móveis
o sentido propositado
posto na aventura
dos sentidos
a textura
do papel
o espelho da capa
na contracapa
os dedos suavemente
acariciam a face das palavras.
levanta os olhos
enfrenta a plateia
cheia
procura o público.
O poeta que é actor
por amor
às palavras
baixa o olhar
a pensar
molda a voz
no coração
sopesa as sílabas
vê os significados
na alma
e diz os caminhos
marcados
desde a infância
a letras-tipos-móveis
o sentido propositado
posto na aventura
dos sentidos
a textura
do papel
o espelho da capa
na contracapa
os dedos suavemente
acariciam a face das palavras.
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Friday, March 29, 2013
A minha Mãe
Chove.
A minha Mãe branca, fria, silenciosa, coberta de flores.
Chove.
O meu Pai arranca do coração gritos de pedra.
Chove.
Nós emudecemos de espanto da ausência
que entra pelos olhos dentro e nos cega.
O meu Pai recorre os passos da vida dele.
da vida dela.
da nossa vida.
Como uma via sacra.
Chove.
Chove. Ou não chove.
Quem passa, deixa palavras que mal se ouvem.
O meu Pai em solilóquios de dor não acredita.
Sabe que as pessoas chegam e partem
partilham o seu sofrimento
e ele percebe isso e fica incrédulo.
Parou de chover.
A minha Mãe esconde-se num buraco escavado no chão.
Cobriram-na de rosas vermelhas. Nós temos os olhos vermelhos.
Já não temos lágrimas.
Andamos por ali como sonâmbulos enlouquecidos.
A falar baixinho. Sem falar. A trocar tudo.
Aos abraços. A alma aos tropeções.
Chove.
A minha Mãe, branca, fria, coberta de flores.
Sempre que voltarmos de longe ou de perto,
se demorarmos muito ou pouco,
quando abrirmos a porta,
Ela já não vai estar lá, como sempre esteve, à nossa espera.
Chove. Outra vez.
A minha Mãe branca, fria, silenciosa, coberta de flores.
Chove.
O meu Pai arranca do coração gritos de pedra.
Chove.
Nós emudecemos de espanto da ausência
que entra pelos olhos dentro e nos cega.
O meu Pai recorre os passos da vida dele.
da vida dela.
da nossa vida.
Como uma via sacra.
Chove.
Chove. Ou não chove.
Quem passa, deixa palavras que mal se ouvem.
O meu Pai em solilóquios de dor não acredita.
Sabe que as pessoas chegam e partem
partilham o seu sofrimento
e ele percebe isso e fica incrédulo.
Parou de chover.
A minha Mãe esconde-se num buraco escavado no chão.
Cobriram-na de rosas vermelhas. Nós temos os olhos vermelhos.
Já não temos lágrimas.
Andamos por ali como sonâmbulos enlouquecidos.
A falar baixinho. Sem falar. A trocar tudo.
Aos abraços. A alma aos tropeções.
Chove.
A minha Mãe, branca, fria, coberta de flores.
Sempre que voltarmos de longe ou de perto,
se demorarmos muito ou pouco,
quando abrirmos a porta,
Ela já não vai estar lá, como sempre esteve, à nossa espera.
Chove. Outra vez.
Tuesday, February 26, 2013
Devagar que tenho pressa
não há pressa
não pode haver pressa
as coisas têm outra dimensão
fazer coisas passam a ter outro tempo
tomar banho é uma epopeia
requer ponderação
calçar uma meia
ou um sapato
é uma aventura
ir de um lado para outro lado
prolonga-se no relógio
o pensamento anda célere
não comanda o andamento
deixar entrar o sol
numa tarde fria de Inverno
reveste-se de raios de felicidade;
a rua fica cheia de vagares...
não pode haver pressa
as coisas têm outra dimensão
fazer coisas passam a ter outro tempo
tomar banho é uma epopeia
requer ponderação
ou um sapato
é uma aventura
ir de um lado para outro lado
prolonga-se no relógio
o pensamento anda célere
não comanda o andamento
deixar entrar o sol
numa tarde fria de Inverno
reveste-se de raios de felicidade;
a rua fica cheia de vagares...
Saturday, February 23, 2013
Thursday, January 17, 2013
Natal
Todas as pessoas partem um dia ou outro.
Algumas, quando nos deixam, já tinham partido há muito tempo
sem o saberem.
este natal de letra minúscula anda triste desorientado louco.
sem iluminações sem exuberâncias num moderado e lento
cântico de boas festas.
Algumas, quando nos deixam, já tinham partido há muito tempo
sem o saberem.
este natal de letra minúscula anda triste desorientado louco.
sem iluminações sem exuberâncias num moderado e lento
cântico de boas festas.
Thursday, December 13, 2012
Filosofando em dia de nevoeiro
o nevoeiro desce sobre todos
sobre tudo
não se vê nada, só vultos
a fugir sem pressa,
fantasmas a dobrar
as esquinas
de ruas assombradas.
nestas manhãs pardas
que mistérios nos esperam
no final da ponte
nas curvas da estrada
nas encruzilhadas?
o gato estendeu o corpo amarelado
no telhado
confundiu a luz cinza-esbranquiçada
da neblina e procurou o seu lugar
das manhãs de sol.
à socapa
o homem no supermercado
entretém-se a trocar os preços
dos produtos à venda.
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mês de Dezembro,
nevoeiro,
outono,
vultos
Outono frio
caídas as folhas
uma a uma
o homem junta-as num montinho
arranhando o chão
em manobras lentas
de uma vassoura-ancinho.
o sol vai e vem atarantado
as nuvens arrastam o frio
talvez neve na serra.
uma a uma
o homem junta-as num montinho
arranhando o chão
em manobras lentas
de uma vassoura-ancinho.
o sol vai e vem atarantado
as nuvens arrastam o frio
talvez neve na serra.
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Saturday, November 17, 2012
Vazio
ruas paradas
casas entaipadas
portas e janelas
escondidas por telas
brancas ou tijolos
casas em ruínas
as árvores a crescer
dentro delas
casas semi-construídas
os blocos à espera
na estrada
casas arruinadas
casas fechadas
por trás de panos pretos
ou papel costaneira
castanho-amarelado
casas esventradas
as ervas a engolir os buracos
das paredes pardas
desanimadas
janelas caladas
o gato sobre o telhado
arrenda-se
aluga-se
vende-se
aluga-se ou vende-se
o gato não sabe ler
vem sempre às horas do sol de Outono
aconchegar-se sobre as telhas de sempre
na casa abandonada.
casas entaipadas
portas e janelas
escondidas por telas
brancas ou tijolos
as árvores a crescer
dentro delas
casas semi-construídas
os blocos à espera
na estrada
casas arruinadas
casas fechadas
por trás de panos pretos
ou papel costaneira
castanho-amarelado
casas esventradas
as ervas a engolir os buracos
das paredes pardas
desanimadas
janelas caladas
o gato sobre o telhado
arrenda-se
aluga-se
vende-se
aluga-se ou vende-se
o gato não sabe ler
vem sempre às horas do sol de Outono
aconchegar-se sobre as telhas de sempre
na casa abandonada.
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Monday, October 22, 2012
O meu Pai.
O meu Pai tem oitenta e nove anos.
O meu Pai está velhinho.
Anda devagar com medo de cair.
Com medo.
Bem-humorado. A rir.
Histórias dentro da História da sua vida.
Sempre com mais um pormenor.
Com mais um matiz. Mais uma graça.
Mesmo nos momentos mais heróicos.
Ou menos. Ou mais tristes. Ou felizes.
Ou nem tanto.
Uma gargalhada não contida.
Anda ainda à procura da felicidade.
Agora diz que não sabe o que é.
Onde se procura. Quando. É feliz agora.
E depois? E ontem? Afinal é só um momento?
Ou uma fantasia? Ou um paradoxal tormento?
Está preso a si próprio. Escreve para escapar.
Comove-se.
O meu Pai continua todo janota.
Com gosto especial por gravatas. Azuis.
E com gosto por boa comida.
(Só bebe água quem apreciava o bom vinho.
Às vezes, permite-se uma cerveja sem álcool.)
E por boas companhias.
Pela nossa companhia.
E por palavras. O meu Pai gosta de palavras.
Um dia, as filhas escreveram-lhe um livro da sua vida.
Ficou emocionado, enterneceu-se.
Com a veleidade das raparigas
de quererem meter uma vida
tão cheia de grandeza numa meia dúzia de páginas.
O meu Pai transporta no seu corpo a geografia
da terra onde nasceu
das terras que percorreu
no seu sangue os mares e os rios que viveu
e na sua alma os sonhos por sonhar.
O meu Pai está velhinho.
Anda devagar com medo de cair.
Com medo.
Bem-humorado. A rir.
Histórias dentro da História da sua vida.
Sempre com mais um pormenor.
Com mais um matiz. Mais uma graça.
Mesmo nos momentos mais heróicos.
Ou menos. Ou mais tristes. Ou felizes.
Ou nem tanto.
Uma gargalhada não contida.
Anda ainda à procura da felicidade.
Agora diz que não sabe o que é.
Onde se procura. Quando. É feliz agora.
E depois? E ontem? Afinal é só um momento?
Ou uma fantasia? Ou um paradoxal tormento?
Está preso a si próprio. Escreve para escapar.
Comove-se.
O meu Pai continua todo janota.
Com gosto especial por gravatas. Azuis.
E com gosto por boa comida.
(Só bebe água quem apreciava o bom vinho.
Às vezes, permite-se uma cerveja sem álcool.)
E por boas companhias.
Pela nossa companhia.
E por palavras. O meu Pai gosta de palavras.
Um dia, as filhas escreveram-lhe um livro da sua vida.
Ficou emocionado, enterneceu-se.
Com a veleidade das raparigas
de quererem meter uma vida
tão cheia de grandeza numa meia dúzia de páginas.
O meu Pai transporta no seu corpo a geografia
da terra onde nasceu
das terras que percorreu
no seu sangue os mares e os rios que viveu
e na sua alma os sonhos por sonhar.
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filhas,
o meu Pai,
oitenta e nove anos,
Santa Marinha do Zêzere,
vidas
Sunday, October 21, 2012
Devaneios
Entrou a noite,
caminhou a noite por si dentro,
eu fico à tua espera.
Dou voltas nos corredores,
dou voltas na cama,
continuo à tua espera.
Espreito à janela,
vou à varanda,
apagou-se a luz dos candeeiros
(agora, à meia-noite em ponto
fica ainda mais noite)
a noite anoiteceu de tão escura.
Ainda estou à tua espera.
Ao amanhecer
voltará a luz
e com ela a lucidez:
espero uma quimera.
caminhou a noite por si dentro,
eu fico à tua espera.
Dou voltas nos corredores,
dou voltas na cama,
continuo à tua espera.
Espreito à janela,
vou à varanda,
apagou-se a luz dos candeeiros
(agora, à meia-noite em ponto
a noite anoiteceu de tão escura.
Ainda estou à tua espera.
Ao amanhecer
voltará a luz
e com ela a lucidez:
espero uma quimera.
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