Showing posts with label tempo. Show all posts
Showing posts with label tempo. Show all posts

Wednesday, April 13, 2016

Tempo(s)



O tempo corre
Escorre
Discorre
Entre as gotinhas de chuva
No meio das tempestades
Em dias serenos
Tu estás
Não estás
Chegaste
Partiste
Correste
Fugiste
Acertaste
Duvidaste
Voltaste
Encontro-te
Desencontro-te
Espero
Desespero
Vislumbro a tua silhueta
Como areia numa ampulheta
Que se escapa sem volta atrás.

in 
Somos Instantes, Colectânea  
O Percurso das Palavras
Papel d'Arroz Editora



Tuesday, January 27, 2015

Os tempos

Antes de a chuva chegar
a roupa colorida
baloiça divertida
nos estendais
camisas e camisolas
braços a dançar
e cabeças de pernas para o ar
e os pardais, uns estarolas,
a fugir de entre os raminhos
entre gargalhadas loucas e fininhas
enganados pelo sol.

Virá a chuva, o frio, o vento, a neve,
os pássaros vão embrulhar-se quietos
junto aos ramos mais fortes, discretos
como folhas leves.

Ao longe, o comboio passa no horário certo.

Virá a neve, o gelo, virá a calma, o frio
os pardalitos pequenos
dispõem-se à beira do lago
em pose de mergulho, voam a rasar a água
ou equilibram-se numa folha a boiar
e agitam as asas em direcção ao céu.

Virá a neve, o gelo,
o sol, o degelo.

Ao longe, um sobressalto, o incerto, o inesperado
ao toque de um sino assustado.


Tuesday, April 24, 2012

Tempo

Já vi fazer uma cruz em cada dia de um calendário
para marcar a passagem do tempo
ou rasgar uma folha por cada dia
ou arrancar a página por cada mês
agora ela marca os dias que fogem
que faltam que se evaporam
em cada comprimido
arrancado à embalagem
todas as manhãs
quando atira a caixa para o lixo
ao fim de um mês termina um ciclo
começa tudo de novo
parece que começa tudo de novo
não começa é uma ilusão da linguagem
sente um arrepio como uma aragem
do tempo a escapulir-se em corrente de ar...

Thursday, January 12, 2012

Tempo

tantos sóis passados
as luas em mil crescentes e decrescentes
novas e cheias
a água a passar por debaixo das pontes
as ribeiras secaram nos leitos cansados
pontes caíram esgotadas e frágeis
ajoelharam nas lajes das igrejas os crentes
em orações mágicas, fantásticas panaceias
eclipsaram-se umas atrás das outras as primaveras
as neves acumularam-se no alto das serras
escorreram pelas encostas em delírio,
deram de beber às nascentes
vieram e partiram outonos de folhas caídas
e os verões ganharam-se e perderam-se
como areia escapulindo-se por entre os dedos
vivemos vidas mais que as que esperávamos
entre paredes vazias caiadas de medos
e esperanças arrancadas a ruas de alegria
caímos umas tantas vezes mas sobrevivemos
andámos à procura da harmonia dos deuses
ainda andamos à procura andaremos sempre,
na balança, as impossibilidades e as ilusões
desequilibradas as forças, os ganhos, as perdas,
cruzaram-se e descruzaram-se os caminhos
em mil e uma voltas até ao fim do labirinto,
já não somos os mesmos, não estás à minha espera
na praça onde os pássaros se perfilam nos fios,
nem eu te escrevo poemas inconsequentes,
continuamos a ouvir canções à beira dos rios,
a sonhar chuvas e sóis em românticos poentes,
a desconstruir estradas nos céus desconhecidos,
ninguém colheu as amoras à beira da estrada
no verão passado e agora mirraram da espera,
sob a neblina, o musgo verde cobre as pedras,
ainda suspiramos perante o arco-íris completo,
bate forte o coração ao sentir na boca
o sabor antigo de pêssegos verdadeiros
e, junto ao mar, a alma baloiça entre loucas
tempestades e a bonança (in)esperada,
somos capazes de tudo, outras vezes de nada,
queima-nos o sol, tolhe-nos o frio,
sacudimos fantasmas, viramos páginas,
sofregamente, bebemos as noites, os dias...
agora, cai a tarde, nasce a ternura...

Monday, February 22, 2010

Passados

o velho arrastou os pés

com uma mão no peito

através

do caminho estreito

afastando as silvas

tropeçando

nos arbustos invasores

até à casa dos bisavós,

a casa em ruínas

as paredes ainda de pé

abrigavam árvores novas,

o sobreiro antigo engrossou

a figueira velha medrou

a videira apoiada ao choupo

mirrou

de tristeza entre devoradores

trágicos dos miasmas

de antepassados fantasmas;



o velho encostou o corpo

à parede

estendeu as mãos, quis rodear

todas as vidas passadas,

o tempo escorreu-lhe

entre os braços,

as vidas passam

tão depressa,

ainda ontem saí desta casa

cheia de gente

à procura do mundo,

agora regressei

e já não encontrei

ninguém...



o telhado há muito caiu

ruiu

a chaminé, na pedra do lar

na cozinha de terra batida

nem as marcas das cinzas

vingaram...



o velho lançou um olhar

ao sobreiro que restou,

à figueira, ao choupo preso à videira,

retrocedeu mais encurvado

pelo caminho estreito

a mão no peito,

a reter as lágrimas na garganta,

o tempo corre danado

como torrente

indomável ...



a mão no peito

pelo caminho estreito

arrimado

às lembranças,

as lágrimas

presas na voz,

a mão no peito

pelo caminho estreito...

Friday, July 17, 2009

relógio


guardei o relógio
não sei onde
ando assim à toa
sem horas nem desoras
guiada por ecos de luz
sombras coladas
às paredes caladas
e penumbras ocas
pelas vozes vadias
dos pássaros inquietos
o vazio das esplanadas
o nevoeiro dos sonhos
entre sonos à solta…

guardei o relógio
... só o tempo não pára…

Monday, June 22, 2009

Medos

o tempo
ultrapassa-me
num desconcerto
tenho medo
de ir até ali
tão perto
e ao voltar
já não me encontrar!

Monday, June 15, 2009

Sem sentido

o sábado inteiro
-há quem passe a vida inteira-
à procura de um sentido
para a vida

e se não há sentido?
se a vida não é uma passagem?
nem vale de lágrimas
nem desfiladeiro nem cruz?

se a vida é simplesmente
sentido proibido
miragem
caminho de sombras sem luz
nem chegada nem partida
palavra sem direito a erro
desterro
precipício
delírio
beco sem saída
naufrágio
jogo sem princípio
nem fim?

se é apenas o tempo
de uma rosa florir
efeito borboleta
equilíbrio de balança
o eclodir
de um ovo
gota de sangue
uma bênção
dos avós
uma criança sorrir
passo de dança
a chuva cair
a água gelar
a queda de uma folha
uma decisão
a sós
desgosto de amor?


o tempo
de um suspiro
o cansaço
uma palavra
um abraço?

será breve
sempre
o tempo

será mais leve
se alguém estiver
à nossa espera?!

… entretanto,
num tempo
de um pranto,
de um riso,
de um cheiro,
um segundo impreciso,
três mulheres colhem flores de sabugueiro…

Sunday, August 31, 2008

Relógios


Está ali um relógio
a matraquear enlouquecido
tic-tac-tic-tac
um tempo irreversível
numa cadência sistemática,
matemática,
que entorpece,
só me apetece
parti-lo contra a parede
e ver o tempo
avançar comedido
e beijar cada segundo...