Chove.
A minha Mãe branca, fria, silenciosa, coberta de flores.
Chove.
O meu Pai arranca do coração gritos de pedra.
Chove.
Nós emudecemos de espanto da ausência
que entra pelos olhos dentro e nos cega.
O meu Pai recorre os passos da vida dele.
da vida dela.
da nossa vida.
Como uma via sacra.
Chove.
Chove. Ou não chove.
Quem passa, deixa palavras que mal se ouvem.
O meu Pai em solilóquios de dor não acredita.
Sabe que as pessoas chegam e partem
partilham o seu sofrimento
e ele percebe isso e fica incrédulo.
Parou de chover.
A minha Mãe esconde-se num buraco escavado no chão.
Cobriram-na de rosas vermelhas. Nós temos os olhos vermelhos.
Já não temos lágrimas.
Andamos por ali como sonâmbulos enlouquecidos.
A falar baixinho. Sem falar. A trocar tudo.
Aos abraços. A alma aos tropeções.
Chove.
A minha Mãe, branca, fria, coberta de flores.
Sempre que voltarmos de longe ou de perto,
se demorarmos muito ou pouco,
quando abrirmos a porta,
Ela já não vai estar lá, como sempre esteve, à nossa espera.
Chove. Outra vez.
Friday, March 29, 2013
Tuesday, February 26, 2013
Devagar que tenho pressa
não há pressa
não pode haver pressa
as coisas têm outra dimensão
fazer coisas passam a ter outro tempo
tomar banho é uma epopeia
requer ponderação
calçar uma meia
ou um sapato
é uma aventura
ir de um lado para outro lado
prolonga-se no relógio
o pensamento anda célere
não comanda o andamento
deixar entrar o sol
numa tarde fria de Inverno
reveste-se de raios de felicidade;
a rua fica cheia de vagares...
não pode haver pressa
as coisas têm outra dimensão
fazer coisas passam a ter outro tempo
tomar banho é uma epopeia
requer ponderação
ou um sapato
é uma aventura
ir de um lado para outro lado
prolonga-se no relógio
o pensamento anda célere
não comanda o andamento
deixar entrar o sol
numa tarde fria de Inverno
reveste-se de raios de felicidade;
a rua fica cheia de vagares...
Saturday, February 23, 2013
Thursday, January 17, 2013
Natal
Todas as pessoas partem um dia ou outro.
Algumas, quando nos deixam, já tinham partido há muito tempo
sem o saberem.
este natal de letra minúscula anda triste desorientado louco.
sem iluminações sem exuberâncias num moderado e lento
cântico de boas festas.
Algumas, quando nos deixam, já tinham partido há muito tempo
sem o saberem.
este natal de letra minúscula anda triste desorientado louco.
sem iluminações sem exuberâncias num moderado e lento
cântico de boas festas.
Thursday, December 13, 2012
Filosofando em dia de nevoeiro
o nevoeiro desce sobre todos
sobre tudo
não se vê nada, só vultos
a fugir sem pressa,
fantasmas a dobrar
as esquinas
de ruas assombradas.
nestas manhãs pardas
que mistérios nos esperam
no final da ponte
nas curvas da estrada
nas encruzilhadas?
o gato estendeu o corpo amarelado
no telhado
confundiu a luz cinza-esbranquiçada
da neblina e procurou o seu lugar
das manhãs de sol.
à socapa
o homem no supermercado
entretém-se a trocar os preços
dos produtos à venda.
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frio,
gato,
Guarda,
mês de Dezembro,
nevoeiro,
outono,
vultos
Outono frio
caídas as folhas
uma a uma
o homem junta-as num montinho
arranhando o chão
em manobras lentas
de uma vassoura-ancinho.
o sol vai e vem atarantado
as nuvens arrastam o frio
talvez neve na serra.
uma a uma
o homem junta-as num montinho
arranhando o chão
em manobras lentas
de uma vassoura-ancinho.
o sol vai e vem atarantado
as nuvens arrastam o frio
talvez neve na serra.
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Saturday, November 17, 2012
Vazio
ruas paradas
casas entaipadas
portas e janelas
escondidas por telas
brancas ou tijolos
casas em ruínas
as árvores a crescer
dentro delas
casas semi-construídas
os blocos à espera
na estrada
casas arruinadas
casas fechadas
por trás de panos pretos
ou papel costaneira
castanho-amarelado
casas esventradas
as ervas a engolir os buracos
das paredes pardas
desanimadas
janelas caladas
o gato sobre o telhado
arrenda-se
aluga-se
vende-se
aluga-se ou vende-se
o gato não sabe ler
vem sempre às horas do sol de Outono
aconchegar-se sobre as telhas de sempre
na casa abandonada.
casas entaipadas
portas e janelas
escondidas por telas
brancas ou tijolos
as árvores a crescer
dentro delas
casas semi-construídas
os blocos à espera
na estrada
casas arruinadas
casas fechadas
por trás de panos pretos
ou papel costaneira
castanho-amarelado
casas esventradas
as ervas a engolir os buracos
das paredes pardas
desanimadas
janelas caladas
o gato sobre o telhado
arrenda-se
aluga-se
vende-se
aluga-se ou vende-se
o gato não sabe ler
vem sempre às horas do sol de Outono
aconchegar-se sobre as telhas de sempre
na casa abandonada.
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vidas paradas
Monday, October 22, 2012
O meu Pai.
O meu Pai tem oitenta e nove anos.
O meu Pai está velhinho.
Anda devagar com medo de cair.
Com medo.
Bem-humorado. A rir.
Histórias dentro da História da sua vida.
Sempre com mais um pormenor.
Com mais um matiz. Mais uma graça.
Mesmo nos momentos mais heróicos.
Ou menos. Ou mais tristes. Ou felizes.
Ou nem tanto.
Uma gargalhada não contida.
Anda ainda à procura da felicidade.
Agora diz que não sabe o que é.
Onde se procura. Quando. É feliz agora.
E depois? E ontem? Afinal é só um momento?
Ou uma fantasia? Ou um paradoxal tormento?
Está preso a si próprio. Escreve para escapar.
Comove-se.
O meu Pai continua todo janota.
Com gosto especial por gravatas. Azuis.
E com gosto por boa comida.
(Só bebe água quem apreciava o bom vinho.
Às vezes, permite-se uma cerveja sem álcool.)
E por boas companhias.
Pela nossa companhia.
E por palavras. O meu Pai gosta de palavras.
Um dia, as filhas escreveram-lhe um livro da sua vida.
Ficou emocionado, enterneceu-se.
Com a veleidade das raparigas
de quererem meter uma vida
tão cheia de grandeza numa meia dúzia de páginas.
O meu Pai transporta no seu corpo a geografia
da terra onde nasceu
das terras que percorreu
no seu sangue os mares e os rios que viveu
e na sua alma os sonhos por sonhar.
O meu Pai está velhinho.
Anda devagar com medo de cair.
Com medo.
Bem-humorado. A rir.
Histórias dentro da História da sua vida.
Sempre com mais um pormenor.
Com mais um matiz. Mais uma graça.
Mesmo nos momentos mais heróicos.
Ou menos. Ou mais tristes. Ou felizes.
Ou nem tanto.
Uma gargalhada não contida.
Anda ainda à procura da felicidade.
Agora diz que não sabe o que é.
Onde se procura. Quando. É feliz agora.
E depois? E ontem? Afinal é só um momento?
Ou uma fantasia? Ou um paradoxal tormento?
Está preso a si próprio. Escreve para escapar.
Comove-se.
O meu Pai continua todo janota.
Com gosto especial por gravatas. Azuis.
E com gosto por boa comida.
(Só bebe água quem apreciava o bom vinho.
Às vezes, permite-se uma cerveja sem álcool.)
E por boas companhias.
Pela nossa companhia.
E por palavras. O meu Pai gosta de palavras.
Um dia, as filhas escreveram-lhe um livro da sua vida.
Ficou emocionado, enterneceu-se.
Com a veleidade das raparigas
de quererem meter uma vida
tão cheia de grandeza numa meia dúzia de páginas.
O meu Pai transporta no seu corpo a geografia
da terra onde nasceu
das terras que percorreu
no seu sangue os mares e os rios que viveu
e na sua alma os sonhos por sonhar.
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Canelas VNG,
filhas,
o meu Pai,
oitenta e nove anos,
Santa Marinha do Zêzere,
vidas
Sunday, October 21, 2012
Devaneios
Entrou a noite,
caminhou a noite por si dentro,
eu fico à tua espera.
Dou voltas nos corredores,
dou voltas na cama,
continuo à tua espera.
Espreito à janela,
vou à varanda,
apagou-se a luz dos candeeiros
(agora, à meia-noite em ponto
fica ainda mais noite)
a noite anoiteceu de tão escura.
Ainda estou à tua espera.
Ao amanhecer
voltará a luz
e com ela a lucidez:
espero uma quimera.
caminhou a noite por si dentro,
eu fico à tua espera.
Dou voltas nos corredores,
dou voltas na cama,
continuo à tua espera.
Espreito à janela,
vou à varanda,
apagou-se a luz dos candeeiros
(agora, à meia-noite em ponto
a noite anoiteceu de tão escura.
Ainda estou à tua espera.
Ao amanhecer
voltará a luz
e com ela a lucidez:
espero uma quimera.
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noite escura,
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Friday, September 28, 2012
Outono
O Verão todo gastou-se em convulsões de sol,
já pressinto a garganta a atragantar
de cachecóis
os pés encafuados em meias
e sapatos bem fechados.
O homem de camisola vermelha isolou-se,
sentou-se nas coçadas escadas
da casa em ruínas, sem portas sem janelas,
sem telhado,
no meio do descampado tristonho,
pôs-se a ler um livro.
Os namorados agarradinhos aos beijos
o rapaz sentado no muro
a rapariga encostada a ele,
corre o Outono pela rua fora
e eles quedam-se em espantos mútuos
ignorando o céu cinzento.
já pressinto a garganta a atragantar
de cachecóis
os pés encafuados em meias
e sapatos bem fechados.
O homem de camisola vermelha isolou-se,
sentou-se nas coçadas escadas
da casa em ruínas, sem portas sem janelas,
sem telhado,
no meio do descampado tristonho,
pôs-se a ler um livro.
Os namorados agarradinhos aos beijos
o rapaz sentado no muro
a rapariga encostada a ele,
corre o Outono pela rua fora
e eles quedam-se em espantos mútuos
ignorando o céu cinzento.
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Thursday, July 05, 2012
Namorados
o vento entrança enlaça os pensamentos
cabelos desalinhados
subimos a calçada nova
para o ponto mais alto
granítico
baixamos os olhos sobre a cidade
as mulheres sentadas
nos degraus gastos de séculos
à sombra
a entretecer vidas em rendas
com pequenas agulhas de croché
escolheram o banco mais cimeiro
os dois jovens
reis da cidade
a cidade a seus pés
o par de namorados
sentados
de costas voltadas à urbe
olhos vidrados no castelo
o vento enrolando
desenrolando os cabelos
as borboletas às voltas
entre as pétalas das flores silvestres
que sobem nas encostas
os séculos emaranhados
nas pedras de outrora
caminhos de outros tempos
o vento de agora
os enamorados
sentam-se
trocam segredos
no banco
no ponto mais alto
o vento enlaça enrola enrodilha
os cabelos.
cabelos desalinhados
subimos a calçada nova
para o ponto mais alto
granítico
baixamos os olhos sobre a cidade
as mulheres sentadas
nos degraus gastos de séculos
à sombra
a entretecer vidas em rendas
com pequenas agulhas de croché
escolheram o banco mais cimeiro
os dois jovens
reis da cidade
a cidade a seus pés
o par de namorados
sentados
de costas voltadas à urbe
olhos vidrados no castelo
o vento enrolando
desenrolando os cabelos
as borboletas às voltas
entre as pétalas das flores silvestres
que sobem nas encostas
os séculos emaranhados
nas pedras de outrora
caminhos de outros tempos
o vento de agora
os enamorados
sentam-se
trocam segredos
no banco
no ponto mais alto
o vento enlaça enrola enrodilha
os cabelos.
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Monday, June 11, 2012
Na cidade. A chuva.
na cidade
ruas desertas molhadas sombrias
correm fogem as pessoas nestes dias
penumbras dentro-portas de repente
o gato
sobre o telhado velho e ferrugento
sai a tomar ar e sol até vento
a aragem forte corre na rua em frente.
ruas desertas molhadas sombrias
correm fogem as pessoas nestes dias
penumbras dentro-portas de repente
o gato
sobre o telhado velho e ferrugento
sai a tomar ar e sol até vento
a aragem forte corre na rua em frente.
Saturday, May 19, 2012
Céu de Verão
céu de Verão
ruas quietas casas caladas
o gato no telhado à sombra
pela porta entreaberta
a novela
salta para a viela
as pombas
encostadas
às paredes
a picotear migalhas
sementes miúdas
não fogem
não voam
ficam por ali de bicos no chão.
ruas quietas casas caladas
o gato no telhado à sombra
pela porta entreaberta
a novela
salta para a viela
as pombas
encostadas
às paredes
a picotear migalhas
sementes miúdas
não fogem
não voam
ficam por ali de bicos no chão.
Friday, May 04, 2012
Hoje chove
hoje chove
não já aquela chuva arrependida
mas chuva assim bem caída
directa direita à terra sedenta
na ponte
havia uns escritos uns sarrabiscos
umas palavras mal escritas uns riscos
um redundante amo-te amante
não já aquela chuva arrependida
mas chuva assim bem caída
directa direita à terra sedenta
na ponte
havia uns escritos uns sarrabiscos
umas palavras mal escritas uns riscos
um redundante amo-te amante
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Ponte
Tuesday, April 24, 2012
Tempo
Já vi fazer uma cruz em cada dia de um calendário
para marcar a passagem do tempo
ou rasgar uma folha por cada dia
ou arrancar a página por cada mês
agora ela marca os dias que fogem
que faltam que se evaporam
em cada comprimido
arrancado à embalagem
todas as manhãs
quando atira a caixa para o lixo
ao fim de um mês termina um ciclo
começa tudo de novo
parece que começa tudo de novo
não começa é uma ilusão da linguagem
sente um arrepio como uma aragem
do tempo a escapulir-se em corrente de ar...
para marcar a passagem do tempo
ou rasgar uma folha por cada dia
ou arrancar a página por cada mês
agora ela marca os dias que fogem
que faltam que se evaporam
em cada comprimido
arrancado à embalagem
todas as manhãs
quando atira a caixa para o lixo
ao fim de um mês termina um ciclo
começa tudo de novo
parece que começa tudo de novo
não começa é uma ilusão da linguagem
sente um arrepio como uma aragem
do tempo a escapulir-se em corrente de ar...
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Thursday, April 19, 2012
Abraço
Já reparaste? Anoiteceu.
Quando te encontrar
vou correr para te abraçar.
Com saudades da memória
de um amor que não aconteceu.
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Monday, April 16, 2012
No parque. Chuva.
Que saudades eu tinha
de caminhar à chuva
limpar a alma
seca do pó dos tempos
caminhar nesta calma
sentir cada gotinha
que a terra suga
e as flores sorvem
ficar assim parada
as andorinhas em acrobacias
rasantes sobre o lago cinzento
quedar-me assim deslumbrada
a sensação de fresca liberdade
das crianças de sempre
de outros tempos e lugares
a chapinhar em cada poça encharcada
chegar a casa molhada
e os pés às gargalhadas...
de caminhar à chuva
limpar a alma
seca do pó dos tempos
caminhar nesta calma
sentir cada gotinha
que a terra suga
e as flores sorvem
ficar assim parada
as andorinhas em acrobacias
rasantes sobre o lago cinzento
quedar-me assim deslumbrada
a sensação de fresca liberdade
das crianças de sempre
de outros tempos e lugares
a chapinhar em cada poça encharcada
chegar a casa molhada
e os pés às gargalhadas...
Monday, April 09, 2012
No Parque. O pardal.
O pardal
mal
me pressente
fica um momento
quieto no ramo ainda sem folhas nenhumas.
Voa
da árvore sem ainda folhas nenhumas
despida
para o ramo da árvore florida
cheiinha de folhas verdes.
Esconde-se.
Vou andando
muito lentamente.
O pardal rodeia o ramo da árvore florida.
Camuflado, queda-se entre a ramagem.
Uma miragem.
Espera.
Espera mais um bocadinho.
Vou andando.
O pardal
encolhe-se.
Joga às escondidas.
Como quem ri.
Voa.
Para longe.
Como quem ri à gargalhada.
Malandro, ainda te apanhei.
Na fotografia!
mal
me pressente
fica um momento
quieto no ramo ainda sem folhas nenhumas.
Voa
da árvore sem ainda folhas nenhumas
despida
para o ramo da árvore florida
cheiinha de folhas verdes.
Esconde-se.
Vou andando
muito lentamente.
O pardal rodeia o ramo da árvore florida.
Camuflado, queda-se entre a ramagem.
Uma miragem.
Espera.
Espera mais um bocadinho.
Vou andando.
O pardal
encolhe-se.
Joga às escondidas.
Como quem ri.
Voa.
Para longe.
Como quem ri à gargalhada.
Malandro, ainda te apanhei.
Na fotografia!
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Thursday, March 29, 2012
Tantas casas depois
a casa
a vida o amor
os sonhos
a simplicidade
apostaste a tua vida naquela casa
as desilusões
os pesadelos
os vizinhos
a vida de aldeia
as festas
os casamentos os baptizados
funerais nascimentos
no quintal houve a certa altura
a mó antiga
de um moinho ainda mais antigo
a servir de mesa
noutro ano nasceram os amores-perfeitos
mais perfeitos que jamais viras
nunca mais nasceram outros iguais
naquela casa entrou a certa altura
a tua filha, a tua força,
a luz da tua vida, a bússola no teu caminho
quando viste que não ia ser a casa para sempre
agarraste no que te sobrava de ilusão
e foste embora sozinha.
a casa dos teus Pais
era a casa dos Verões dos garotos
sabe sempre bem
porque os teus Pais estão ainda ali
a casa
a essa casa chegaste com uma trouxa feita de nada
a casa tinha uma varanda para o campo
e largas janelas altas na cozinha
gostavas daquela largueza
plantaste umas flores junto à janela
e acreditavas.
a casa não tinha culpa
chegaste sem nada
apenas tu
cada lanço de escadas era uma vitória
foram dias de espera
de desespero de mudanças
de inquietações de sobressaltos
de lágrimas e risos confusos
os Invernos foram frios e tristes
encontramos pessoas que nos entorpecem o caminho
o nosso purgatório
tempos de desesperança
de lágrimas de hipocrisias
criaste uma carapaça
tiveste insónias
foram tempos maus
e ainda muito piores
houve tempos de sorrisos
remendaste o coração
e aprendeste tudo de novo.
foram tantas as casas
as vidas
agora deixa estar essas paredes
esses móveis essas louças
não apagues essas memórias
são as memórias que construíste
nesses armários de vinte anos
onde guardas pratos desirmanados
os tachos de ferro fundido
talheres quanto bastem
nos móveis cada peça que guardas
tem uma história marcada
a porta do armário
da cozinha não fecha,
fica encostada
abre devagarinho
como se andasse um fantasma perdulário
por aí sozinho
não há fantasmas antigos
os fantasmas de agora
brincalhões, amigos
guardam-te a casa, esperam-te à entrada
quando sais uma temporada
mais prolongada
deixa ficar a lareira acesa
no Natal, nas noites frias
aconchega-te no teu canto do sofá
partilha a alegria
dessa vida que escolheste
sorve cada segundo
a um canto da estante
vive um despertador
entre as fotos nas molduras
e uns jarrões transparentes
as sardinheiras todos os dias
floridas evocam-te sorrisos
um cabaz de flores silvestres
debaixo da mesa do telefone
os galos cantam
a qualquer hora
ao longe
e ao longe tocam os sinos
as horas certas
deixa entrar o sol
enquanto despertas
segue os rituais
na rua lá em baixo
os inquietos pardais
procuram migalhas
na varanda desabrochou uma flor.
Esta é A casa.
a vida o amor
os sonhos
a simplicidade
apostaste a tua vida naquela casa
as desilusões
os pesadelos
os vizinhos
a vida de aldeia
as festas
os casamentos os baptizados
funerais nascimentos
no quintal houve a certa altura
a mó antiga
de um moinho ainda mais antigo
a servir de mesa
noutro ano nasceram os amores-perfeitos
mais perfeitos que jamais viras
nunca mais nasceram outros iguais
naquela casa entrou a certa altura
a tua filha, a tua força,
a luz da tua vida, a bússola no teu caminho
quando viste que não ia ser a casa para sempre
agarraste no que te sobrava de ilusão
e foste embora sozinha.
a casa dos teus Pais
era a casa dos Verões dos garotos
sabe sempre bem
porque os teus Pais estão ainda ali
a casa
a essa casa chegaste com uma trouxa feita de nada
a casa tinha uma varanda para o campo
e largas janelas altas na cozinha
gostavas daquela largueza
plantaste umas flores junto à janela
e acreditavas.
a casa não tinha culpa
chegaste sem nada
apenas tu
cada lanço de escadas era uma vitória
foram dias de espera
de desespero de mudanças
de inquietações de sobressaltos
de lágrimas e risos confusos
os Invernos foram frios e tristes
encontramos pessoas que nos entorpecem o caminho
o nosso purgatório
tempos de desesperança
de lágrimas de hipocrisias
criaste uma carapaça
tiveste insónias
foram tempos maus
e ainda muito piores
houve tempos de sorrisos
remendaste o coração
e aprendeste tudo de novo.
foram tantas as casas
as vidas
agora deixa estar essas paredes
esses móveis essas louças
não apagues essas memórias
são as memórias que construíste
nesses armários de vinte anos
onde guardas pratos desirmanados
os tachos de ferro fundido
talheres quanto bastem
nos móveis cada peça que guardas
tem uma história marcada
a porta do armário
da cozinha não fecha,
fica encostada
abre devagarinho
como se andasse um fantasma perdulário
por aí sozinho
não há fantasmas antigos
os fantasmas de agora
brincalhões, amigos
guardam-te a casa, esperam-te à entrada
quando sais uma temporada
mais prolongada
deixa ficar a lareira acesa
no Natal, nas noites frias
aconchega-te no teu canto do sofá
partilha a alegria
dessa vida que escolheste
sorve cada segundo
a um canto da estante
vive um despertador
entre as fotos nas molduras
e uns jarrões transparentes
as sardinheiras todos os dias
floridas evocam-te sorrisos
um cabaz de flores silvestres
debaixo da mesa do telefone
os galos cantam
a qualquer hora
ao longe
e ao longe tocam os sinos
as horas certas
deixa entrar o sol
enquanto despertas
segue os rituais
na rua lá em baixo
os inquietos pardais
procuram migalhas
na varanda desabrochou uma flor.
Esta é A casa.
Thursday, March 22, 2012
Ainda outra casa
a casa do andar de cima
numa travessa quase sem saída
tinha um sótão
e um quintal com um tanque
a tua Mãe gastou-se naquele tanque
também tinha um galinheiro ao fundo
havia sempre um quintal e um galinheiro
nas casas onde viveste
o quintal dava para um caminho estreito
era aí que havia as nespereiras
de um lado e outro
o caminho ia ter à rua dos combatentes
por ele ias ver a saída do futebol
e os jogadores da académica
o zé carvalho foi depois campeão
dos 400 m barreiras
morava lá perto
muitas vezes
estava à janela
o teu pai partiu
voltou
as paredes velhas
choraram a ausência
o chão encerado
a arca de folha ao cimo das escadas
o terramoto, uma vez houve um terramoto.
numa travessa quase sem saída
tinha um sótão
e um quintal com um tanque
a tua Mãe gastou-se naquele tanque
também tinha um galinheiro ao fundo
havia sempre um quintal e um galinheiro
nas casas onde viveste
o quintal dava para um caminho estreito
era aí que havia as nespereiras
de um lado e outro
o caminho ia ter à rua dos combatentes
por ele ias ver a saída do futebol
e os jogadores da académica
o zé carvalho foi depois campeão
dos 400 m barreiras
morava lá perto
muitas vezes
estava à janela
o teu pai partiu
voltou
as paredes velhas
choraram a ausência
o chão encerado
a arca de folha ao cimo das escadas
o terramoto, uma vez houve um terramoto.
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Coimbra,
Faculdade de Letras,
família,
Irmãs,
mãe,
Pai,
Rua do Teodoro,
Rua dos Combatentes,
Zé Carvalho
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