Saturday, November 04, 2006

A Minha Mãe


Penso muitas vezes na minha Mãe, em particular, quando ela está doente. Não penso nela velhinha, sentada no seu sofá ao cantinho da sala ou à porta à espreita de quem parte e de quem chega. Penso na mulher de vinte anos da foto, provavelmente a primeira foto que ela tirou. Vinte anos de uma beleza entre serena e altiva, como uma princesa, rosto de uma beleza sã e escorreita. Apenas lavado com água da fonte. Cabelo penteado para trás, com umas ondinhas e apanhado, na nuca, com uma rede. E uns brincos-lágrima nas orelhas.
Penso na mulher da foto. Saiu da casa na aldeia perdida no Douro e andou por terras que ela nem imaginaria que existiam. Nasci eu e assim ficámos ligadas para toda a vida.
Penso na mulher da foto. Na severidade e distância que a separavam de nós. Fruto da responsabilidade. Vejo agora que esse rigor derivava da juventude e da educação. Às vezes, andava bem disposta, outras vezes pesava-lhe, com certeza, o aborrecimento e a solidão. As tarefas repetidas todos e cada dia. As refeições, a roupa, a casa. Andar de terra em terra. Fazia amigos hoje e amanhã tinha que se despedir deles… E a casa, a roupa , as refeições. O marido e as filhas, a partir de certa altura, iam e vinham ao sabor dos horários do trabalho e da Escola para almoçar e para se meterem nos quartos a estudar e a ter conversas de meninas, risadas de jovens e para voltarem a sentar-se à mesa à hora do jantar. Quando a queriam meter nas conversas, já ela se tinha ensimesmado, farta de cumprir os horários dos outros. Estava sempre ali. A qualquer hora, quando saíamos e quando entrávamos em casa. Ria , às vezes, outras vezes, receava o eco das gargalhadas. Proibia a felicidade, sem mais nem menos. Se calhar, quando as circunstâncias afastaram o marido de casa, culpou-nos por não ter consigo o seu companheiro. Outras vezes, esses afastamentos temporários, davam-lhe outro ânimo, outro poder de decisão e tudo corria às mil maravilhas.
Penso na mulher da foto. Eu nunca quis aprender com ela a costura, os bordados e o croché. Escapava-me sempre, porque não me sentia com grande habilidade e não queria zangar-me com ela, sempre a corrigir qualquer veleidade em qualquer andança. A minha mana do meio sentava-se com ela no quartinho de costura e passavam horas naquilo de coser e fazer roupa e ainda hoje esta mantém essas inclinações manuais, que executa, se se dispuser a isso.
Penso na mulher da foto. Era aquela a vida que ela quis viver? Que mistérios guardarão os seus pensamentos? As suas memórias? Que pensará de nós? Guardará alguma boa lembrança? Ou continua a julgar-nos com rigor e altivez? Saberá que me lembro daquele dia de rigoroso Inverno em Lagoaça? Tinha eu nove anos, fui levar o almoço ao meu pai, que andava com uns amigos a cortar um castanheiro para lenha. A neve cobria os caminhos. Já a ida me custara imenso, parecera-me longe, muito longe. À vinda , o frio atrofiara-me o pensamento. Só queria chegar a casa. O caminho alongava-se, interminável. Já não sentia as mãos. Os pés moviam-se maquinalmente. Apetecia-me chorar. A porta de casa não se aproximava nem por nada. Quando a minha Mãe me abriu a porta, chorei que nem uma desalmada. A minha mãe levou-me para junto da lareira. Pegou numa fralda da minha irmã pequenina, aqueceu-a e colocou-a sobre as minhas mãos, repetidamente até que o sangue começou a afluir de novo àqueles dedos pequeninos. Isso aconteceu porque ela estava sempre lá.
Muitos anos mais tarde, era Verão e eu acabara de saber o resultado do último exame da Faculdade. Estávamos as duas com a minha irmã mais nova, à porta do Liceu Infanta D. Maria. A minha irmã chegou radiante do último exame do Liceu. Guardei esse momento de sol e comunhão. Será que ela o viveu como eu? Mas vivemo-lo juntas porque ela estava sempre lá.
Penso na mulher da foto. Olho para as mãos da minha Mãe, com os ossos todos torcidos. E lembro-me dela agarrada àquele tanque a lavar a roupa. De Verão e de Inverno.
Assalta-me uma sensação estranha, quando penso que ela bem nos poderia ter dito que gostava de nós. As pessoas precisam de ouvir as palavras. Se calhar , a ela também nunca ninguém lhe tinha falado dessa necessidade. Pensaria que só era importante ter a comida na mesa, a casa limpa e a roupa lavada.
Se calhar, bastou-nos que ela estivesse sempre lá, como ainda hoje, quando chegamos a casa. Se calhar…
Um dia , houve o acidente de comboio. Quebrou-se-lhe o brilho e a postura de princesa. Nunca mais foi a mesma. Mas essa época , já a vivi de longe, escapou-se-me entre as pregas da vida.
Tocamos à campainha e ela está sempre lá.
Penso na mulher da foto. Parece mentira, mas é a minha Mãe.
Que pensará de mim a minha filha , se eu chegar a ser velhinha?

3 comments:

soledade said...
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soledade said...

Cheguei aqui seguindo a pista que me deixou e não esperava a comoção que me tomou quando li esta entrada. Que sabemos nós do mundo íntimo dos que nos amaram de crianças, tão presentes que nos esquecemos de que. além de pai ou de mãe, foram pessoas com anseios, sonhos? Que estranhos nos são por vezes os mais próximos. A pensar na minha vida, eu que não tenho mãe desde os 9 anos, a pensar na minha minha mãe que nunca conheceu mãe.
Que o tempo seja generoso consigo, com a sua mãe e com a sua filha.

Menina_marota said...

Um nó apertou-me a garganta...
... que dirá a minha filha, também?

Um abraço carinhoso e grata por esta imensa partilha