Sunday, August 14, 2011

Praia

sou um vulto quieto
sentado numa cadeira
por dentro da moldura
da porta.
lá fora, a varanda alta
em baixo, o mar,
a linha ínfima do horizonte
em sol fogo.
a areia da praia
vai ficando só.
sou o vulto ensimesmado
não tiro os olhos
das ondas contínuas.
a luz de prata fere o olhar
a seguir desmaia e cai.
onde vai o barco à vela
que passa sem parar?
ficou a praia deserta
a noite vem sorrateira.
deixo o meu vulto
à varanda e desço.
pedimos a bebida do costume.
vamos brindar ao sol.

Sunday, June 12, 2011

Ruínas

No centro da cidade antiga,
o interior da casa quase em ruínas
foi escaqueirada à marretada.


A parede ainda de pé ao fundo
foi em tempos coberta de papel rosa;
o vento fustiga os recantos e as esquinas
deixadas agora as portas escancaradas
as janelas desassombradas, devassadas;
a imagem da jovem seminua , sofisticada
sorri, ali colada,  capa de calendário, 
no papel de parede cor-de-rosa.

Ninguém olha.

Nem os fantasmas que habitaram a casa
quiseram saber o que se vai passar a seguir.
Saíram sem olhar para trás e encafuaram-se
na casa ao lado, aquela onde as portas
dão para lado nenhum
e as janelas para um beco sem saída.



Friday, May 20, 2011

Instantâneos

Choveu.
O velho vai andando
cabeça baixa
mãos atrás das costas
olhando,
aqui e ali
pára,
veio beber
nas pétalas das rosas
o alívio da solidão,
se alguém lhe diz bom dia!
levanta os olhos, sorri,
leva as mão ao coração,
agradece o gesto
bem haja pela sua palavra!
como se o dia se enchesse de luz,
sabe, as pessoas já não falam como dantes,
andam num ritmo muito agitado,
por isso é gratificante a sua palavra.
Choveu.
Voltará a chover não tarda.
O velho encaminha-se para casa.
Leva as mãos atrás das costas
e um brilho nos olhos,
levanta a cabeça para o céu,
espiando as gotas de chuva.

Saturday, May 14, 2011

Suspiro

rosas e mais rosas

ouço os meus pensamentos  a falar sozinhos
depois de te deixar à varanda a dizer adeus

o céu vagueia azul buscando os tentilhões
escondidos entre as ramagens das árvores

para isso se encheram de folhas
para esconder os tentilhões;

os botões de rosa são rosas amanhã
depois de amanhã são pétalas desfolhadas

desfolham-se sobre a terra seca
esmorecidas de calor extemporâneo.

Saturday, April 16, 2011

Primavera, primavera

muitas flores

um par de namorados sentados à sombra,
nesta primavera as árvores enlouqueceram de flores...

Tuesday, March 29, 2011

Coisas da vida

gotas e flores

ontem ficaste a olhar a lua
enleado nos céus escuros,
sem saber a lucidez das coisas.

esta manhã choveu:
as flores prenderam cada gota
para lhe sugar o sangue
soltaram-na e dela escorreram
os reflexos do céu.

Monday, March 14, 2011

A primavera... talvez

cai uma chuvinha tonta
a primavera grita sob o céu ainda cinzento
a tristeza dói até à medula

caminho no chão enlameado
para onde fugiram os pássaros, que ninguém os ouve
voa de ramo em ramo um corvo
sobrevoam o lago umas andorinhas de penas negras
as gotas escorrem nos caules das árvores adormecidas

um sobressalto de primavera
numa volta do caminho

no vaso esquecido ao canto da varanda
desabrocha a medo um botão pequenino.

Friday, February 18, 2011

Gotas

espreito por entre o ar frio
a primavera

espio
os gomos nos galhos

são gotas de chuva.

Saturday, January 29, 2011

Neve

o ar macio
o pássaro negro de gravata vermelha
ancorado num ramo da árvore esquálida
o céu pálido
a neblina encaracolando-se no cume da serra
desce a neve
na quietude do cinzento.

Tuesday, January 11, 2011

sonho




deste-me uns lençóis às flores,
quando eu não tinha chão;
prendeste-me nos braços,
quando eu caí à procura de uma estrela;
lançaste um papagaio de papel para eu ver o céu...

Wednesday, January 05, 2011

Nevoeiro

 no caminho, seguem-me os meus próprios passos
as gotículas do nevoeiro trespassam-me os sonhos complexos
a chuva entranha-se nos meandros oníricos das manhãs...

Wednesday, December 22, 2010

Saturday, December 11, 2010

Carta

li o meu espírito
nas palavras
da tua carta.

Monday, November 15, 2010

Sonhos


Nem sei se acordei

vi-me no meio de um nevoeiro intenso

procurava procurava-me procurava-te

e não me encontrava não te encontrava

prisioneira dentro de mim

gritava

participei na fuga escapei

nas garras do nevoeiro

um cheiro tardio a incenso

não se vê nada ninguém acende a luz

na tarde precocemente noctívaga

a noite engoliu os sonhos

tão cedo...

Sunday, October 31, 2010

Árvores no outono


uma árvore

as folhas verde-acastanhadas amarelaram num ápice

começaram a cair pouco a pouco apoucaram nos ramos

quedaram meia dúzia a naufragar agarradas aos troncos mais finos

chegou na escuridão um safanão de espíritos e ventos embruxados
e arrancou desapiedado as folhas sobrantes agonizantes no chão
um arrepio correu a noite num brado de mistérios acesos
à volta de uma fogueira na clareira escondida entre as sombras dançantes
bruxuleantes de sons fantasmagóricos e músicas esquecidas nas pedras
a árvore ergueu os braços despidos num delírio obscuro do princípio da terra...

Monday, October 18, 2010

sol de outono


o sol amacia a brisa fresca no outono temperado


a sombra é triste


as amoras encarquilhadas morrem nos ramos


o sol amacia a alma


as folhas amarelas tremeluzem e rebrilham


algumas folhas soltas fogem pela rua fora


o sol amacia as palavras...

Thursday, September 30, 2010

Folhas caídas

o homem vagueava pela cidade


arengando embriaguez e loucura


em gestos e palavras absurdas;


caiu sem vida e sem idade


atravessando a serra crua


com as primeiras folhas do outono.



Thursday, September 23, 2010

Amoras


as amoras maduras à beira do caminho
entraram bem negras e doces pelo outono dentro

ninguém as colheu ninguém as comeu
agora nestas horas ninguém come amoras
esquecidas maduras e doces à beira do caminho

as amoras pertencem a outros lugares de outras infâncias,
já não são daqui.

Sunday, September 12, 2010

Caminhos


mais vale assim

guardar nos braços

entre os abraços


o momento das rosas

o perfume do jasmim

sob as ramadas prenhes de uvas

e o perfume da terra sob a chuva

e adiar o tempo

do sofrimento

envenenado do aloendro branco

mais vale assim...