Saturday, December 11, 2010

Carta

li o meu espírito
nas palavras
da tua carta.

Monday, November 15, 2010

Sonhos


Nem sei se acordei

vi-me no meio de um nevoeiro intenso

procurava procurava-me procurava-te

e não me encontrava não te encontrava

prisioneira dentro de mim

gritava

participei na fuga escapei

nas garras do nevoeiro

um cheiro tardio a incenso

não se vê nada ninguém acende a luz

na tarde precocemente noctívaga

a noite engoliu os sonhos

tão cedo...

Sunday, October 31, 2010

Árvores no outono


uma árvore

as folhas verde-acastanhadas amarelaram num ápice

começaram a cair pouco a pouco apoucaram nos ramos

quedaram meia dúzia a naufragar agarradas aos troncos mais finos

chegou na escuridão um safanão de espíritos e ventos embruxados
e arrancou desapiedado as folhas sobrantes agonizantes no chão
um arrepio correu a noite num brado de mistérios acesos
à volta de uma fogueira na clareira escondida entre as sombras dançantes
bruxuleantes de sons fantasmagóricos e músicas esquecidas nas pedras
a árvore ergueu os braços despidos num delírio obscuro do princípio da terra...

Monday, October 18, 2010

sol de outono


o sol amacia a brisa fresca no outono temperado


a sombra é triste


as amoras encarquilhadas morrem nos ramos


o sol amacia a alma


as folhas amarelas tremeluzem e rebrilham


algumas folhas soltas fogem pela rua fora


o sol amacia as palavras...

Thursday, September 30, 2010

Folhas caídas

o homem vagueava pela cidade


arengando embriaguez e loucura


em gestos e palavras absurdas;


caiu sem vida e sem idade


atravessando a serra crua


com as primeiras folhas do outono.



Thursday, September 23, 2010

Amoras


as amoras maduras à beira do caminho
entraram bem negras e doces pelo outono dentro

ninguém as colheu ninguém as comeu
agora nestas horas ninguém come amoras
esquecidas maduras e doces à beira do caminho

as amoras pertencem a outros lugares de outras infâncias,
já não são daqui.

Sunday, September 12, 2010

Caminhos


mais vale assim

guardar nos braços

entre os abraços


o momento das rosas

o perfume do jasmim

sob as ramadas prenhes de uvas

e o perfume da terra sob a chuva

e adiar o tempo

do sofrimento

envenenado do aloendro branco

mais vale assim...

Saturday, August 21, 2010

Praia Azul












Quatro varandas viradas para o mar
um guarda-sol azul no extenso areal
e azul rendilhado de branco ainda o mar
azul a praia onde se escreve a rimar
uma toalha estendida ao sol só uma de manhãzinha
os passos marcados na areia limpa e fria
e os abraços saborosos a cheirar a maresia
sem quê nem porquê entre conversas e risadas
e a espuma branca estendida na areia brilhante de sol e luz
recortado de branco na falésia o bar a varandinha
cheiinho de pôr-do-sol e a saudade a saudade do mar
e do verão e da areia por ali sempre a pairar
como as gaivotas frente às janelas a voar
contra o vento devagar...

Friday, August 20, 2010

Templos do séc. XXI - exposição em Barcelona

Próximo sábado, 21 de Agosto, em exposição "Templos do século XXI" com uma das minhas fotos.

A exibição está patente ao público no espaço de arte "The Changito" em Barcelona das 17 às 21 h

Ler mais: http://maniadasfotos.blogspot.com/#ixzz0x9IuHuv9
Under Creative Commons License: Attribution

Saturday, July 31, 2010

GUARDA a cidade mais alta portugal


na bubok.pt veja o meu livro em destaque
https://www.bubok.pt/tienda/ofertas

e a minha página http://alexapinto.bubok.pt/

Boas Férias...

eu vou ali ... e volto daqui a nada

Thursday, July 08, 2010

Tarde de Verão

anda o homem no tractor a virar o feno
no final da tarde escaldante
nem um fio de vento
suaviza o ar quente
---
os pássaros inquietos esvoaçam
de lado para lado num chilrear infantil
as árvores quietas as folhas paradas-
---
as flores das amoreiras-silvestres
espraiam-se à sombra rosadas discretas
- outro dia colheremos amoras -
e o perfume das tílias dança pelos caminhos
---
a mulher grávida caminha à beira do lago
as rosas perfeitas sorveram o orvalho
de manhãzinha e suspiram pela noite...

Wednesday, June 30, 2010

Momentos


Do meio do feno cortado


escapuliu-se uma cobra


para a estrada onde sobra


metade do réptil estatelado,




trespassou-me um arrepio


vindo da memória do princípio


sem fim dos tempos bíblicos


pagãos, supersticiosos e míticos.


Saturday, June 26, 2010

Tarde de Verão


uma revista aberta abandonada

caída no chão,

na mesa pequena quadrada

um livro fechado

a página marcada

com um lápis afiado,

entra em casa o sol enleado

em nuvens de trovoada.

Wednesday, June 09, 2010

Sob a chuva


chuva no parque

o parque só para mim

os pássaros em voo rasante sobre o lago

reflectem-se na água

enlouqueço a correr em semi-círculos

de braços abertos

e guarda-chuva no ar

caminho nas poças sem a minha mãe protestar

as rãs saltam

a chocalhar no ribeiro

passa o vento suavemente

das folhas caem gotas

flores e folhas inclinadas em reverência

o rosmaninho as giestas as papoilas

as cores vivas das gotas

regresso leve sob a chuva

o coração enfeitado de rosas

e o cabelo molhado.

Tuesday, June 08, 2010

Jarmelo


no cimo o burburinho as barracas na feira as vacas jarmeleiras no último reduto


os rostos tisnados contam a rudeza do trabalho e a dureza do sol a sol


a casa de granito a capela


a terra em tempos arrasada de sal


a tragédia de Inês e Pedro


plasmada a ferro


no monte do Jarmelo.


Wednesday, May 26, 2010

Paz

talvez seja isto a paz!

estes momentos:


o vento vagaroso


empurrando


as nuvens cinzentas,


a chuva caindo cantando


sobre folhas, trevos,


rosmaninhos e rosas,


as almas dos poetas


pairam sobre a terra.

Monday, May 24, 2010

tardes de maio


tardes de maio
com sabor a trigo verde
ondulante
ao vento.




tardes de maio


com sabor a mar


a barca entra na vaga


um abraço de amantes...




Wednesday, May 12, 2010

Pesadelos


Cortem-me estas amarras

que me pesam

me prendem

a pesadelos e demónios

a vaguear na escuridão

das noites negras:

nem as cigarras

posso ouvir

nem sei colher

o pequeno malmequer

do outro lado

do arame farpado
com este aperto

no peito que me tolhe;

enquanto caminho

a destropeçar de pedra

em pedra,

sinto uns passos,

volto-me de repente,

vejo-me sombra

da minha sombra,

um restolhar de folhas

mais nada nem ninguém...

Monday, May 03, 2010

Milagre


Chego de manhã

à varanda

espreito a terra

a planta a rasgar

o torrão escuro

sobe devagarzinho

em direcção ao céu

ao sol às estrelas

cada dia cresce

mais um bocadinho

agora desvenda

a cor da flor

mantém-se ainda

escondida num véu

amanhã talvez

talvez o milagre

e a flor rasga

lentamente

o fino tecido

sai uma pétala

do invólucro

como uma pena

de pintainho amarelo

como uma asa

de borboleta

amanhã talvez...

à noite voltei atrás

antes de me ir deitar

fui espiar

a flor à varanda:

às escondidas

nas hastes compridas

surgira

esbelta e vaidosa

uma flor esplendorosa

sob as estrelas...

abro o coração

recolho o milagre

e a voz da cotovia

e, com a alegria

na alma, sonho!