acende a lareira
aquece-me o coração de chuva
o comboio partiu dentro do horário
não sei em que dia de tempestade
esqueci-me de virar a folha do calendário
perdi o relógio, a hora, a sanidade
fiquei a arder nesta fogueira
de chama e sombra escura...
escrevo sem paragem
o tempo voltou atrás sem pressa nem vagar
anda desorientado em cartas dispersas de amor
nem sei se fui eu que as escrevi
de tanto tempo fugido e esquecido
aquela mulher não era eu na voragem
da paixão e da ausência num patamar
de outras vidas sem flores e sem cor
nem eras tu devo ter sonhado ou descrevi
esse ser e não ser sem nenhum sentido
só para constar de um romance desvairado
que não pode ter existido.
essas folhas de papel quadriculado
não fui eu que as escrevi
a caligrafia não é minha
nem é minha a vida dessas cartas
são papéis de um armário desarrumado
que encontrei em tempos e onde vi
a confusão romântica de gratas
memórias que a distância vai
embelezando ou destruindo
até ao esquecimento.
a chuva, não te esqueças da chuva
e acende a lareira
nem te esqueças dos papéis
lá no fundo do armário
vira a folha do calendário
e acende a lareira
trago o coração de chuva
muito frio
acende a lareira
o comboio já partiu
ficámos os dois com as velhas cartas nas mãos
lê essas cartas não são tuas nem minhas
são um romance antigo dos nossos avós
não te prendas
podes ficar preso nas malhas das palavras
e, se não voltas, fico para sempre à tua espera
à espera que acendas
outra vez este fogo
em dia de chuva...
ouves a música?
é a chuva ou o teu coração?
o meu não é, há muito que não sei dele!
acende a lareira...
Sunday, February 21, 2010
Thursday, February 18, 2010
Barcelona
esta manhã
não descemos o carrer de radas
para ir à Calábria tomar um cortado
e comer uma ensaimada
contigo.
não te acompanhámos
no metro da linha verde
até à esquina de frame 25,
nem voltámos
sobre os nossos passos
nem subimos a encosta do parque Güell
assoberbadas pelo trabalho fantasioso
do arquitecto Gaudí,
nem desconstruímos com Picasso
os retratos
e os quadros
as pombas e as flores
numa bebedeira de azul rosa e absinto,
nem sequer nos abrigámos da chuva
na pastelaria ao canto do palácio do rei,
nem passámos na boquería
onde se almoça a filosofar
entre cheiros e cores.
não esperámos por ti
para comer os pintxos
ou beber un cava rosado.
esta manhã foste sozinha no metro da linha verde...
nós abrimos a casa da misericórdia
de Margarit
página trinta e nove
e lemos el vendedor de rosas
solitario y furtivo , con su ramo,
va a locales ncturnos en busca de parejas.
guardámos na agenda os bilhetes de metro
e dos museus
metemos as fotos nos álbuns digitais
e voltámos à rotina da nossa (in)segurança.
não me esqueci outra vez da máquina fotográfica
para te deixar à entrada da porta
um beijo rápido e muitos risos.
esta manhã
não descemos a rua
para ir tomar um café
e beber um sumo de laranja
contigo...
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Sunday, January 31, 2010
Sol de Inverno
não fui à missa das onze
nem a outra qualquer
recolhi-me no meu santuário
imaginário
e rezei ou nem sequer
isso, não é rezar
andar
pelo jardim
olhar
assim
espantada
cada árvore estilizada
sem folhas sem nada
só os galhos secos mirrados
aprumados
num céu de sol
azul de inverno.
onde se recolherão os pássaros
em árvores assim pasmadas?
Sunday, January 24, 2010
Baloiço
a miúda ri ao ritmo do baloiço
para cá e para lá
houve um baloiço à beira-mar
num tempo de verão e éramos pequenas
tão pequenas que quase me esqueci
dávamos-lhe balanço com força
esticávamos as pernas os pés
atirávamos a cabeça
e os ombros para trás
e baloiça que baloiça
o baloiço subia no ar
cada vez mais alto
dávamos-lhe balanço
parecia voar
os risos erguiam-se nas gargantas
batiam-se palmas
dávamos-lhe balanço
sem descanso
pernas esticadas
cabeça para trás
e muitos risos
subíamos alto
mais alto
do outro lado da barra
víamos o mar.
o pai empurra o baloiço
da miúda dá-lhe balanço
talvez um dia procure
sozinha alcançar lá do alto
o mar...
Sunday, January 17, 2010
Lar, doce lar
velhas e velhos
numa casa
arrumados
em frente
à televisão
chamam-lhes lares
a essas casas
onde as velhas e os velhos
inquinado o tempo
numa volta da vida
se arrumam
encurralados
à espera de vez
há uma lista
de nomes escritos
nuns papéis amarrotados
na (des)esperança de ocupar
o lugar
do passageiro que partir
primeiro
é uma sala de espera
onde aguardam
muito arrumados
a chamada
para o último comboio.
Wednesday, January 13, 2010
Caminhos
Saturday, January 02, 2010
Douro
choravam as lajes de xisto,
tristejavam cinzento as videiras
ajoujadas nas terras
roubadas à pedra,
o douro desatinava
em sangue de barro
entre as penedias,
verdes, as oliveiras
orlavam os socalcos,
a água descia nas levadas,
escorria dos montes
numa invernia sem nome,
um copo de vinho
sobre a toalha branca de linho
descobria sabores antigos
arrancados à profundeza
da história dos homens.
tristejavam cinzento as videiras
ajoujadas nas terras
roubadas à pedra,
o douro desatinava
em sangue de barro
entre as penedias,
verdes, as oliveiras
orlavam os socalcos,
a água descia nas levadas,
escorria dos montes
numa invernia sem nome,
um copo de vinho
sobre a toalha branca de linho
descobria sabores antigos
arrancados à profundeza
da história dos homens.
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da quinta do pégo,
Douro,
inverno
Saturday, December 19, 2009
Tuesday, December 15, 2009
Graus... negativos
o sol finge conforto
no frio marcado a branco
geométrico
na sombra do banco
de madeira,
em todas as sombras.
no frio marcado a branco
geométrico
na sombra do banco
de madeira,
em todas as sombras.
Thursday, December 10, 2009
Wednesday, December 09, 2009
Duplicado
a luz fugidia
filtrada
pelas nuvens cinzentas
da manhã serena
suaviza
o ar parado,
nem um sussurro
da folhagem;
o canto dos pássaros
sossegado enternece,
a realidade revela-se no lago,
em duplicado,
o comboio partiu
sem ruído,
vazio,
ninguém procura
outros sóis, outra paragem;
o alecrim floresce
no canteiro selvagem.
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manhã,
outono,
Parque Rio Diz Guarda,
serenidade
Saturday, December 05, 2009
Dia de chuva
a noite chegou a meio da tarde
trouxe o nevoeiro do cimo da serra
e cobriu de frio a face da terra
o lago, o rio, o mar, a árvore...
amanhã choverá o dia inteiro
a clarear a alma angustiada,
descerá a prece da madrugada
e a água vai engolir o nevoeiro...
como quem chora sem saber porquê!
trouxe o nevoeiro do cimo da serra
e cobriu de frio a face da terra
o lago, o rio, o mar, a árvore...
amanhã choverá o dia inteiro
a clarear a alma angustiada,
descerá a prece da madrugada
e a água vai engolir o nevoeiro...
como quem chora sem saber porquê!
Monday, November 30, 2009
Frio
Thursday, November 19, 2009
Muro
Tuesday, November 17, 2009
Depois da tempestade
depois da tempestade
escorre subterrânea a água,
a terra respira saciedade,
os pássaros voam em bandos
eufóricos da bonança,
as pedras magoadas
de granito cinzento,
o lago quieto hoje
espelha árvores
ao contrário.
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bonança,
Parque Rio Diz Guarda,
tempestade
Friday, November 13, 2009
Pesadelo
Contorciam-se enroscadas umas nas outras
as cobras.
Acordei: estava presa num qualquer lugar esquecido,
as portas não abriam,
gritava por ti sem voz
e não ouviste o meu pensamento.
Acordei: chovia e o céu cinzento oprimia a terra,
que não respirava nem gerava flores.
Acordei: quatro caminhos e eu sem saber o destino.
O comboio nem sequer partiu para lado nenhum.
Quero adormecer e acordar nos teus braços.
Monday, November 09, 2009
Contra a corrente
Wednesday, November 04, 2009
Viagem
andavam empurrados
por fortes ventanias
de terra em terra;
de quando em quando,
em momentos de acalmias,
ainda lhes tremiam
as pernas de lutar
contra os vento desorientados,
encontravam um lugar
momentâneo e abrigado
dos ares furiosos e das neves;
sabiam que não era para sempre,
amarravam as árvores ao chão
para não voarem à procura
de uma nesga de céu, quando
se adivinhava vendaval;
não sentiam compreensão
naquela viagem sem destino,
sem levar objectos nem amigos,
não havia tempo de os guardar,
eram para eles um sonho fugaz;
um dia, cada um, por cansaço
ou escolha, encontraram a paz
num canto e sentem prazer
em ficar mais e mais,
embora a alma de nómadas
de antigamente continue inquieta;
então, fogem através das montanhas
sem pensar, sem ventos nem tempestades,
e procuram o mar; depois, regressam,
não sabem se é para ficar.
por fortes ventanias
de terra em terra;
de quando em quando,
em momentos de acalmias,
ainda lhes tremiam
as pernas de lutar
contra os vento desorientados,
encontravam um lugar
momentâneo e abrigado
dos ares furiosos e das neves;
sabiam que não era para sempre,
amarravam as árvores ao chão
para não voarem à procura
de uma nesga de céu, quando
se adivinhava vendaval;
não sentiam compreensão
naquela viagem sem destino,
sem levar objectos nem amigos,
não havia tempo de os guardar,
eram para eles um sonho fugaz;
um dia, cada um, por cansaço
ou escolha, encontraram a paz
num canto e sentem prazer
em ficar mais e mais,
embora a alma de nómadas
de antigamente continue inquieta;
então, fogem através das montanhas
sem pensar, sem ventos nem tempestades,
e procuram o mar; depois, regressam,
não sabem se é para ficar.
Sunday, November 01, 2009
Sonho
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