Sunday, January 24, 2010

Baloiço


a miúda ri ao ritmo do baloiço
para cá e para lá

houve um baloiço à beira-mar
num tempo de verão e éramos pequenas
tão pequenas que quase me esqueci
dávamos-lhe balanço com força
esticávamos as pernas os pés
atirávamos a cabeça
e os ombros para trás
e baloiça que baloiça
o baloiço subia no ar
cada vez mais alto
dávamos-lhe balanço
parecia voar
os risos erguiam-se nas gargantas
batiam-se palmas
dávamos-lhe balanço
sem descanso
pernas esticadas
cabeça para trás
e muitos risos
subíamos alto
mais alto
do outro lado da barra
víamos o mar.

o pai empurra o baloiço
da miúda dá-lhe balanço
talvez um dia procure
sozinha alcançar lá do alto
o mar...

Sunday, January 17, 2010

Lar, doce lar


velhas e velhos
numa casa
arrumados
em frente
à televisão

chamam-lhes lares
a essas casas
onde as velhas e os velhos
inquinado o tempo
numa volta da vida
se arrumam
encurralados
à espera de vez

há uma lista
de nomes escritos
nuns papéis amarrotados
na (des)esperança de ocupar
o lugar
do passageiro que partir
primeiro

é uma sala de espera
onde aguardam
muito arrumados
a chamada
para o último comboio.

Wednesday, January 13, 2010

Caminhos



Caminho.
Desenrolo pensamentos.
O nevoeiro esconde-me.
Tu sais de casa para me encontrar.
Segues os meus passos.
Encontras-me.

Não trago relógio.
Guio-me pela chegada
e partida dos comboios.

Ou quando chegas
ou quando não vens.

Desenrolo pensamentos.
Caminho.

Saturday, January 02, 2010

Douro


choravam as lajes de xisto,
tristejavam cinzento as videiras
ajoujadas nas terras
roubadas à pedra,
o douro desatinava
em sangue de barro
entre as penedias,
verdes, as oliveiras
orlavam os socalcos,
a água descia nas levadas,
escorria dos montes
numa invernia sem nome,
um copo de vinho
sobre a toalha branca de linho
descobria sabores antigos
arrancados à profundeza
da história dos homens.

Saturday, December 19, 2009

Prenúncio de neve



sumiu-se
o canto dos pássaros
no estridente assobio
de vento gelado...

Tuesday, December 15, 2009

carta

o homem envia uma carta
que não escreveu,
não aprendeu
a ler.

Graus... negativos

o sol finge conforto
no frio marcado a branco
geométrico
na sombra do banco
de madeira,
em todas as sombras.

Thursday, December 10, 2009

Manhã simples de Outono



o céu riscado

de branco-giz

o velho sentado

ao sol de outono

no banco de pedra

rabisca na aragem

morna e quieta

versos sem rima

de tempo ou sonho

que imagina

tranquilo e feliz…

Wednesday, December 09, 2009

Duplicado


a luz fugidia
filtrada
pelas nuvens cinzentas
da manhã serena
suaviza
o ar parado,
nem um sussurro
da folhagem;
o canto dos pássaros
sossegado enternece,
a realidade revela-se no lago,
em duplicado,
o comboio partiu
sem ruído,
vazio,
ninguém procura
outros sóis, outra paragem;
o alecrim floresce
no canteiro selvagem.

Saturday, December 05, 2009

Dia de chuva

a noite chegou a meio da tarde
trouxe o nevoeiro do cimo da serra
e cobriu de frio a face da terra
o lago, o rio, o mar, a árvore...
amanhã choverá o dia inteiro
a clarear a alma angustiada,
descerá a prece da madrugada
e a água vai engolir o nevoeiro...
como quem chora sem saber porquê!

Monday, November 30, 2009

Frio


o frio arde sobre as águas do lago

a conversa flui à lareira

o vento corre desatinado

como se procurasse eira ou beira

onde se abrigar da aragem da serra

a noite cai escura; tu chegas e apenas

entardece nas palavras certas.

Thursday, November 19, 2009

Muro


Sigo o meu caminho habitual,
encontro o sentido proibido
prantado no meio da rua.

Ignoro o sinal?
escolho outra estrada
sem escolhos à vista?

Encolho os ombros
de cinismo puro?

Volto atrás
a ganhar alento?

Salto o muro.
Ponto.

Perguntam: qual muro?
Um muro. Invisível.
Mas estava lá.

E os pássaros?
Sei lá!
Voaram.

Tuesday, November 17, 2009

Depois da tempestade




depois da tempestade
escorre subterrânea a água,
a terra respira saciedade,
os pássaros voam em bandos
eufóricos da bonança,
as pedras magoadas
de granito cinzento,
o lago quieto hoje
espelha árvores
ao contrário.

Friday, November 13, 2009

Pesadelo


Contorciam-se enroscadas umas nas outras
as cobras.

Acordei: estava presa num qualquer lugar esquecido,
as portas não abriam,
gritava por ti sem voz
e não ouviste o meu pensamento.

Acordei: chovia e o céu cinzento oprimia a terra,
que não respirava nem gerava flores.


Acordei: quatro caminhos e eu sem saber o destino.
O comboio nem sequer partiu para lado nenhum.

Quero adormecer e acordar nos teus braços.

Monday, November 09, 2009

Contra a corrente


vou contra a corrente
desço ao fundo da memória

a resgatar vestígios da minha história.


cruza um pássaro a voar

diante do meus olhos.


ainda não chove,
as aves pressentem a chuva

no perfume do vento.

Wednesday, November 04, 2009

Viagem

andavam empurrados
por fortes ventanias
de terra em terra;
de quando em quando,
em momentos de acalmias,
ainda lhes tremiam
as pernas de lutar
contra os vento desorientados,
encontravam um lugar
momentâneo e abrigado
dos ares furiosos e das neves;
sabiam que não era para sempre,
amarravam as árvores ao chão
para não voarem à procura
de uma nesga de céu, quando
se adivinhava vendaval;
não sentiam compreensão
naquela viagem sem destino,
sem levar objectos nem amigos,
não havia tempo de os guardar,
eram para eles um sonho fugaz;
um dia, cada um, por cansaço
ou escolha, encontraram a paz
num canto e sentem prazer
em ficar mais e mais,
embora a alma de nómadas
de antigamente continue inquieta;
então, fogem através das montanhas
sem pensar, sem ventos nem tempestades,
e procuram o mar; depois, regressam,
não sabem se é para ficar.

Sunday, November 01, 2009

Sonho


caiu uma chave
ao fundo do poço.

um véu de folhas
amarelas desceu
e cobriu a entrada.

nunca mais ninguém
encontrou a chave.

Wednesday, October 21, 2009

Cinzento-luz

está uma linda manhã cinzento-luz
( a luz brilhou na tua voz alegre
logo cedo do outro lado
sem o torrencial da água!) ,
o pássaro esconde-que-aparece
entre as gotas no silvado,
a chuva cai mansamente
tão mansamente a cantar
baixinho que nem o silêncio
mexe no verde-árvore
dos salgueiros junto ao lago.


Monday, October 19, 2009

Outubro


a luz fresca da manhã azul-miragem
a aragem de franzir o estômago
o prenúncio do aferrolhar o corpo
em outra roupagem,

uma esplanada no âmago
da cidade quieta em sopro
de vida translúcida e amarga,

só apetece entrar no comboio e partir.
Lá para onde o horizonte abrir
em liberdade ilimitada.

Tuesday, October 13, 2009

Pássaros


trago no olhar o canto dos pássaros
e nos cabelos um fio de brisa fresca
volto tão leve que me apetece voar
(quem sabe se não voei?)...