Saturday, January 02, 2010

Douro


choravam as lajes de xisto,
tristejavam cinzento as videiras
ajoujadas nas terras
roubadas à pedra,
o douro desatinava
em sangue de barro
entre as penedias,
verdes, as oliveiras
orlavam os socalcos,
a água descia nas levadas,
escorria dos montes
numa invernia sem nome,
um copo de vinho
sobre a toalha branca de linho
descobria sabores antigos
arrancados à profundeza
da história dos homens.

Saturday, December 19, 2009

Prenúncio de neve



sumiu-se
o canto dos pássaros
no estridente assobio
de vento gelado...

Tuesday, December 15, 2009

carta

o homem envia uma carta
que não escreveu,
não aprendeu
a ler.

Graus... negativos

o sol finge conforto
no frio marcado a branco
geométrico
na sombra do banco
de madeira,
em todas as sombras.

Thursday, December 10, 2009

Manhã simples de Outono



o céu riscado

de branco-giz

o velho sentado

ao sol de outono

no banco de pedra

rabisca na aragem

morna e quieta

versos sem rima

de tempo ou sonho

que imagina

tranquilo e feliz…

Wednesday, December 09, 2009

Duplicado


a luz fugidia
filtrada
pelas nuvens cinzentas
da manhã serena
suaviza
o ar parado,
nem um sussurro
da folhagem;
o canto dos pássaros
sossegado enternece,
a realidade revela-se no lago,
em duplicado,
o comboio partiu
sem ruído,
vazio,
ninguém procura
outros sóis, outra paragem;
o alecrim floresce
no canteiro selvagem.

Saturday, December 05, 2009

Dia de chuva

a noite chegou a meio da tarde
trouxe o nevoeiro do cimo da serra
e cobriu de frio a face da terra
o lago, o rio, o mar, a árvore...
amanhã choverá o dia inteiro
a clarear a alma angustiada,
descerá a prece da madrugada
e a água vai engolir o nevoeiro...
como quem chora sem saber porquê!

Monday, November 30, 2009

Frio


o frio arde sobre as águas do lago

a conversa flui à lareira

o vento corre desatinado

como se procurasse eira ou beira

onde se abrigar da aragem da serra

a noite cai escura; tu chegas e apenas

entardece nas palavras certas.

Thursday, November 19, 2009

Muro


Sigo o meu caminho habitual,
encontro o sentido proibido
prantado no meio da rua.

Ignoro o sinal?
escolho outra estrada
sem escolhos à vista?

Encolho os ombros
de cinismo puro?

Volto atrás
a ganhar alento?

Salto o muro.
Ponto.

Perguntam: qual muro?
Um muro. Invisível.
Mas estava lá.

E os pássaros?
Sei lá!
Voaram.

Tuesday, November 17, 2009

Depois da tempestade




depois da tempestade
escorre subterrânea a água,
a terra respira saciedade,
os pássaros voam em bandos
eufóricos da bonança,
as pedras magoadas
de granito cinzento,
o lago quieto hoje
espelha árvores
ao contrário.

Friday, November 13, 2009

Pesadelo


Contorciam-se enroscadas umas nas outras
as cobras.

Acordei: estava presa num qualquer lugar esquecido,
as portas não abriam,
gritava por ti sem voz
e não ouviste o meu pensamento.

Acordei: chovia e o céu cinzento oprimia a terra,
que não respirava nem gerava flores.


Acordei: quatro caminhos e eu sem saber o destino.
O comboio nem sequer partiu para lado nenhum.

Quero adormecer e acordar nos teus braços.

Monday, November 09, 2009

Contra a corrente


vou contra a corrente
desço ao fundo da memória

a resgatar vestígios da minha história.


cruza um pássaro a voar

diante do meus olhos.


ainda não chove,
as aves pressentem a chuva

no perfume do vento.

Wednesday, November 04, 2009

Viagem

andavam empurrados
por fortes ventanias
de terra em terra;
de quando em quando,
em momentos de acalmias,
ainda lhes tremiam
as pernas de lutar
contra os vento desorientados,
encontravam um lugar
momentâneo e abrigado
dos ares furiosos e das neves;
sabiam que não era para sempre,
amarravam as árvores ao chão
para não voarem à procura
de uma nesga de céu, quando
se adivinhava vendaval;
não sentiam compreensão
naquela viagem sem destino,
sem levar objectos nem amigos,
não havia tempo de os guardar,
eram para eles um sonho fugaz;
um dia, cada um, por cansaço
ou escolha, encontraram a paz
num canto e sentem prazer
em ficar mais e mais,
embora a alma de nómadas
de antigamente continue inquieta;
então, fogem através das montanhas
sem pensar, sem ventos nem tempestades,
e procuram o mar; depois, regressam,
não sabem se é para ficar.

Sunday, November 01, 2009

Sonho


caiu uma chave
ao fundo do poço.

um véu de folhas
amarelas desceu
e cobriu a entrada.

nunca mais ninguém
encontrou a chave.

Wednesday, October 21, 2009

Cinzento-luz

está uma linda manhã cinzento-luz
( a luz brilhou na tua voz alegre
logo cedo do outro lado
sem o torrencial da água!) ,
o pássaro esconde-que-aparece
entre as gotas no silvado,
a chuva cai mansamente
tão mansamente a cantar
baixinho que nem o silêncio
mexe no verde-árvore
dos salgueiros junto ao lago.


Monday, October 19, 2009

Outubro


a luz fresca da manhã azul-miragem
a aragem de franzir o estômago
o prenúncio do aferrolhar o corpo
em outra roupagem,

uma esplanada no âmago
da cidade quieta em sopro
de vida translúcida e amarga,

só apetece entrar no comboio e partir.
Lá para onde o horizonte abrir
em liberdade ilimitada.

Tuesday, October 13, 2009

Pássaros


trago no olhar o canto dos pássaros
e nos cabelos um fio de brisa fresca
volto tão leve que me apetece voar
(quem sabe se não voei?)...

Wednesday, October 07, 2009

Depois da tempestade


depois da tempestade nocturna

não me conformo nesta prisão sem grades;

se não decido partir, como vou conhecer

os cinzentos indecisos espalhados pelos céus,

como vou saber as árvores desfalecendo

em gotas e folhas e o ribeiro descendo

envolto em lama e espuma,

e como vou seguir o vento alvoroçado

sem bússola nem norte

ou os pássaros estonteados de água,

como posso encontrar o caminho?

quero ler o espanto das gentes,

quando eu atravessar o temporal.

vou partir, livre como um verso,

serei árvore e seiva

sem criar raízes num lugar só.

Outono



Esfuma-se em brumas avalónicas a cinzentura do dia,

descolam-se as gotas das nuvens

e poisam a embalar a vermelhidão de folhas,

cânticos desfeitos em águas cristalinas

ecoam na montanha invisível,

deslizam pelas pedras endurecidas,

nem fio de vento passa entre as divindades

ocultas de rochedos e águas.

Saturday, October 03, 2009

Outono



o outono vai escorrendo verão pelas horas de sol
traz à solta uma brisa de crianças e pássaros
finge pinturas nas folhas amarelo-avermelhadas
e bonançosas crescem as rosas lá onde os botões
pequenos coloridos riem de primaveras passadas!