caiu uma chave
ao fundo do poço.
um véu de folhas
amarelas desceu
e cobriu a entrada.
nunca mais ninguém
encontrou a chave.
depois da tempestade nocturna
não me conformo nesta prisão sem grades;
se não decido partir, como vou conhecer
os cinzentos indecisos espalhados pelos céus,
como vou saber as árvores desfalecendo
em gotas e folhas e o ribeiro descendo
envolto em lama e espuma,
e como vou seguir o vento alvoroçado
sem bússola nem norte
ou os pássaros estonteados de água,
como posso encontrar o caminho?
quero ler o espanto das gentes,
quando eu atravessar o temporal.
vou partir, livre como um verso,
serei árvore e seiva
sem criar raízes num lugar só.
Esfuma-se em brumas avalónicas a cinzentura do dia,
descolam-se as gotas das nuvens
e poisam a embalar a vermelhidão de folhas,
cânticos desfeitos em águas cristalinas
ecoam na montanha invisível,
deslizam pelas pedras endurecidas,
nem fio de vento passa entre as divindades
ocultas de rochedos e águas.
o som do sino
um longínquo sinal
chega de uma igreja
que não sei
ouço os pássaros
não os vejo
apenas os entre-sonho
nos ramos gotejados
da chuva matinal.
o homem de chapéu
na cabeça quedou
sentado inclinado
no banco de pedra
leva as mãos ao rosto
(cansado do caminho que fez
ou do que tem para andar?);
páro o olhar nas gotas
caídas pelas folhas
e flores, olho outra vez
e o homem já abandonou
o momentâneo lugar
de paragem.
à passagem,
meto na boca duas
amoras maduras;
sento-me no chão lento
de palha amarela,
não quero espantar
o pássaro pousado
no galho mais alto;
sigo o céu cinzento
que amanhã não
será mais igual,
amanhã volto contigo!
sem me esconder,
roubo rosas e pássaros
para pôr nas fotografias.
a insónia atrai pesadelos
das entranhas do mundo
anseios telúricos, apelos
das profundezas ignoradas
vulcões quase extintos
as lavas-fogo escoadas
em fantasmas não ditos
presenças pressentidas
em corpos inabitáveis
poços escuros sem fundo
monstros ingovernáveis
de almas partidas…
enquanto não emerge
a aurora e o sol não cresce
das cinzas nocturnas…