Monday, October 19, 2009

Outubro


a luz fresca da manhã azul-miragem
a aragem de franzir o estômago
o prenúncio do aferrolhar o corpo
em outra roupagem,

uma esplanada no âmago
da cidade quieta em sopro
de vida translúcida e amarga,

só apetece entrar no comboio e partir.
Lá para onde o horizonte abrir
em liberdade ilimitada.

Tuesday, October 13, 2009

Pássaros


trago no olhar o canto dos pássaros
e nos cabelos um fio de brisa fresca
volto tão leve que me apetece voar
(quem sabe se não voei?)...

Wednesday, October 07, 2009

Depois da tempestade


depois da tempestade nocturna

não me conformo nesta prisão sem grades;

se não decido partir, como vou conhecer

os cinzentos indecisos espalhados pelos céus,

como vou saber as árvores desfalecendo

em gotas e folhas e o ribeiro descendo

envolto em lama e espuma,

e como vou seguir o vento alvoroçado

sem bússola nem norte

ou os pássaros estonteados de água,

como posso encontrar o caminho?

quero ler o espanto das gentes,

quando eu atravessar o temporal.

vou partir, livre como um verso,

serei árvore e seiva

sem criar raízes num lugar só.

Outono



Esfuma-se em brumas avalónicas a cinzentura do dia,

descolam-se as gotas das nuvens

e poisam a embalar a vermelhidão de folhas,

cânticos desfeitos em águas cristalinas

ecoam na montanha invisível,

deslizam pelas pedras endurecidas,

nem fio de vento passa entre as divindades

ocultas de rochedos e águas.

Saturday, October 03, 2009

Outono



o outono vai escorrendo verão pelas horas de sol
traz à solta uma brisa de crianças e pássaros
finge pinturas nas folhas amarelo-avermelhadas
e bonançosas crescem as rosas lá onde os botões
pequenos coloridos riem de primaveras passadas!

Tuesday, September 22, 2009

aparência


manhã magnífica
de pássaros, rosas
amoras e flores silvestres,
parece que a terra
rima facilmente
com alma pacífica,
não fosse o olhar
que emperra
nos títulos garrafais
e tristes dos jornais,
não fosse o submerso
fundo lodoso do lago
perturbar o equilíbrio
ténue do universo.

Saturday, September 19, 2009

Pássaro e rosas



o som do sino

um longínquo sinal

chega de uma igreja

que não sei

ouço os pássaros

não os vejo

apenas os entre-sonho

nos ramos gotejados

da chuva matinal.

o homem de chapéu

na cabeça quedou

sentado inclinado

no banco de pedra

leva as mãos ao rosto

(cansado do caminho que fez

ou do que tem para andar?);

páro o olhar nas gotas

caídas pelas folhas

e flores, olho outra vez

e o homem já abandonou

o momentâneo lugar

de paragem.


à passagem,

meto na boca duas

amoras maduras;

sento-me no chão lento

de palha amarela,

não quero espantar

o pássaro pousado

no galho mais alto;

sigo o céu cinzento

que amanhã não

será mais igual,

amanhã volto contigo!


sem me esconder,

roubo rosas e pássaros

para pôr nas fotografias.

Thursday, September 17, 2009

noite


a noite fez-se mesmo uma antiga noite de breu sem luz, sem velas, sem candeias, sem sinos,
apenas a noite do princípio dos tempos: clarões abrasadores arrasaram a escuridão
por momentos claros; pressentiu-se a queda das gotas ao longe antes da real percepção
da chegada em aluvião
da chuva carregada de cheiros

a manhã chegou limpa
límpida
acalmou o pó nos caminhos
e os pardais entrecruzam os voos e os cantos
de ramo em ramo como se tivesse chegado a primavera…

Sunday, September 13, 2009

pássaros


ar morno
trovoada no ar
nuvens em castelo
anda um corvo
negro a voar
flores pequenas
amarelas
entre a secura
do restolho;
as rãs escolhem
a frescura
do lago artificial
adiante ainda as amoras
maduras e negras
a chamar os caminhos
quentes e esquecidos;
onde andam os pássaros
que ninguém os ouve?
talvez à sombra quietos
a fugir das horas
batidas pelo calor.
e nisto que surpresa!
ultrapassam nossos passos
e em abraços
prendem os ramos
(nós vamos
lado a lado
e paramos)
os pássaros…

Thursday, September 03, 2009

Garça


o rio outrora selvagem

desliza águas agora serenas

as vinhas cobrem encostas

solarengas

imagem

de sangue e suor

lágrimas e sonhos

em socalcos plantados

por tempos seculares

na margem

a garça

com graça

o rapaz abraça

a jovem

navegantes

(amantes

efémeros

julgando-se eternos)

de um barco

em bonança.

Monday, August 31, 2009

pensamento


o que eu penso
muita gente pensa
a diferença
é este atrevimento
de colocar o pensamento
em palavras
no papel... virtual.

Wednesday, August 26, 2009

historieta




acordo sem horas de relógio
ainda nem o encontrei
exilado que foi
para algum saco sem fundo
abro a cortina
de elementos marítimos
saio para a varanda
e alongo o olhar sem neblina
no mar em frente
a praia ainda aparentemente
deserta
desperta
as barracas nuas ainda
um guarda-sol verde plantado
cedo na areia
e sempre o olhar no profundo
mar este sentimento
de obsessão e loucura
de conhecimento
do mais além
se calhar foi assim
que o ínclito infante
se pôs em sagres
a mão em pala, os olhos
a cismar e a cabeça
a imaginar outro mundo

regressei
à montanha e trouxe comigo
aquela imagem trago-as sempre
fecho os olhos e estou
numa varanda frente ao mar
o mesmo mar outra praia
um rochedo algas e areia
e na praia quase deserta
que desperta
pouco a pouco
duas mulheres caminham
páram e avançam
em gestos e risos
e guardam as conversas
como conchas e búzios...

Monday, August 24, 2009


corpos estendidos na areia sedentos de sol
gaivotas sem gritos inquietos espreitam o mar

ao sabor das ondas e do tempo
o rochedo
ergue-se em altar


nas horas de nevoeiros sebastiânicos
partem os pescadores


e à tardinha o sol cai em fogo

ou anuncia a noite em branco brilhante.

Tuesday, August 04, 2009

pausa

Este blogue está pasmado: é do sol... vai continuar pasmadito até finais de Agosto... boas férias, bom descanso!

Thursday, July 30, 2009

insónia

a insónia atrai pesadelos

das entranhas do mundo

anseios telúricos, apelos

das profundezas ignoradas

vulcões quase extintos

as lavas-fogo escoadas

em fantasmas não ditos

presenças pressentidas

em corpos inabitáveis

poços escuros sem fundo

monstros ingovernáveis

de almas partidas…

enquanto não emerge

a aurora e o sol não cresce

das cinzas nocturnas…

Tuesday, July 21, 2009

A lua

a lua tem sabor a noites de verão em céu estrelado estendíamos a mão e tocávamos com os dedos
na luz e nas crateras

ou ficava inatingível e descíamos das estrelas para a escuridão com muitos pontos brilhantes e o estio era um país único e tinha noites quentes e avós

Friday, July 17, 2009

relógio


guardei o relógio
não sei onde
ando assim à toa
sem horas nem desoras
guiada por ecos de luz
sombras coladas
às paredes caladas
e penumbras ocas
pelas vozes vadias
dos pássaros inquietos
o vazio das esplanadas
o nevoeiro dos sonhos
entre sonos à solta…

guardei o relógio
... só o tempo não pára…

Tuesday, July 07, 2009

Poeta

Poeta
ficcionista de sentimentos
paisagens interiores
de tormentos
e amores
espírito fora dos muros
do mundo
desconstrói-se
em pedras e chão
eleva-se
em absinto e explosão
a alma embriagada
de palavras e vida...

Saturday, July 04, 2009

Hortênsias

Apago a noite.
Durmo.
Acordo com a luz da manhã.
Cada dia, renascer
é um milagre, que não sabemos...

Na jarra bojuda, um ramo
de hortênsias
brancas, rosa e azuis...

Thursday, July 02, 2009

dia perdido

perdi um dia;
procurei-o
por toda a parte,
encontrei-o trancado num sótão
sem chave possível...