Monday, August 24, 2009


corpos estendidos na areia sedentos de sol
gaivotas sem gritos inquietos espreitam o mar

ao sabor das ondas e do tempo
o rochedo
ergue-se em altar


nas horas de nevoeiros sebastiânicos
partem os pescadores


e à tardinha o sol cai em fogo

ou anuncia a noite em branco brilhante.

Tuesday, August 04, 2009

pausa

Este blogue está pasmado: é do sol... vai continuar pasmadito até finais de Agosto... boas férias, bom descanso!

Thursday, July 30, 2009

insónia

a insónia atrai pesadelos

das entranhas do mundo

anseios telúricos, apelos

das profundezas ignoradas

vulcões quase extintos

as lavas-fogo escoadas

em fantasmas não ditos

presenças pressentidas

em corpos inabitáveis

poços escuros sem fundo

monstros ingovernáveis

de almas partidas…

enquanto não emerge

a aurora e o sol não cresce

das cinzas nocturnas…

Tuesday, July 21, 2009

A lua

a lua tem sabor a noites de verão em céu estrelado estendíamos a mão e tocávamos com os dedos
na luz e nas crateras

ou ficava inatingível e descíamos das estrelas para a escuridão com muitos pontos brilhantes e o estio era um país único e tinha noites quentes e avós

Friday, July 17, 2009

relógio


guardei o relógio
não sei onde
ando assim à toa
sem horas nem desoras
guiada por ecos de luz
sombras coladas
às paredes caladas
e penumbras ocas
pelas vozes vadias
dos pássaros inquietos
o vazio das esplanadas
o nevoeiro dos sonhos
entre sonos à solta…

guardei o relógio
... só o tempo não pára…

Tuesday, July 07, 2009

Poeta

Poeta
ficcionista de sentimentos
paisagens interiores
de tormentos
e amores
espírito fora dos muros
do mundo
desconstrói-se
em pedras e chão
eleva-se
em absinto e explosão
a alma embriagada
de palavras e vida...

Saturday, July 04, 2009

Hortênsias

Apago a noite.
Durmo.
Acordo com a luz da manhã.
Cada dia, renascer
é um milagre, que não sabemos...

Na jarra bojuda, um ramo
de hortênsias
brancas, rosa e azuis...

Thursday, July 02, 2009

dia perdido

perdi um dia;
procurei-o
por toda a parte,
encontrei-o trancado num sótão
sem chave possível...


Wednesday, June 24, 2009

Vou ali...

Vou ali e volto já!
Até terça!!!

Monday, June 22, 2009

Medos

o tempo
ultrapassa-me
num desconcerto
tenho medo
de ir até ali
tão perto
e ao voltar
já não me encontrar!

Monday, June 15, 2009

Sem sentido

o sábado inteiro
-há quem passe a vida inteira-
à procura de um sentido
para a vida

e se não há sentido?
se a vida não é uma passagem?
nem vale de lágrimas
nem desfiladeiro nem cruz?

se a vida é simplesmente
sentido proibido
miragem
caminho de sombras sem luz
nem chegada nem partida
palavra sem direito a erro
desterro
precipício
delírio
beco sem saída
naufrágio
jogo sem princípio
nem fim?

se é apenas o tempo
de uma rosa florir
efeito borboleta
equilíbrio de balança
o eclodir
de um ovo
gota de sangue
uma bênção
dos avós
uma criança sorrir
passo de dança
a chuva cair
a água gelar
a queda de uma folha
uma decisão
a sós
desgosto de amor?


o tempo
de um suspiro
o cansaço
uma palavra
um abraço?

será breve
sempre
o tempo

será mais leve
se alguém estiver
à nossa espera?!

… entretanto,
num tempo
de um pranto,
de um riso,
de um cheiro,
um segundo impreciso,
três mulheres colhem flores de sabugueiro…

Friday, June 12, 2009

Prémio Lemniscata

da kaótica http://opafuncio.blogspot.com/
"O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.


Sobre o significado de LEMNISCATA:

LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.”


Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)


Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.
Texto da editora de "Pérola da cultura"


Segundo as regras este prémio é para ser atribuído a 7 blogues.

Levem-no os primeiros sete visitantes...

Thursday, June 04, 2009

Passeio

Saio
para um passeio
o caminho ladeado
de pássaros,
esperam por mim,
saltam do meio
dos arbustos e das flores,
levantam voo
até mais à frente
voltam atrás,
voltam à direita,
giram à esquerda,
sobem e descem
passam em tangente,
ziguezavoam,
equilibram-se
num ramo frágil,
baloiçam,
espreitam da árvore,
escondem-se em cantorias,
fogem, regressam,
descem em voo baixo,
serpenteiam,
tonteiam,
esperam...
e recomeçam
as traquinices,
passeio num caminho
ladeado de pássaros...

Monday, June 01, 2009

Crianças


Os pássaros novos algazarreiam em coro de brincadeiras e chilreios escondidos nos ramos ou voam poisando no chão sobem entre as folhas escapando ao calor
procuram a sombra logo pela manhã


as crianças em roda
debaixo da árvore comem uma maçã

Tuesday, May 26, 2009

Fim de semana


pedrada
na rotina
a água
em círculos
suaves
os mercados
as catedrais
as conversas
as calçadas
ancestrais
a água
retoma
a superfície
tranquila
a rotina
os pássaros
aos pares
voam
do chão
florido
dois melros
amarelos
saem ao caminho

Saturday, May 16, 2009

Ponto-pássaro























Era um ponto.

Parecia um pássaro.

Era um pássaro.


Parecia um ponto.



um ponto perdido?


um pássaro ferido?



dei um passo


estendi os dedos


o pássaro acordou


do seu ponto


no céu ficou


um pássaro

ou um ponto

ao longe!

Friday, May 15, 2009

Aniversário


Era a mãe e a filha
em viagem
a criança a (dis)correr
silêncios
no quadro da paisagem
muito quieta
ensimesmada
e a mãe:
então, filha,
vais tão calada?

e a criança, baixinho,
para não espantar
os espíritos
os sonhos as urzes
da serra:

schiu! Estou a pensar!...

e caiu entre elas

um momento
único cúmplice e lento
de eternidade
que ficou só

entre elas…

Monday, May 11, 2009

Chuva


acompanhou-me a chuva sem surpresa

duas asas negras de estorninhos
num voo apressado
e solitário

nenhum outro pássaro
a voz encharcada
esconderam-se no arvoredo

molhadas as pontas do cabelo
a chuva na cara


perto, os carros mastigavam o chão.

Tuesday, May 05, 2009

Manhãs




ai o estio destas manhãs
a jogar às escondidas
os pássaros e eu
os grilos e as rãs
as aves a cruzar
o ar à frente atrás
em direcções várias
eu atarantada
a correr por uma foto
a rã a fugir na água
verde estagnada
o pássaro veloz
em voos de dança
acrobática
os grilos camuflados
numa cantoria danada
e o verão quase ...


Wednesday, April 29, 2009

Manhã com pássaros e gotinhas


o cheiro a frio cortado
o jardineiro abraçado
à árvore
as papoilas ensimesmadas
os pássaros e eu a passar
as flores miudinhas
tímidamente a espreitar
entre os verdes
as gotas pedrinhas
de cristal polidas
soberbamente engastadas ...