Sunday, March 04, 2007

4 de Março



A primeira vez que a vi estava ela, morena e linda, muito pequena ( continua morena e linda , mas nada pequena) nos braços da minha/nossa Mãe... ( Depois, passámos a andar lado a lado, nas fotos e tudo!!!) Eu , encantada!!! Ai há tantos anos ... e, em sua honra, republico o post do ano passado, mesmo dia e mês, evidentemente!




Hoje é o dia em que, todos os anos, mesmo depois de tanto ( ou tão pouco?) tempo, recordo sempre com uma ternura intensa aquele rosto moreninho entre lençóis brancos e, como num clique, vêm à memória imagens e momentos de uma vida!!! … uma praia imensa, só para nós, de Verão e de Inverno, numa baía em forma de concha que vim, mais tarde, encontrar, com espanto, nos livros de Geografia… um livro pequenino, fininho, maneirinho que ainda hoje possuímos que falava da vida do José do Egipto e de sonhos, muitos sonhos misteriosos, .. as fugas para ver a Amália cantar o fado numa televisão, a preto e branco, outro objecto encantado na época, que até se via perfeitamente uma mosca passear no xaile da fadista, …a mudança da praia para a terra, no interior junto ao Douro, gelada, no Inverno de neves abundantes e com um pão de sabor estranho, e de laranjas doces no Verão ardente , … as cambalhotas no ferro do portão da D. Emilinha, …o nascimento da mana mais nova, outro mistério cheio de silêncios e deslumbramentos, … e outra mudança e novas vivências … tantas mudanças e lembranças e vivências diferentes que devíamos ter ficado traumatizadinhas de todo, à luz das psicologias actuais, e nada , cá andamos inteiras por estas andanças da vida… até sobrevivemos aos exames ( alguns até repetidos pela morenita, devido à esperteza de jovens “ inteligentes” de esperteza saloia , por casualidade da terra onde agora vivo, que roubaram e venderam uns tantos exames) e – concluo, por hoje, estes “ recuerdos” com esta nota pitoresca que o dia tem tido o céu bastante cinzento e de “cinzentura” chega - … recordando aquela noite de piquenique de suspiros grandes lindos e dulcíssimos em que nos embebedámos de risadas abafadas e de chá sem açúcar …Ah! Também ninguém acredita – como a memória é curta e o tempo passa depressa ou vice-versa!!! – que este dia foi já feriado nacional para comemorar a data de nascimento do Infante D. Henrique , o da Ínclita Geração …



Hoje, como há um ano, floresceu, num vaso da varanda, o primeiro narciso marelo...

Friday, March 02, 2007

Progresso




Um dia destes, as pessoas já se esqueceram das árvores...


como se esqueceram das quintas, das casas, dos tanques cheios de água, dos muros, das paredes, das vidas que entre eles habitaram...


um dia destes, vão crer que nunca habitou aquele espaço nada a não ser um Fórum cheio de lojas, cafés, estacionamentos, cinemas ( espero, o que já não seria nada mau!!!)


um dia destes, quando se estiver naquele lugar, será como se ninguém antes tivesse passado por ali...


é o Progresso....


e das árvores não rezará nenhuma história...

Tuesday, February 27, 2007

Troncos mortos

Tinha ficado de pé aí um metro do tronco das árvores... Esta tarde, andavam a cortar o resto... Ainda não percebi por que carga de água é a Protecção Civil ou alguém com esses dizeres nas"etiquetas" das fatiotas de trabalho que anda a fazer esse lindo trabalho... E o dia passeava-se tão bonito por estas bandas ...

Monday, February 26, 2007

Querem apagar a minha vida

Estou assim um bocado aparvalhada. Pensei que só Estaline e outros companheiros apagavam as pessoas das fotos, quando não lhes convinha por variadíssimas razões aparecer junto delas para a posteridade, e ponho-me a ler a segunda versão do projecto de diploma regulamentar para acesso à categoria de professor titular, como quem não tem mesmo mais que fazer. E descobri, a manter-se esta versão ou equivalente, que - não é que me interesse ser titular muito especialmente, o que queria, na verdade, não era bem isso: agora só queria que , daqui por dois, quatro anos no máximo me deixassem reformar e mais nada - antes de 1999, e recuando até 1973, não vivi profissionalmente. Nada conta do que se passou nesses anos, nem a passagem pelo Conselho Directivo, nem pelo Conselho Pedagógico anos e anos como Delegada de Disciplina, nem como Directora de Turma... Nem conta nenhuma actividade que dinamizei e em que colaborei - e claro que não estou sozinha, outros trabalharam muito mais que eu - ( Visitas de Estudo, Feiras do Livro, Exposições, publicação do jornal, publicação de um livro de textos e poemas dos alunos - para o qual andei a pedinchar o dinheirinho de porta em porta como uma triste e "pobre de pedir"- Encontros com Escritores ( noutro dia, vi-me tão antiga que ainda me lembro de ver lá na Escola a Odette de Saint-Maurice !!!), o Dia do Francês com cantorias e danças e já nem me lembro do resto... Nem conta cada ano em que nem dei uma única falta ... Só contam os anos, em que as mazelas começam a carunchar e uma pessoa se vê obrigada a ir ao médico , a andar em exames de vigilância e prevenção, ou com viroses incompreensíveis, mas terríveis, e gripes ou afonias completas, quer dizer , em que não digo nem pio...
Conclusão: querem pura e simplesmente apagar a minha vida profissional de uma penada... e, se calhar, como crêem que já ando muito motivada, ainda querem humilhar-me mais e fazer-me crer a mim que nunca fiz nada e que não valho nada... mas estão enganados, porque a minha consciência do trabalho com os meus alunos vale mais que um cargo estupidamente chamado titular e, embora me apeteça chorar de raiva, não o vou fazer... o desprezo é o melhor, já que a luta de pouco valeu...


Esta tarde, fui a pé até ao Arquivo Distrital, via Avenida dos Bombeiros. À vinda, após as Portas do Sol, nem queria acreditar e fiquei ainda mais aparvalhada do que já ando ultimamente: cortaram todas as árvores da Avenida. É a preparação para as obras de um certo Fórum ( cuja abertura está anunciada para a Primavera de 2008)... começam bem!!! ( Não trazia a máquina fotográfica comigo!!!)

Friday, February 23, 2007

Dia quatro- diário de viagem, em traços largos




Sol ainda
Pequeno almoço como sempre, antes de nos abalançarmos por aquelas ruas fora, passando pelo Palau da Música Catalã, deambulando um pouco ao acaso por aqui e por ali para irmos almoçar na Cervejaria Catalã, onde os “montaditos” e as “tapas” saltam aos olhos, lindas e coloridas e nos põem apenas uma dificuldade – escolher. Para não ficarmos com muita pena, jantámos também lá, cansados ou já saudosos.
Pela tarde, bebemos um gole de água na Fonte de Canaletes ( diz uma lenda que, quem beber água desta fonte voltará, com certeza, a Barcelona) e sentámo-nos nos bancos a apreciar o vai e vem das pessoas num ciclo não-interrompido (em alguma hora do dia ou da noite haverá uma interrupção desta afluência de gente?) . Cirandámos por ali a ver umas montras, via Igreja de Santa Ana, Igreja del Pi ( a pequena praça desenvolveu-se à volta de um pinheiro) , Praça Real ( que não é a Praça do Rei) e abancámos frente a um chá e a um chocolate quente que os pés já se recusavam a andar mais…a deixar fluir as conversas sem tempo nem medida, até que, via telemóvel, quais autênticos catalães, marcámos encontro um pouco abaixo do bar Zurique, Praça da Catalunha… para jantar.

Separámo-nos no Passeio de Gràcia, uma, a quatro quadrículas dali, os outros, descendo até à Praça da Catalunha, a outras tantas quadrículas da Praça Urquinaona, a meia dúzia de passos do “Hostal”. Como, desta vez, nos recolhíamos mais cedo, não encontrámos, embrulhado num saco-cama, um indivíduo, a dormir, no cubículo da caixa automática.



O dia seguinte amanheceu com ar de regresso a casa…depois de um pequeno almoço com troca de recomendações…



Um dia destes, quando alguém marcar encontro em frente ao bar Zurique , na Praça da Catalunha, portem-se como verdadeiros catalães, habitantes de Barcelona.


Apareçam! Estarão à vossa espera……

Thursday, February 22, 2007

Dia três... diário em traços largos





Mensagem de dia de sol, via telemóvel, o que nos abria o apetite para ir até ao Parque da Cidadela, passear, passear, sem pensar muito, deixar correr os passos e os pensamentos e as conversas até à Barceloneta, juntinho ao mar com umas ondinhas estranhamente suficientes para uns tantos se dedicarem ao surf, Montjuic ao longe, mais ao lado, o Colombo com o braço esticado e as pernas a pedir repouso e o restaurante que procurávamos fechado e as voltas e voltinhas e o resto do dia sem grande história que nem a cabeça consegue processar tanta informação junta nem as pernas tantos passos que parece que não se dão mas caminham-se … ah passámos ainda junto às fachadas todas ( antigas , modernas e moderníssimas, construídas no tempo do Gaudí e depois ao longo das décadas e continuarão durante sabe-se lá quanto tempo) da Igreja da Sagrada Família, mas os guindastes, os ruídos e o pó tiram a beleza toda ao mo(nu)mento…

Conhecemos a celebérrima janela de um certo quarto, janela numa casa com varanda que dá para uns terraços, isto a quatro quadrículas ( aquela zona de Barcelona, em tempos , século XIX, foi planificada, segundo o Plano Cerda e construíram-se conjuntos de casas formando quadrículas uniformes sobre o terreno) da Praça Catalunha…

Dia dois – Domingo


Dia bonito para se passear no Parc Guell ( que o senhor Guell encomendou ao senhor Gaudí) . Não sabia eu que aquela subida íngreme a partir do metro que eu fizera “com uma perna às costas” me ia mostrar que eu tenho músculos em sítios incríveis e que eu jamais me apercebera deles.. Grande Parque para passear , mas , com tanta gente de todos os lados, muitos do nosso rectângulo, uma pessoa até fica cansada.
Vista da Cidade que se alonga até ao mar, com imensas pináculos de igrejas e catedrais e Casa-Museu Gaudí e passagem rápida pelas “casas dos strumpfes” ( que está visto que não se chamam assim) e descida até ao Centro para descansar pernas e processar tanta informação vista in loco e lida no nosso livrinho-guia e retemperar forças no “Els Fanals”, restaurante calmíssimo que era do que estávamos mesmo a precisar…
Ramblas again, com as gentes, os pássaros, as flores e desvio para a zona da Cidade Velha. Da Catedral em obras ( pedia-se um donativo obrigatório de 4 euros por isso, passámos ao largo) pela rua estreita até à praça da Generalitat e zona do Born pela rua da Argentería até à célebre ( pelo livro) Catedral do Mar, onde se voltou mais à noitinha, a porta já aberta e aqueles arcos altíssimos, iluminados fazendo-nos ascender a um lugar mais alto pelo trabalho ali realizado por aqueles homens do século XIV.
Foi então que descobrimos as “ Tapas del Born” que abriam essa noite, ofereciam champanhe e eram simpaticíssimos , de tal modo que voltámos na noite seguinte, lembravam-se de nós e trataram-nos duplamente bem e onde a Princesa se nos juntou vinda da sua aula de Catalão. Mas antes, ainda se tinha divagado pelo Born até ao Arco do Triunfo, caminhando, caminhando, caminhando…conversando…conversando…conversando…
Após o jantar, reencontro em frente ao bar Zurique, Praça da Catalunha como não podia deixar de ser, para uma “copa” no bairro Raval, num bar-livraria ( livraria para se ler , não para vender no caso), perto daquele onde supostamente se escrevia um romance na noite anterior.

Diário de Viagem - Barcelona, dia um





Da janela do comboio, a terra sedenta e gulosa acabava por ficar alagada e lamacenta, debaixo da chuva imparável. Tudo calmo na viagem de avião. À espera, uma multidão (claro exagero) , embora a presença da Princesa parecesse como se aquela multidão toda estivesse ali por nossa causa.
Comecei a ler “A Catedral do Mar” e fui transportada a tempos muito antigos, violentos de uma injustiça atroz.
Primeiro dia
Chovia.
A largueza dos passeios e das ruas e a grandeza dos prédios, deixavam, com facilidade entrar a luz ferrugenta do dia . De nariz no ar, mirava as varandas de ferro, as fachadas todas vistosas. As imensas escadarias , mais ou menos, imponentes levavam-me a ver a Rebeca de Winter a descer, muito elegante, até ao salão.
Para enganar a chuva, enfiámo-nos, em boa hora, na Casa Batló ( que o senhor Batló pediu a António Gaudí para construir ) e a surpresa da poesia sem palavras: a conjugação do trabalho original do vidro, do ferro, do azulejo, da luz, muita luz, a luz e o ar presentes até nos sótãos-lavandarias fez esquecer a humidade e andámos ali a divagar pelas salas, encantados… Ainda demos uma vista de olhos pela Casa Milà, mas eram horas de atacar umas “tapas” para socorrer o estômago…
Deixou de chover.
Do Passeio de Gràcia até à Praça Catalunha e as Ramblas … em frente ao bar Zurique, na larga passadeira de peões, mal abria o sinal verde, assistia-se à contradança de uns bailarinos inconscientes do seu papel. E gente, sempre muita gente, e cor, muita cor na Boquería e mais gente, muita gente até à estátua de Colombo, lá do alto com o dedo a apontar em direcção a um qualquer destino por descobrir… um homem com tanta nacionalidade por saber.
Os pés moídos acalmaram à mesa do restaurante “ Julivert Meu” diante da refeição da noite e de um belo Rioja. Acabou-se a noite num bar do bairro Raval ( diz-se com b) , servidos por um jovem magrinho, de óculos e ar intelectuais que não parava de escrever num bloquinho, o qual continuou a ser escrito pelo colega que o rendeu e imaginou-se que estariam a criar um romance a dois e que o capítulo desse dia poderia muito bem ter começado assim: “ Entraram três figurinhas pelo bar dentro, sentaram-se a uma mesa e pediram três copos de vinho…”


Wednesday, February 14, 2007

Tempestade e bonança

Caiu a chuva
embrulhada
em ar violento

ensopou
a terra

as nuvens
emigraram
além-fronteiras
estrangeiras
imaginárias

deixaram
farfalhos
suspeitos
sujeitos
ao sabor
dos ventos
pensamentos
dispersos

ideias fugidias
fantasias
encantadas
plasmadas
nos céus
entretanto
enxutos
impolutos
apagadas
as pinceladas
de branco...

Sunday, February 11, 2007

Recado ao sobrinho mais querido do mundo

Estás um Homem, pareces um príncipe. Para te dar um beijo, temos que nos pôr em bicos de pés e tu tens que descer da tua altura impossível para nos abraçares. E ainda ontem ( o teu avô P. confidenciou mais que uma vez que o tempo passa muito depressa e a cada dia que vivemos acreditamos mais nele!!!) eras tão pequenino, dentro de uns fatinhos pequenos, mãozinhas pequeninas, carinha pequenina e uma boquinha linda ( eu adoro as mãozinhas e as boquinhas dos bebés) e anda por aí num álbum uma foto da tua prima, deliciada a espreitar para dentro dos cobertores, num gesto de carinho inexcedível e tudo à tua volta numa festa. Mais tarde, nas fotos já andas e brincas na areia da praia e, algum tempo depois, por alturas da "perestroika" ( uma graça que só nós entendemos) , passeámos por essas praias ( entre S. Martinho do Porto e a Praia do Salgado) que nos ficaram à tua Mãe e a mim gravadas da nossa infância e que são , agora, para ti e para a tua prima um marco da vossa e as fotos desse tempo mostram-vos crianças alegres e felizes , o que nos transporta para dias sem nuvens e esse tempo parecia não ter princípio nem fim. Agora, o menino cresceu e a tua vida voa entre o final dos estudos e a tua banda. Só quero que a tua Estrela e a Energia Superior que comanda as nossas vidas te indique sempre o melhor caminho, que o dia em que a tua vida entrou na nossa foi uma festa. Há um ano escrevi-o por aqui e sempre o repito neste dia e di-lo-ei até a memória me falhar: logo depois de nasceres, duas pessoas dançaram no corredor do Hospital e foi em honra da tua Mãe e por ti!!!
Parabéns!

Thursday, February 08, 2007

Azul

Esborrachada
contra a vidraça
a chuva estrelada
fustigada a vento
caía ...
mansamente
devagarzinho
a manhã clareou
e o céu azulou.

Tuesday, February 06, 2007

Praça Luís de Camões vulgo Praça Velha ( Guarda)III




As manilhas de esgoto, porque eram provisórias, foram retiradas, para pena de algumas pessoas que as adoravam . Foram, há dias, colocados estes tubos, que também dizem ser provisórios… ( isto porque ninguém quis, atempadamente, assumir que ia ficar um corredor para trânsito e não quiseram colocar árvores a separar as duas zonas, que , eventualmente , é o que irá acontecer). Isto são pensamentos meus a falar a meia voz com os meus botõezitos...
As crianças ( que eu já vi…) vão ter um local para se dedicarem aos malabarismos….e equilíbrios…onde, no Verão passado jogaram futebol em plano inclinado!!! Mas não liguem... São mesmo pensamentos meus com os meus botões que se fartam de magicar... Mas nem deviam, que não são arquitectos nem nada que se pareça... quer dizer nem os botões nem eu... Mas, enfim, dá-me para estes solilóquios... a certas horas após o jantar, quando o frio corre lá fora e a lareira embota as ideias de tão amodorradas que se sentem a olhar para as labaredas mágicas do fogo!!!

Praça Luís de Camões vulgo Praça Velha ( Guarda)II


Praça Velha “vestida” com relva sintética para o Verão de 2006, dando razão à opinião de algumas pessoas que achavam que a Praça devia ter relva…para amenizar o frio do granito.
As manilhas de esgoto com terra e arvorezinhas dentro "embelezavam" o recinto.

No Inverno, em manhãs de geada, parece mais uma pista de gelo…para peões e automóveis...

Praça Luís de Camões vulgo Praça Velha ( Guarda)


Praça Velha , antes das obras
de requalificação







Praça Velha depois das obras, com o “remendo” dos canteiros improvisados, porque ninguém percebeu que, de certos ângulos, o desnível não era apercebido pelos peões …
E, como se compreendeu depois, mantinha-se afinal um corredor para os automóveis, à direita, e foi necessário separar esta zona da de peões... com umas belíssimas manilhas de esgoto com terra dentro e árvores...

Friday, February 02, 2007

Escultura


A geada

chegou mansinha

pela madrugada,

arrimou-se

ao tronco gelado;

o nevoeiro

aconchegou

o arbóreo corpo

em branco manto

e esculpiu-lhe

as formas gélidas.


Wednesday, January 31, 2007

Arco-íris















Desceu do espaço
Inopinadamente
Lançou as raízes
De repente do céu
Cinzento escuro
Do meio das gotas
Da chuva em cordas
Um raio de luz
Branca dispersa
Em nítidas cores
E fez-se ponte
Transitório efeito
Em arco perfeito.

Tuesday, January 30, 2007

Parole... parole... parole...

Às vezes, põem-se a olhar para mim com cara de parvos: parece que só eu é que uso certas palavras. O pior é que eu , depois, não estou para explicar que algumas pessoas não têm vocabulário nenhum, porque era muito incómodo e as pessoas , elas mesmas, podiam pensar que eu estava a chamar-lhes incultas ou ignorantes. Se calhar, estou, mas isso fica com os meus botões, ninguém tem necessidade de saber, muito menos em época pós-Natal e Ano Novo e Festas e o Carnaval quase aí e tal. Não sei se é por isso, mas, enfim, é melhor não dizer nada, embora os Sagitários tenham a mania de ser muito frontais, com a idade acabam por achar que nem vale a pena, que dá muito trabalho ser tão frontal, que as pessoas podem ficar todas enxofradas. Pronto! Lá estou eu… alguém usa uma palavra como enxofrado? Ninguém! Ainda por cima, tenho que garantir que a palavra existe mesmo, que é só consultar um dicionário. Aliás, eu tenho um dicionário formidável. Lá estou eu…a usar formidável em qualquer circunstância… mas não é bonitinha esta palavra?… Até uma caldeirada é formidável, o que também ninguém diz…mas não pode estar porquê? Formidável? Se não estivesse é que era uma consumição!!!
Consumição, também não se pode dizer porquê? Até é uma palavra muito expressiva: vê-se logo que uma pessoa está roída de preocupação, nem é preciso dizer mais nada…
Mas não: é um ar de espanto, uns risinhos…
E trouxe-mouxe não é uma palavra tão castiça? Lá está ela, toda catita, no dicionário a rir-se com os seus “ou” toda insinuante…
E gentil não é um vocábulo lindo? Se uma pessoa é gentil nem é preciso adjectivá-la mais: já se sabe que é doce, querida e atenciosa!!!
Se ainda fosse o Manolo, que é todo versado em palavras difíceis, tanto em português, como em espanhol, como em francês… ainda compreendia o espanto, agora eu, que emprego palavras tão corriqueiras, ( às vezes até só sou capaz de dizer as ideias, as que não me surgem em português, em espanhol e, mais raramente, em francês, mas isso é outro caso, é por estar sempre a ver televisão em canais estranhos)… Mas, se ele fala difícil, tudo fica boquiaberto a escutar a sua erudição, sempre com aquela pronúncia raiana cativante. Cativante igualmente a conversa , claro!!! Agora se dou um pezinho de palavras muito próprias, logo vem alguém “mas por que diabo usas essas palavras? Ninguém diz isso!!!” Ninguém que é como quem diz… Todos menos eu…Eu rio-me muito, sou sempre muito exuberante! Mas devia ficar sorumbática, muito sorumbática até que ninguém se espantasse com o meu vocabulário particular…. Já tentei, mas não sou capaz, não está no meu espírito… Por isso é que deixar de usar palavras que ninguém mais usa não estará nunca na listinha de “coisas a fazer” nem este ANO nem nos seguintes!!!
E não sei porquê, veio-me hoje à lembrança o sabor das amoras maduras no verão das terras dos meus avós... Não sei que ligação pode esta recordação ter com as palavras...

Saturday, January 27, 2007

O frio com Tlebs dentro...


Três graus negativos, pelas onze horas da manhã... e o frio a zunir-me as orelhas doridas do vento gelado. Tenho que arranjar um garruço quentinho, se isto continua assim... Como se não bastasse este tempo agreste para me gelar o corpo , ponho-me a ler o jornal "Público" , diante de um café quentinho e fica-me gelada a alma... Eu bem tinha prometido a mim própria que não ia falar mais deste assunto que até me causa urticária ( em sentido figurado) , mas ... lá estava na página 22, canto inferior direito, se calhar para niguém ver:

"TLEBS só será suspensa em 2007-2008

O secretário de Estado adjunto da Educação precisou ontem que a experiência pedagógica associada à nova Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário ( TLEBS) só será suspensa no próximo ano lectivo.

Em declarações à Lusa, Jorge Pedreira esclareceu que a portaria que será publicada em Fevereiro só terá efeitos práticos em 2007/2008, ano em que "não vai realizar-se a experiência pedagógica com os alunos, já que não há condições técnicas para isso ".

Na quinta-feira, Jorge Pedreira tinha afirmado à Lusa que no próximo m~Es seria emitida " uma nova portaria a suspender a experiência pedagógica da TLEBS", sem nunca referir que a suspensão só entraria em vigor no próximo ano lectivo."


E a notícia prossegue em mais dois parágrafos.


Eu não sei se a notícia dá para rir ou para chorar, se para uma pessoa se revoltar...


Numa busca rápida na net, verifico que má-fé significa "intenção de prejudicar alguém; falsidade; deslealdade;"


Espero que o meu médico nunca me receite um medicamento que não tenha sido experimentado e certificado. E, no mínimo, espero que, quando dê conta que o medicamento não está certificado, mo retire imediatamente .



Friday, January 26, 2007

Não gosto...

Garantiram-me ( quem sabe destas coisas!!!) que anda alguém a mexer no meu blogue, que por isso tomou esta forma bizarra que é preciso andar numa auto-estrada até chegar aos posts... Mas quem? Como? Porquê? Para quê?

E eu não gosto, não gosto mesmo nada que mexam nas minhas coisas!!! Também não há nada neste simpes e modesto blogue que interesse às pessoas!... Ou há?

Agora, vai ser uma maçada pôr tudo no lugar outra vez...

Três graus abaixo de zero, às nove da manhã!!!

O assobio gélido do vento cresta a pele, corta a carne quase até aos ossos.
O sol, traiçoeiro, reina límpido e zombeteiro. Arrogante e indiferente. Até cair a noite.

Wednesday, January 24, 2007

Transparência


Transparência

e brilho

de cristal

aparência


de um azul

celeste clarinho

gela

no trilho

da terra

parada.

Monday, January 22, 2007

Companhia


Trago
pela mão
a minha alma
angustiada
a escuridão
desesperada
prestes
a desprender-se
em chuva
gelada
ou neve
anunciada.

Sunday, January 21, 2007

Burocracia da Idade Média na era dos computadores última geração ( lá como cá!!!)

Pergunta-se às entidades (in)competentes, como deve ser, os documentos necessários para ir trabalhar para o estrangeiro/União Europeia. Bilhete de Identidade! Apenas. Tão fácil, tão simples que até a pergunta parece estúpida. Respira-se de alívio, que todos os minutos são preciosos para tudo preparar antes de partir.
Chega-se ao país estrangeiro, instala-se uma pessoa, contactos para trabalhar, inscrições na agências de emprego, sem parar. Uma semana depois, começam os contactos. Tens o DN qualquer coisa? Não. Tens que o ter. Onde se pede? Oficina de Extranjeros. Não podes trabalhar sem esse cartão.
Dia seguinte , a tal Oficina. Três horas numa fila para receber dois impressos e preencher e ir entregar à “Comisaria”.
Diálogo surrealista que garanto que, se não aconteceu mesmo assim, foi muito, muito parecido:
Tens uma declaração do local de trabalho?
Não, por isso é que estou a pedir o cartão. Para trabalhar.
Mas, sem a declaração do empregador, não podes pedir o cartão.
Então, como vou trabalhar sem ter o cartão?
Bem, então vais à Segurança Social, pedir o documento x.
Dia seguinte: primeira a ser atendida no balcão da Segurança Social.
Na “ Comisaria” uma enchente.
E depois, seguiu-se o seguinte diálogo que não se passou em Portugal, mas no país vizinho, o tal da economia em alta e garanto, de novo, que não é nenhuma partida do “Gato Fedorento” nem nada…
Ainda precisas da cópia de mais um documento y.
Numa pressa, pediu-se a cópia.
De regresso:
Agora tens que apresentar a cópia do documento z.
Foi tirar-se a cópia do tal dito documento.
Agora, tens que esperar 45 dias!!!
Uma pessoa só não desmaia de espanto e incredulidade, porque tem um arcaboiço forte, embora de aspecto delicado e não propriamente tendência nem vagar para desmaios.

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Salomão, onde estás?
Uma juíza, de seu nome Fernanda Ventura, diz-se de consciência tranquila por enviar para a prisão um pai adoptivo, afectivo ou seja, pai, por não revelar o paradeiro da sua companheira ( só faltava que a decisão contivesse um preconceito contra as pessoas a viver em união de facto ou sem facto , como companheiras e não casadas com papel e tal) e da filha adoptiva de ambos.
Agora, parece que não ficou contente e ordenou à PSP ( Polícia que devia ser de segurança ) e à Polícia Judiciária para encontrarem a mãe e a filha custe o que custar e que , caso seja necessário, arrombem a porta ( à força, claro!!!) para entrarem em casa delas e trazerem a menina... também à força, digo eu e que prendam a mulher!!! Mas esta juíza decide tudo isto sozinha ou os colegas dela pensam como ela?
Se as leis , para serem aplicadas, não precisam de ser ponderadas , para que servem os juízes?
Manuel António Pina falou no seu artigo da " Visão " desta semana , como antes e depois dele, outros, de Salomão...

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Amigo
No meio de tantas reflexões pessimistas, surgiu num dos meus posts um comentário de um amigo de outros caminhos e, pelos vistos, destes; chegou muito de mansinho e está a descobrir, por esta altura, que me encontrou, por acaso ou foi o sangue a falar?
Vive na blogosfera em http://www.serra-montemuro.blogspot.com/
Foi um prazer formidável!!!

Thursday, January 18, 2007

Por ti


Enrolei
o cachecol
colorido
comprido
de entrançado
grosso
à volta do pescoço
penduradas
as cores variadas
até às franjas
para fingir
que estás aqui
comigo a rir
apertada
num abraço
o espaço

derrubado

para fingir

que a distância

não é nada...

Dia de festa

Dia grande lá pelos lados da ALDEIA em que o SINO não pára de tocar, repicando de festa...com imenso orgulho e emoção desmedida...
Para conhecer as razões de tal alegria, não esquecer de bater à porta de osinodaaldeia ( link ao lado), onde há sempre lições de vida a partilhar ou uma peça de música ou uma gargalhada... e muito mais!!!

Sunday, January 14, 2007

Moinhos de vento


Na cumeeira do monte
passa
o passado
na estrada
romana
nem moinhos
de velas ao vento
nem o grão
estraçalhado
sob o peso da mó
nem farinha branca
nas mãos do moleiro…

Na lonjura
a estrutura
metálica
mecânica
de três braços
desenha no céu
uma imagem
excêntrica…

Uma mulher
sentada
num banco
sozinho
do jardim
fala
às plantas
mirradas
do Inverno…

Um bêbado
da tarde
titubeia
junto ao muro
gritando
frases e risos
de zurrapa.


Salpicos
miúdos
de chuva
cansativa
borrifam
a calçada.

Thursday, January 11, 2007

Nuvens


Arejou o tempo. O horizonte expande-se ao longe para além das fronteiras convencionadas dos homens, sob uma neblina ligeira e nuvens acumuladas em ondas cinza e brancas. Raia o azul do céu, entre o algodão fofo corredio. Telhados alheados, expostos ao sol, brilham cor de laranja escuro. Uma pedra subiu do recreio e estilhaçou o vidro de um carro parado na rua... Um pardal assustado esvoaçou, espavorido, num alarido de asas pequenitas.

Monday, January 08, 2007

vidas que partem


Um gato
espalmado
na estrada
sob o sol
atormentado
notícias
malfadadas
pingas
esparsas
de nuvens
passageiras
encasteladas


arquivos
remexidos
passos
perdidos
em eras
passadas
folhas
carcomidas
e as horas
seguidas
contam
indiferentes
as vidas
das gentes

Sunday, January 07, 2007

Passeio-relâmpago








Na cidade-fantasma, o nevoeiro infiltrou-se em todas as frinchas das casas e das árvores, adensou-se sobre o chão e escorregou pelas lajes de pedra. Estavam isolados havia quatro dias. Isolados não queria dizer impedidos de sair ou entrar na cidade. Simplesmente, significava que não tinham acesso à luz do dia, para já não dizer , ao brilho do sol. Só viam as casas, se estivessem a um palmo das paredes e chocavam com as pessoas enfiadas nos seus agasalhos escuros, em becos perpendiculares e paralelos ao Corgo, que não se vislumbrava, mas se pressentia correr ao fundo da ravina.


Sufocados por esse sentimento impotente de escuridão, foi, com alívio, que saímos, quase em fuga, do nevoeiro e da chuva que caiu de novo pela manhã. Em busca do sol, de horizontes abertos em socalcos magníficos, obra sempre surpreendente da força e vontade de mulheres e homens fora do comum, entre os quais se contam muitos dos nossos antepassados, alguns imigrantes oriundos do então reino da Galiza, especializados na arte de surribar as vinhas. Em busca do Douro, das paisagens espelhadas nas suas águas, com as casinhas e quintas tremeluzentes da dança da corrente, um barco rabelo fundeado em simetria e uma cidade inteira mergulhada, de pernas para o ar.



Almoço da região, a evocar o arroz do forno da nossa Avó – nunca nenhum se comparará algum dia ao dela, porque lhes falta a azáfama da véspera, e, no dia, o acender do forno, como se de um ritual religioso se tratasse com rezas e tudo, o “meter” os alguidares no forno, tapá-los muito tapadinhos e , depois, sair de lá, qual milagre de alquimia, um arroz soltinho, de sabor e textura inesquecível e as batatinhas e o anho, cheios de cores e paladares inebriantes… - com ementa matraqueada numa velha máquina de escrever, com cópias (!!!) a papel químico (!!!)…

E o Douro ali tão perto. E as nossas raízes!

Saturday, January 06, 2007

Primavera em Janeiro



Manhã bizarra
de primavera
em Janeiro

Aragem serena
um sol matreiro

No alto do azul
sulcos brancos
esborrratados
destinos
cruzados

Rosas frescas
vermelhas
fulgentes
na jarra
transparente
na tranquilidade
quente
de um tempo
trocado





Aos passantes...


... é ( quase) obrigatório dar uma voltinha pelo CONTO LIVRE ( link ao lado) . O dono do SINO da ALDEIA deixou lá uma historinha muito eloquente ... para ler, rir e chorar, ou pensar, conforme se achar apropriado ...

Friday, January 05, 2007

Brincadeiras




Festas passadas, foi a casa esvaziando. Primeiro, O Francisco, com os Pais e o cão… Dias depois, os Avós e a filha mais nova. Agora, a Princesa da casa. Para memória, as tardes em conversa e serões à lareira, encostadinhas uma à outra, entretidas em frente à televisão a ver séries policiais. Ontem, antes do jantar, regalámo-nos de riso, a brincar com pincéis, ao som dos Queen, rabiscando, a duas mãos, com tintas coloridas, uma tela, rascunho tosco de uma fotografia … para recordar. Depois, lá foi ela, levada por um comboio, a caminho dos projectos, das incógnitas e dos sonhos. Eu, por aqui fico, na retaguarda…

Thursday, January 04, 2007

Princesas modernas


As princesas modernas são descaradamente independentes. Saem de casa cedo, não para casar, mas para estudar. Estudam cursos muito contemporâneos aliando as ideias às máquinas. Cidadãs do mundo, têm amigos desde o Sri Lanka às praias da Grécia. Embarcam num avião com a mesma facilidade e desenvoltura com que se apanha um autocarro ao fundo da rua. E perdem-nos também. Não têm aias nem pajens. Fazem e desfazem, elas próprias, malas num ápice. Agora, há uma que anda às voltas com caixas e caixotes para despachar, num jogo de selecção entre a obra cuja leitura vai a meio e o jogo de lençóis, o que é uma escolha praticamente impossível. Assim, decide-se pelo pragmatismo, o resto irá chegando à medida, primeiro, das necessidades, depois, dos prazeres. A juntar às malas e maletas que se possam conduzir pelos aeroportos e gares e comboios e metros e ruas, acrescenta o computador portátil e a máquina fotográfica profissional, tudo muito bem acondicionado. Perde-se ainda entre duas listas de amigos com quem tem que jantar, antes de partir e a escolha dos restaurantes. Seguem-se os conselhos que ela me deixa,com ar sabido, para a compra via net dos bilhetes de avião para as visitas que lhe hei-de fazer e que já programámos juntas. Escolhe a imagem que vai, a partir de agora, aparecer no messenger, com a Monserrat Caballé e o Freddy Mercury a cantar a inolvidável canção dos Jogos Olímpicos de Barcelona, pelo ano de 1992, ainda a princesa era uma criança ( eu ainda sou!) . Os cantores aparecem com as gargantas a entoar " Barcelona" e uma pessoa até sente vontade de embarcar nesta aventura. Eu fico abismada com este vai e vem categórico. E dou comigo a pensar que as princesas modernas crescem demasiado depressa! O quarto com janela na calle Aragón está à espera ...

Wednesday, January 03, 2007

Ponte pedonal S. Miguel da Guarda


Esta tarde, ao ler a primeira página do jornal semanal "O Interior", fiquei a saber que a ponte pedonal cuja construção segue em bom ritmo, é apenas a ponte do género mais cara de Portugal!!! fiquei a saber e estarrecida!!! Ou não seria para ficar?!!!

Tuesday, January 02, 2007

Como um amigo encontra o caminho para a emoção ...


e os campos
vestem-se
de roupas
grisalhas
e frias
até que a luz
de uma manhã
acesa por raios
doirados quentes
os mostre
como são verdes
e floridos
em leves trajos
de cores de Março.


autoria: JPG de OSINODAALDEIA ( link ao lado)

Monday, January 01, 2007

Ano Novo


Cinzas
Esquecidas
Numa lareira apagada

Nostalgia
Da despedida
De uma era passada

estremecido
pelo desconhecido
o coração sobressaltado

a esperança
balança
entre a dolência
do primeiro dia
e um salto
para o outro lado
do tempo…

Saturday, December 30, 2006

Tempo em mudanças




























O Sol nascia
Cada dia
A oriente
Como sempre
Atravessava
A transparência
Do ar azulado
E chegava
Na essência
Intacto
Sem sopro
De aragem…


Agora tenta
Sem graça
Furar a carapaça
Do nevoeiro
Reposteiro
Cinzento
E denso
Gotículas
Partículas
De água lenta
Um logro
Na paisagem…

Friday, December 29, 2006

Ponte pedonal


À esquerda desta ponte pedonal em construção, situa-se a C+S de S. Miguel ( Guarda) . Passaram-se anos, anos e anos, desde a construção da Escola. De repente, nestes últimos dias tem sido uma azáfama incontrolável para pôr de pé a dita ponte, enquanto o enorme placard de uma rotunda mais abaixo continua a marcar 80 segundos para o final das obras do Pólis , do Rio Diz, obras que parecem não ter fim!!! ...à vista! Afinal, ainda devia haver para aí uns trocos para obras!!! Desejo que haja peões a usar a ponte!!! É que a maioria dos alunos da Escola ou utiliza o autocarro ou chega de carro. Outros peões andam mais a pé no Verão, em caminhadas infindáveis, em rancho... Isto sou eu , sempre de pé atrás! Mas, enfim, algo es algo...

Tuesday, December 26, 2006

"Magusto da Velha", Aldeia Viçosa ( Guarda)







Tradição do século XVII, o "Magusto da Velha" em Aldeia Viçosa, concelho da Guarda, data de 1698. Uma Velha ( uma mulher abastada, de que ainda não se conhece o nome) deixou à freguesia uma herança de 24 escudos e 60 centavos. Esta herança permitia ( permite) ao povo, no dia 26 de Dezembro de cada ano, comer castanhas que, lançadas da Torre Sineira da Igreja Matriz para o adro, são assadas no fogo do Natal. Em troco, a Velha exigia que, um dia ao ano, o povo lhe rezasse um padre nosso.



As «cavaladas» tinham por objectivo impedir que uns apanhassem mais castanhas que os outros.
( Livro de Usos e Costumes da Igreja do lugar de Porco - Ano de 1698)

Entre o Natal e o Ano Novo

Anda tudo na ressaca. Da bebedeira de presentes, da festa, da comida e das bebidas, de vários gerações juntas, num emaranhado de conversas e cantigas e trocas e novidades e fotos... Da casa cheia, começa pouco a pouco a sentir-se uma vaga nostalgia, quando se preparam uns e outros para partir mais uma vez com malas e sacos. Sentam-se à lareira os que ainda vão ficando, numa modorra peganhenta, enrolam-se as palavras preguiçosas e os risos por tudo e por nada mais por nada que por tudo, de peripécias recentes às mais longínquas em historietas-passagens de vida...

No tempo em que o Menino Jesus punha as prendas no sapatinho

Era uma menina de cinco anos, magrinha, alta para a idade, esguia, de tranças bem desenhadas. Vivia numa casa caiada de branco, caixilhos das janelas e portas verde-garrafa, frente ao mar. E tinha uma irmã, mais pequenina, moreninha e linda.
No Verão, no pequeno jardim, as ervilhas-de-cheiro erguiam-se em vaidosas cores suaves e um perfume singular alongava-se até à praia. Sobre o muro arredondado, pendiam trepadeiras de campânulas azuis.
No Inverno, o mar batia insistentemente à porta e se , descuidado, alguém a abria, ele entrava sem cerimónias pelo corredor fora em passinhos molhados e escorria, depois, porta fora, devagarinho.

Para ler o conto completo, usar o link do CONTOLIVRE ( ao lado) , sítio onde foi publicado, em primeira mão e para o qual foi propositadamente escrito.

Thursday, December 21, 2006

Bom Natal

No Natal, eu apenas quero
A minha princesa junto de mim
O meu amor a querer-me assim
Perdidamente como no soneto…

Quero a minha Mãe embrulhada
Num xaile fofo e quentinho
O meu pai lê o seu jornalinho
Antes da conversa animada.

A tia mais nova toda elegante
Abraça os queridos sobrinhos
A madrinha enche-os de mimos
Com ternura exuberante…

Se traz a viola , alegre, canta
O tio sempre muito bem falante
Passa pelas brasas um instante
E o cão enrosca-se na sua manta.

Chega a hora das refeições
Verte-se muita conversa fiada
E, no meio de grande algazarra,
As prendas abrem-se em canções…

Só quero uma coisa fantástica
Na nossa casa, neste Natal,
Que estejam todos, tudo igual,
Não quero mais nada de especial!!!


BOM NATAL...
Para todos os que me visitam (quase) todos os dias,
que sentem a minha falta e de quem sinto falta,
para os que me visitam só às vezes,
para os que me visitam só de passagem,
para os que nunca me visitam...

Wednesday, December 20, 2006

Abaixo de zero


Rasga os sentidos
Um ar de cortar à faca
Na corrente
de vento brutal
Junto à Catedral…

Os passos perdem-se
No granito gelado
Os ombros encolhidos
Escondidos
No meio do frio…

Os lábios gretados
Fechados
Da aragem campestre

agreste!

As luzes de cores
Espalham
Estranhas flores
Pela cidade …

Sob o sol frouxo
Brincam pardalitos
Pequenitos
Saltitantes …

Seca
a pele dorida
Estremecida
Um ar constante
Cortante
Pelas ruelas
E vielas.
Por cima um céu
Branco escorrido
Sem alarido…

Tuesday, December 19, 2006

Prenda de Natal














Eu quero adormecer nesta preguiça,
Cobrir-me dos fiapos da neblina.
E quente, no aconchego dos meus sonhos,
Acordar com as lágrimas dos campos,
As primeiras vertidas num novo dia.

uma prenda de Natal que me foi deixada um dia destes por JPG de OSINODAALDEIA .

Saturday, December 16, 2006

Quarto com janela

Enquanto acendo a lareira, estás tu sentada num parque a apanhar uns raios de sol outonais a um dia de distância e a pensar no rumo da nova fase da tua vida. A tua voz soa alegre, descontraída, tranquila. Até já dormiste as últimas noites, muito cansada, mas calma. Até aqui, andavas com um aperto à entrada do estômago e o estômago num punho. Subia-te até à garganta um nó indizível. Cortaram-nos há muito tempo um cordão que nos unia, mas continua a ligar-nos uma força misteriosa e eu sabia dessa angústia que a minha impotência não afastava de ti a não ser por palavras. Encolhiam-se-me as paredes do estômago e apertava-se-me a garganta, escapulia-se até aos olhos um ligeiro ardor de lágrimas. Mas sabia, porque me ensinaste a serenidade e eu te espicacei a lutar pelo teu querer e pelos teus sonhos, que afastarias as sombras, respirarias fundo, levantarias a cabeça e sairias à procura. Doíam-te as pernas e a coluna de tanto calcorrear as ruas de uma cidade que te atrai, de entrar e sair das estações do metro, de falar com gente-cidadã do mundo, de procurar, procurar, procurar. Sozinha. Fechava-se o círculo e escapava-se o tempo. À noitinha, tinhas novidades felizes na voz, não te cansavas de enumerar as qualidades da tua nova casa, o quarto com janela, o pátio… sobretudo o quarto com janela (parece ser agora um luxo em certos lugares) …Tinhas um quarto com janela numa casa bonita bem situada, a dois passos de um cinema e de três linhas de metro e eras dona do mundo inteiro. Era noite e estavas longe, mas falavas como se nos pudéssemos abraçar e estavas feliz, porque tinhas encontrado, depois de tantos passos, tantas horas, tanto desencanto, um quarto com janela…e querias partilhar essa janela que te fazia tão feliz… Chegou então a hora do descanso, pudeste dormir, sem horas marcadas, com o coração leve e, de manhã, sair para a rua, apenas a passear na cidade que vai passar a ser a tua cidade no novo ano. Já com convites para sair “de copas” e para jantar com amigos recentes…
Não tarda nada, regressas de avião, para tratar de alguns assuntos ainda pendentes e para as festas de Natal connosco, com os avós e tias e tios e primo, desta vez cão incluído na lista…
Eu, depois de ter palmilhado, a teu lado, invisível, as ruas que desconheço numa cidade nova, fico, como sempre, à tua espera, que quero saber pormenores da tua janela do quarto…
Até logo, minha Princesa!

Friday, December 15, 2006

Frio


A claridade transparente e nua do crepúsculo cola-se estática e crua ao azul desbotado
da tarde gélida.

O horizonte rosado do lusco-fusco contorna o nevoeiro algodoado que se escapa entre montanhas.

Entrada a noite, os abetos recolhem nas suas folhas as gotículas geladas da neblina que desce das serras. Adormecidos, permanecem vidrados até ao nascer do sol.

Sunday, December 10, 2006

Reflexos


A noite
gelada
a geada
cobre
de branco
o campo
os montes
o sol
lança
os braços
em abraços
preguiçosos
ansiosos
pelos vales
lacrimejantes
das chuvas
pelas encostas
rochosas
chorosas
de ventos
o sol
afoga-se
em reflexos
nas barragens
nos rios
nos tanques
perplexos.


Saturday, December 09, 2006

Ventania


Desceu da serra, pelas encostas, numa correria endoidecida, o vento gélido. Silvou pelos desfiladeiros, com perfume de neve. Arrastou nuvens cinzentas e brancas, carregadas de granizo e chuva, despejadas sem cerimónia.
Num caprichoso movimento, afastou as pedrinhas redondas e brancas como camarinhas e resgatou o sol para o esconder atrás de uma cortina de nuvens…
A noite caiu com estrondo negro sobre as casas. À janela, brilham estrelas cintilantes. O frio enrosca-se à lareira.

Tuesday, December 05, 2006

Mar


A noite apoderou-se da tarde , sorrateira , ali, num momento, junto às ondas do mar a quebrarem naturalmente na areia da praia.
Quedámo-nos sentidamente na varanda dos pensamentos em recolhimento, numa oração inabitual em honra dos deuses que conceberam estes instantes. Só para mim. Mesmo que apenas tenha restado desse tempo, no início da noite, sobre o tabuleiro, um artístico ramo de rosas. Inventado para mim.

O mar quebra e requebra em ondas, som e espuma. Os grãos de areia, indiferentes, desprende-se da sola dos sapatos.

Uma televisão continua a falucar uma linguagem monótona, incompreensível e desatenta, marcando um sono passado pelas brasas. Um telemóvel choca a calma semi-silenciosa com palavras de longe.

E o mar quebra e requebra, enfeitiçado, em espuma sobre a areia da praia.

Monday, December 04, 2006

1º de Dezembro


Serviu-se um pequeno almoço-surpresa numa mesa redonda. Em frente, o mar. Ponto de encontro inesperado.

Passeio de botas enfiadas na areia deixado o rasto do salto fino e o encruzilhado dos ténis marcados sem data numa brincadeira de adultas-crianças de ontem e de amanhã: os sentimentos, os olhares e os risos permanecerão entre gerações.

Caldeirada alegre a meio-sal condimentada de espantos, de ondas do mar, de sol e calor quanto baste, regada a Monte velho branco fresquinho juntou à mesa do almoço corações unidos pelo sangue, pela estrada e pelo destino.

Assinaladas as sombras no passeio e as pistas nas areias da praia, as palavras entrecortaram-se de risadas desconexas ao som das velas acesas. A Mãe , de poucas palavras, declarou-se feliz. O Pai, felicíssimo, fez um brinde. Corriam junto com o champanhe mil e uma recordações de mais de meio século e a tranquilidade e a sabedoria do tempo inevitavelmente fugidio. Transporto os episódios de que todos se lembram e os outros que quase ninguém recorda como se tivéssemos vivido ao lado uns dos outros em universos, às vezes, apenas paralelos, o que provoca espantos variados de impossibilidade.

Tarde


Alguém pintou um quadro de fogo ao entardecer.