Sunday, January 14, 2007

Moinhos de vento


Na cumeeira do monte
passa
o passado
na estrada
romana
nem moinhos
de velas ao vento
nem o grão
estraçalhado
sob o peso da mó
nem farinha branca
nas mãos do moleiro…

Na lonjura
a estrutura
metálica
mecânica
de três braços
desenha no céu
uma imagem
excêntrica…

Uma mulher
sentada
num banco
sozinho
do jardim
fala
às plantas
mirradas
do Inverno…

Um bêbado
da tarde
titubeia
junto ao muro
gritando
frases e risos
de zurrapa.


Salpicos
miúdos
de chuva
cansativa
borrifam
a calçada.

Thursday, January 11, 2007

Nuvens


Arejou o tempo. O horizonte expande-se ao longe para além das fronteiras convencionadas dos homens, sob uma neblina ligeira e nuvens acumuladas em ondas cinza e brancas. Raia o azul do céu, entre o algodão fofo corredio. Telhados alheados, expostos ao sol, brilham cor de laranja escuro. Uma pedra subiu do recreio e estilhaçou o vidro de um carro parado na rua... Um pardal assustado esvoaçou, espavorido, num alarido de asas pequenitas.

Monday, January 08, 2007

vidas que partem


Um gato
espalmado
na estrada
sob o sol
atormentado
notícias
malfadadas
pingas
esparsas
de nuvens
passageiras
encasteladas


arquivos
remexidos
passos
perdidos
em eras
passadas
folhas
carcomidas
e as horas
seguidas
contam
indiferentes
as vidas
das gentes

Sunday, January 07, 2007

Passeio-relâmpago








Na cidade-fantasma, o nevoeiro infiltrou-se em todas as frinchas das casas e das árvores, adensou-se sobre o chão e escorregou pelas lajes de pedra. Estavam isolados havia quatro dias. Isolados não queria dizer impedidos de sair ou entrar na cidade. Simplesmente, significava que não tinham acesso à luz do dia, para já não dizer , ao brilho do sol. Só viam as casas, se estivessem a um palmo das paredes e chocavam com as pessoas enfiadas nos seus agasalhos escuros, em becos perpendiculares e paralelos ao Corgo, que não se vislumbrava, mas se pressentia correr ao fundo da ravina.


Sufocados por esse sentimento impotente de escuridão, foi, com alívio, que saímos, quase em fuga, do nevoeiro e da chuva que caiu de novo pela manhã. Em busca do sol, de horizontes abertos em socalcos magníficos, obra sempre surpreendente da força e vontade de mulheres e homens fora do comum, entre os quais se contam muitos dos nossos antepassados, alguns imigrantes oriundos do então reino da Galiza, especializados na arte de surribar as vinhas. Em busca do Douro, das paisagens espelhadas nas suas águas, com as casinhas e quintas tremeluzentes da dança da corrente, um barco rabelo fundeado em simetria e uma cidade inteira mergulhada, de pernas para o ar.



Almoço da região, a evocar o arroz do forno da nossa Avó – nunca nenhum se comparará algum dia ao dela, porque lhes falta a azáfama da véspera, e, no dia, o acender do forno, como se de um ritual religioso se tratasse com rezas e tudo, o “meter” os alguidares no forno, tapá-los muito tapadinhos e , depois, sair de lá, qual milagre de alquimia, um arroz soltinho, de sabor e textura inesquecível e as batatinhas e o anho, cheios de cores e paladares inebriantes… - com ementa matraqueada numa velha máquina de escrever, com cópias (!!!) a papel químico (!!!)…

E o Douro ali tão perto. E as nossas raízes!

Saturday, January 06, 2007

Primavera em Janeiro



Manhã bizarra
de primavera
em Janeiro

Aragem serena
um sol matreiro

No alto do azul
sulcos brancos
esborrratados
destinos
cruzados

Rosas frescas
vermelhas
fulgentes
na jarra
transparente
na tranquilidade
quente
de um tempo
trocado





Aos passantes...


... é ( quase) obrigatório dar uma voltinha pelo CONTO LIVRE ( link ao lado) . O dono do SINO da ALDEIA deixou lá uma historinha muito eloquente ... para ler, rir e chorar, ou pensar, conforme se achar apropriado ...

Friday, January 05, 2007

Brincadeiras




Festas passadas, foi a casa esvaziando. Primeiro, O Francisco, com os Pais e o cão… Dias depois, os Avós e a filha mais nova. Agora, a Princesa da casa. Para memória, as tardes em conversa e serões à lareira, encostadinhas uma à outra, entretidas em frente à televisão a ver séries policiais. Ontem, antes do jantar, regalámo-nos de riso, a brincar com pincéis, ao som dos Queen, rabiscando, a duas mãos, com tintas coloridas, uma tela, rascunho tosco de uma fotografia … para recordar. Depois, lá foi ela, levada por um comboio, a caminho dos projectos, das incógnitas e dos sonhos. Eu, por aqui fico, na retaguarda…

Thursday, January 04, 2007

Princesas modernas


As princesas modernas são descaradamente independentes. Saem de casa cedo, não para casar, mas para estudar. Estudam cursos muito contemporâneos aliando as ideias às máquinas. Cidadãs do mundo, têm amigos desde o Sri Lanka às praias da Grécia. Embarcam num avião com a mesma facilidade e desenvoltura com que se apanha um autocarro ao fundo da rua. E perdem-nos também. Não têm aias nem pajens. Fazem e desfazem, elas próprias, malas num ápice. Agora, há uma que anda às voltas com caixas e caixotes para despachar, num jogo de selecção entre a obra cuja leitura vai a meio e o jogo de lençóis, o que é uma escolha praticamente impossível. Assim, decide-se pelo pragmatismo, o resto irá chegando à medida, primeiro, das necessidades, depois, dos prazeres. A juntar às malas e maletas que se possam conduzir pelos aeroportos e gares e comboios e metros e ruas, acrescenta o computador portátil e a máquina fotográfica profissional, tudo muito bem acondicionado. Perde-se ainda entre duas listas de amigos com quem tem que jantar, antes de partir e a escolha dos restaurantes. Seguem-se os conselhos que ela me deixa,com ar sabido, para a compra via net dos bilhetes de avião para as visitas que lhe hei-de fazer e que já programámos juntas. Escolhe a imagem que vai, a partir de agora, aparecer no messenger, com a Monserrat Caballé e o Freddy Mercury a cantar a inolvidável canção dos Jogos Olímpicos de Barcelona, pelo ano de 1992, ainda a princesa era uma criança ( eu ainda sou!) . Os cantores aparecem com as gargantas a entoar " Barcelona" e uma pessoa até sente vontade de embarcar nesta aventura. Eu fico abismada com este vai e vem categórico. E dou comigo a pensar que as princesas modernas crescem demasiado depressa! O quarto com janela na calle Aragón está à espera ...

Wednesday, January 03, 2007

Ponte pedonal S. Miguel da Guarda


Esta tarde, ao ler a primeira página do jornal semanal "O Interior", fiquei a saber que a ponte pedonal cuja construção segue em bom ritmo, é apenas a ponte do género mais cara de Portugal!!! fiquei a saber e estarrecida!!! Ou não seria para ficar?!!!

Tuesday, January 02, 2007

Como um amigo encontra o caminho para a emoção ...


e os campos
vestem-se
de roupas
grisalhas
e frias
até que a luz
de uma manhã
acesa por raios
doirados quentes
os mostre
como são verdes
e floridos
em leves trajos
de cores de Março.


autoria: JPG de OSINODAALDEIA ( link ao lado)

Monday, January 01, 2007

Ano Novo


Cinzas
Esquecidas
Numa lareira apagada

Nostalgia
Da despedida
De uma era passada

estremecido
pelo desconhecido
o coração sobressaltado

a esperança
balança
entre a dolência
do primeiro dia
e um salto
para o outro lado
do tempo…

Saturday, December 30, 2006

Tempo em mudanças




























O Sol nascia
Cada dia
A oriente
Como sempre
Atravessava
A transparência
Do ar azulado
E chegava
Na essência
Intacto
Sem sopro
De aragem…


Agora tenta
Sem graça
Furar a carapaça
Do nevoeiro
Reposteiro
Cinzento
E denso
Gotículas
Partículas
De água lenta
Um logro
Na paisagem…

Friday, December 29, 2006

Ponte pedonal


À esquerda desta ponte pedonal em construção, situa-se a C+S de S. Miguel ( Guarda) . Passaram-se anos, anos e anos, desde a construção da Escola. De repente, nestes últimos dias tem sido uma azáfama incontrolável para pôr de pé a dita ponte, enquanto o enorme placard de uma rotunda mais abaixo continua a marcar 80 segundos para o final das obras do Pólis , do Rio Diz, obras que parecem não ter fim!!! ...à vista! Afinal, ainda devia haver para aí uns trocos para obras!!! Desejo que haja peões a usar a ponte!!! É que a maioria dos alunos da Escola ou utiliza o autocarro ou chega de carro. Outros peões andam mais a pé no Verão, em caminhadas infindáveis, em rancho... Isto sou eu , sempre de pé atrás! Mas, enfim, algo es algo...

Tuesday, December 26, 2006

"Magusto da Velha", Aldeia Viçosa ( Guarda)







Tradição do século XVII, o "Magusto da Velha" em Aldeia Viçosa, concelho da Guarda, data de 1698. Uma Velha ( uma mulher abastada, de que ainda não se conhece o nome) deixou à freguesia uma herança de 24 escudos e 60 centavos. Esta herança permitia ( permite) ao povo, no dia 26 de Dezembro de cada ano, comer castanhas que, lançadas da Torre Sineira da Igreja Matriz para o adro, são assadas no fogo do Natal. Em troco, a Velha exigia que, um dia ao ano, o povo lhe rezasse um padre nosso.



As «cavaladas» tinham por objectivo impedir que uns apanhassem mais castanhas que os outros.
( Livro de Usos e Costumes da Igreja do lugar de Porco - Ano de 1698)

Entre o Natal e o Ano Novo

Anda tudo na ressaca. Da bebedeira de presentes, da festa, da comida e das bebidas, de vários gerações juntas, num emaranhado de conversas e cantigas e trocas e novidades e fotos... Da casa cheia, começa pouco a pouco a sentir-se uma vaga nostalgia, quando se preparam uns e outros para partir mais uma vez com malas e sacos. Sentam-se à lareira os que ainda vão ficando, numa modorra peganhenta, enrolam-se as palavras preguiçosas e os risos por tudo e por nada mais por nada que por tudo, de peripécias recentes às mais longínquas em historietas-passagens de vida...

No tempo em que o Menino Jesus punha as prendas no sapatinho

Era uma menina de cinco anos, magrinha, alta para a idade, esguia, de tranças bem desenhadas. Vivia numa casa caiada de branco, caixilhos das janelas e portas verde-garrafa, frente ao mar. E tinha uma irmã, mais pequenina, moreninha e linda.
No Verão, no pequeno jardim, as ervilhas-de-cheiro erguiam-se em vaidosas cores suaves e um perfume singular alongava-se até à praia. Sobre o muro arredondado, pendiam trepadeiras de campânulas azuis.
No Inverno, o mar batia insistentemente à porta e se , descuidado, alguém a abria, ele entrava sem cerimónias pelo corredor fora em passinhos molhados e escorria, depois, porta fora, devagarinho.

Para ler o conto completo, usar o link do CONTOLIVRE ( ao lado) , sítio onde foi publicado, em primeira mão e para o qual foi propositadamente escrito.

Thursday, December 21, 2006

Bom Natal

No Natal, eu apenas quero
A minha princesa junto de mim
O meu amor a querer-me assim
Perdidamente como no soneto…

Quero a minha Mãe embrulhada
Num xaile fofo e quentinho
O meu pai lê o seu jornalinho
Antes da conversa animada.

A tia mais nova toda elegante
Abraça os queridos sobrinhos
A madrinha enche-os de mimos
Com ternura exuberante…

Se traz a viola , alegre, canta
O tio sempre muito bem falante
Passa pelas brasas um instante
E o cão enrosca-se na sua manta.

Chega a hora das refeições
Verte-se muita conversa fiada
E, no meio de grande algazarra,
As prendas abrem-se em canções…

Só quero uma coisa fantástica
Na nossa casa, neste Natal,
Que estejam todos, tudo igual,
Não quero mais nada de especial!!!


BOM NATAL...
Para todos os que me visitam (quase) todos os dias,
que sentem a minha falta e de quem sinto falta,
para os que me visitam só às vezes,
para os que me visitam só de passagem,
para os que nunca me visitam...

Wednesday, December 20, 2006

Abaixo de zero


Rasga os sentidos
Um ar de cortar à faca
Na corrente
de vento brutal
Junto à Catedral…

Os passos perdem-se
No granito gelado
Os ombros encolhidos
Escondidos
No meio do frio…

Os lábios gretados
Fechados
Da aragem campestre

agreste!

As luzes de cores
Espalham
Estranhas flores
Pela cidade …

Sob o sol frouxo
Brincam pardalitos
Pequenitos
Saltitantes …

Seca
a pele dorida
Estremecida
Um ar constante
Cortante
Pelas ruelas
E vielas.
Por cima um céu
Branco escorrido
Sem alarido…

Tuesday, December 19, 2006

Prenda de Natal














Eu quero adormecer nesta preguiça,
Cobrir-me dos fiapos da neblina.
E quente, no aconchego dos meus sonhos,
Acordar com as lágrimas dos campos,
As primeiras vertidas num novo dia.

uma prenda de Natal que me foi deixada um dia destes por JPG de OSINODAALDEIA .

Saturday, December 16, 2006

Quarto com janela

Enquanto acendo a lareira, estás tu sentada num parque a apanhar uns raios de sol outonais a um dia de distância e a pensar no rumo da nova fase da tua vida. A tua voz soa alegre, descontraída, tranquila. Até já dormiste as últimas noites, muito cansada, mas calma. Até aqui, andavas com um aperto à entrada do estômago e o estômago num punho. Subia-te até à garganta um nó indizível. Cortaram-nos há muito tempo um cordão que nos unia, mas continua a ligar-nos uma força misteriosa e eu sabia dessa angústia que a minha impotência não afastava de ti a não ser por palavras. Encolhiam-se-me as paredes do estômago e apertava-se-me a garganta, escapulia-se até aos olhos um ligeiro ardor de lágrimas. Mas sabia, porque me ensinaste a serenidade e eu te espicacei a lutar pelo teu querer e pelos teus sonhos, que afastarias as sombras, respirarias fundo, levantarias a cabeça e sairias à procura. Doíam-te as pernas e a coluna de tanto calcorrear as ruas de uma cidade que te atrai, de entrar e sair das estações do metro, de falar com gente-cidadã do mundo, de procurar, procurar, procurar. Sozinha. Fechava-se o círculo e escapava-se o tempo. À noitinha, tinhas novidades felizes na voz, não te cansavas de enumerar as qualidades da tua nova casa, o quarto com janela, o pátio… sobretudo o quarto com janela (parece ser agora um luxo em certos lugares) …Tinhas um quarto com janela numa casa bonita bem situada, a dois passos de um cinema e de três linhas de metro e eras dona do mundo inteiro. Era noite e estavas longe, mas falavas como se nos pudéssemos abraçar e estavas feliz, porque tinhas encontrado, depois de tantos passos, tantas horas, tanto desencanto, um quarto com janela…e querias partilhar essa janela que te fazia tão feliz… Chegou então a hora do descanso, pudeste dormir, sem horas marcadas, com o coração leve e, de manhã, sair para a rua, apenas a passear na cidade que vai passar a ser a tua cidade no novo ano. Já com convites para sair “de copas” e para jantar com amigos recentes…
Não tarda nada, regressas de avião, para tratar de alguns assuntos ainda pendentes e para as festas de Natal connosco, com os avós e tias e tios e primo, desta vez cão incluído na lista…
Eu, depois de ter palmilhado, a teu lado, invisível, as ruas que desconheço numa cidade nova, fico, como sempre, à tua espera, que quero saber pormenores da tua janela do quarto…
Até logo, minha Princesa!

Friday, December 15, 2006

Frio


A claridade transparente e nua do crepúsculo cola-se estática e crua ao azul desbotado
da tarde gélida.

O horizonte rosado do lusco-fusco contorna o nevoeiro algodoado que se escapa entre montanhas.

Entrada a noite, os abetos recolhem nas suas folhas as gotículas geladas da neblina que desce das serras. Adormecidos, permanecem vidrados até ao nascer do sol.

Sunday, December 10, 2006

Reflexos


A noite
gelada
a geada
cobre
de branco
o campo
os montes
o sol
lança
os braços
em abraços
preguiçosos
ansiosos
pelos vales
lacrimejantes
das chuvas
pelas encostas
rochosas
chorosas
de ventos
o sol
afoga-se
em reflexos
nas barragens
nos rios
nos tanques
perplexos.


Saturday, December 09, 2006

Ventania


Desceu da serra, pelas encostas, numa correria endoidecida, o vento gélido. Silvou pelos desfiladeiros, com perfume de neve. Arrastou nuvens cinzentas e brancas, carregadas de granizo e chuva, despejadas sem cerimónia.
Num caprichoso movimento, afastou as pedrinhas redondas e brancas como camarinhas e resgatou o sol para o esconder atrás de uma cortina de nuvens…
A noite caiu com estrondo negro sobre as casas. À janela, brilham estrelas cintilantes. O frio enrosca-se à lareira.

Tuesday, December 05, 2006

Mar


A noite apoderou-se da tarde , sorrateira , ali, num momento, junto às ondas do mar a quebrarem naturalmente na areia da praia.
Quedámo-nos sentidamente na varanda dos pensamentos em recolhimento, numa oração inabitual em honra dos deuses que conceberam estes instantes. Só para mim. Mesmo que apenas tenha restado desse tempo, no início da noite, sobre o tabuleiro, um artístico ramo de rosas. Inventado para mim.

O mar quebra e requebra em ondas, som e espuma. Os grãos de areia, indiferentes, desprende-se da sola dos sapatos.

Uma televisão continua a falucar uma linguagem monótona, incompreensível e desatenta, marcando um sono passado pelas brasas. Um telemóvel choca a calma semi-silenciosa com palavras de longe.

E o mar quebra e requebra, enfeitiçado, em espuma sobre a areia da praia.

Monday, December 04, 2006

1º de Dezembro


Serviu-se um pequeno almoço-surpresa numa mesa redonda. Em frente, o mar. Ponto de encontro inesperado.

Passeio de botas enfiadas na areia deixado o rasto do salto fino e o encruzilhado dos ténis marcados sem data numa brincadeira de adultas-crianças de ontem e de amanhã: os sentimentos, os olhares e os risos permanecerão entre gerações.

Caldeirada alegre a meio-sal condimentada de espantos, de ondas do mar, de sol e calor quanto baste, regada a Monte velho branco fresquinho juntou à mesa do almoço corações unidos pelo sangue, pela estrada e pelo destino.

Assinaladas as sombras no passeio e as pistas nas areias da praia, as palavras entrecortaram-se de risadas desconexas ao som das velas acesas. A Mãe , de poucas palavras, declarou-se feliz. O Pai, felicíssimo, fez um brinde. Corriam junto com o champanhe mil e uma recordações de mais de meio século e a tranquilidade e a sabedoria do tempo inevitavelmente fugidio. Transporto os episódios de que todos se lembram e os outros que quase ninguém recorda como se tivéssemos vivido ao lado uns dos outros em universos, às vezes, apenas paralelos, o que provoca espantos variados de impossibilidade.

Tarde


Alguém pintou um quadro de fogo ao entardecer.

Tuesday, November 28, 2006

Virtual

Meto-me aqui no cantinho do computador, bem acomodada e entro no mundo virtual. Abro a caixa do correio ( as caixas do correio) e irrito-me quando a encontro cheia de publicidade e fico contente com muitas mensagens, tal e qual como quando abro a caixa de correio normal verde antes de subir as escadas. Sigo para a Biblioteca, para o Arquivo ou passo pelo quiosque dos jornais para ler, pelo menos, os títulos da primeira página. Visito as palavras e as músicas deixadas por umas tantas pessoas nos seus blogues. Assim como quem entra no café a fazer uma saudação, sem sair de casa. Vejo as montras e vou às compras. Mas do que eu gosto mesmo muito é de estar aqui neste sossego e ver chegar pelo canto do olho um quadradinho que sobe pelo ecrã do computador , aqui mesmo do meu lado direito, um quadradinho com uma figurinha que pode ser um cão, um grito ( o do Munch) , um vaso de girassóis, uma mãozinha cheiinha de pulseiras, uma foto… Por vezes, entra-me em casa uma pessoa feliz por me encontrar, outras vezes, chamam-me aos berros para eu as ver, outras vezes, chegam de mansinho, pé ante pé para me pregarem um susto… e pomos a conversa em dia, fácil e rapidamente. Rimos e enervamo-nos e protestamos, escrevemos e , sobretudo, rimos muito. Espantamos as pessoas ao nosso lado, no sofá, a ver televisão que, antes de perceber os motivos das gargalhadas, achavam que estávamos mesmo a endoidar. O caso não era para menos, com tantas novidades de pôr os cabelos em pé, em particular na nossa vida profissional. Mas agora já esclarecidas, sabem que nos entrou pela casa dentro alguém que não está visível. Presente e invisível. Quem haveria de dizer?!!!
Claro que nada disto substitui as viagens reais aos lugares verdadeiros com pessoas de carne e osso. Mas aconchega o coração.

Monday, November 27, 2006

807º aniversário ...




807º aniversário da atribuição do Foral à cidade da Guarda... por D. Sancho I.

Eu prefiro lembrar o Rei Poeta:


Ay eu coitada! – Como vivo,

en gran cuidado por meu amigo

que ei alongado. Muito me tarda

o meu amigo na Guarda!


Ay eu coitada! Como vivo

En gran desejo por meu amigo

que tarda, e non vejo! – Muito me tarda

o meu amigo na Guarda!

Tuesday, November 21, 2006

Fantasmas

Foto: Ciudad Rodrigo ( Espanha) , domingo, 19/11/2006, Plaza Mayor, onde acontece Teatro Medieval todos os sábados e domingos.


Acabrunhada sob uma carapaça de nevoeiro passa a manhã, de lado para lado, sem poiso nem destino.

Descendo, subindo escadas, entrando, saindo portas, conversas destoam, repetidas, massacrantes, entediantes.

Numa feira de gentes insatisfeitas, mas acomodadas, obedientes, fechadas atrás de fachadas, quietas, olhos encolhem-se, atrás de cortinas imaginárias, opacas, medrosas.

Vozes rasteirinhas, melífluas, envenenam o ar fumarento empurrado pelo vento frio.

Branco-sombra, o nevoeiro entranha-se nos ossos das pessoas pequeninas, minúsculas, envoltas num halo de fantasmas.

Marca o tempo uma canção velha, dentro da cabeça, para cá e para lá, a (des)compasso sem ritmo nem letra, numa cadeira de baloiço despropositada.

Janelas de bocas abertas, escancaradas, portas desgarradas, sem trancas, abrem-se no caminho dos céus, numa vertigem de vidas antigas, engolidas na voragem passageira dos séculos.

Arrastam-se os pés no lajedo escorregadio, acorrentados aos passos.

As luzes, embaciadas de chuvinha lacrimosa, afastam-se até ao invisível.

Na varanda-marquise, cora de vergonha uma flor despudorada de uma sardinheira.

Sunday, November 19, 2006

Às voltas nas voltas da vida




Fazia-se uma viagem de comboio para fins de semana familiares e levava-se uma amiga. Desta vez, a Isabel H. Passeámos por Ciudad Rodrigo de máquina fotográfica em punho e, com o folheto turístico na mão, tardámos em compreender, depois de cirandarmos à volta da Catedral voltas sem conta, que uma porta importante a observar se encontrava pelo lado de dentro de uma entrada. Por essa altura, já o cansaço e a sede se tinha apoderado de nós. Nenhuma se lembra já do pórtico, mas eu não esqueci essa tarde de Verão, as gargalhadas fáceis e a camaradagem.

"Cortaram o Outono aos pedaços"


Eram jovens, tinham sonhos.
Estavam apaixonados e o coração expandia-se em ilusões, solidariedades várias.
Eram jovens e estavam apaixonados. Por seus amores, pelos amigos, pelas ideias, pelo sol e pelo céu. Era possível alcançar a Lua. Marte e Vénus planetas atingíveis.
Tinham sonhos. Todos possíveis. Urgentes.
Estavam apaixonados. Por risos, pela juventude, pelas crianças, pelos velhos.
Era Coimbra dos amores de Pedro e Inês.
O André, também apaixonado, escreveu um dia: “ Esta tarde cortaram o Outono aos pedaços”.

Saturday, November 18, 2006

Ainda "o monstro" leia-se TLBES leia-se Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário leia-se terminologia de uma experiência linguística

Ler com atenção:

1. " Ainda o monstro" , da autoria de Helena Matos in " Público" de 18/11/2006

2. http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/CDMateriaisDidacticos/trabalhos/90_Lusiadas_3C.ppt

- ver para crer -

indicação esta que me chegou via a minha amiga Soledade http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/ , este blogue digno de se ler pela sensibilidade e alma de poetisa ( eu uso o feminino de poeta sem lhe retirar competência) e pelo belo poema e música do post de 15/11/2006, LELIADOURA. (Parafraseando um outro poema cantado "onde andarão os poetas galegos e portugueses de agora"?)

Nota: esta pista - poema e música - poderá servir de inspiração a um músico professor português ( e de Português) que fala espanhol e francês , homem sem fronteiras e sábio como poucos ...

e a uma "vareira" musical de Espinho, de nome "é do nosso mar " sita em http://vareira.blogspot.com/ com cheirinho a maresia, a poemas e música...

... e ainda à mana do meio , se ainda puder dar nas suas aulas um sopro da poesia trovadoresca, com o dinamismo e o sentimento que lhe conheço. .. a não ser que tenha que se (des)gastar com a TLEBS!!!

Thursday, November 16, 2006

Manias


Tinha uma mania . Sempre tive esta mania. Agora menos, mas, de vez em quando , descuido-me e trás! ponho-a em prática. Quase nunca dá bom resultado. Mas que eu fico bem comigo mesma, isso fico. Tinha uma mania: dizia tudo o que me vinha à cabeça. Com o coração ao pé da boca. Era um aborrecimento. Não para mim, para quem ouvia, ninguém gostava, acho que ainda ninguém gosta de ouvir as opiniões francas e abertas. Quanto mais à vontade me sentia, mais sinceridades me saíam, muitas vezes, em forma de ironia, que ninguém percebia. E o que podia ser uma amena cavaqueira transformava-se num digladiar de argumentos que me esgotava, porque nem sequer davam às minhas palavras o sentido que eu lhes atribuía, inventavam segundos, terceiros, quartos, quintos e sextos sentidos que eu até ficava siderada. pensava eu, com uma ingenuidade impressionante que, se explicasse tudo tim-tim por tim-tim muito bem explicadinho ( deformação profissional) , tanto malentendido se esclarecia. Puro engano. Arranjava um sarilho ainda maior. Então, com o tempo passante, fui-me vigiando, fui vigiando as palavras, escondendo opiniões, remetendo-me ao silêncio, no meu canto, observando, pensando mil vezes antes de falar. Puxava-me a minha filha o braço, como se faz às crianças pequenas ou dá uma entoação à voz de doce raspanete, a dizer-me que não ganho juízo. Às vezes, baixo a guarda e, antes de contar até mil, lá pela octingentésima septuagésima quinta vez, falo. Rápida. Contundente. Rotunda. Detestam-me, mas calo logo as pessoas. Da surpresa. Depois , rio-me comigo própria. Por não ter juízo nenhum, meto-me nisto como uma brincadeira de crianças. Remeto-me outra vez ao silêncio. Durante muito tempo. Exercito as minhas piadas com a minha filha, com a minha irmã do meio... com algumas pessoas perspicazes. Muito de vez em quando, volto à carga, esqueço-me. Falo. Rotunda ( palavra que, além de significar, por exemplo, sendo substantivo feminino, construção de forma circular, também significa decisivo, categórico, empregado como adjectivo... explico, por via das dúvidas... não sei é se o nome " rotunda" é animado ou não animado...porque os carros à sua volta circulam sem cessar que é uma animação pegada, sobretudo em horas de ponta!!!). Irónica. Mas acrescento a correr, ao ver as caras de espanto: "estou a brincar" e sorrio , um sorriso pateta, por ter que explicar uma frase irónica , tão evidente para mim. E dou comigo a pensar que afinal , ultimamente, tenho repetido vezes sem conta que "estou a brincar". Ando a repetir-me muitas vezes. Não sei se me cale de vez, se me deixe de ironias. Mas a ironia é estética e usada por pessoas inteligentes. Então, talvez, digo talvez, continue a falar. Devagarinho. Baixinho. De vez em quando. Com ironia. E , se ninguém entender, falo para as pedras. O outro não falava para os peixinhos?

Saturday, November 11, 2006

Assim vão as obras do "Pólis" (Rio Diz - S. Miguel, Guarda)







Este é o painel/relógio famoso e estético , a marcar 80 segundos para o final da obra. ( Já nem se pode viver sem ele.)
Estas são algumas das obras que vão demorar 80 segundos a terminar... desde há não sei quantos meses, mais de um ano seguramente.
Este é o arco-suporte muito elegante e fantástico de uma ponte pedonal que há-de ficar encarrapitada sobre aquele. Não se sabe quando . Logo que acabem as obras, eu aviso.
Atenção: os adjectivos a qualificar o relógio e o arco são ironia pura... Esclareço, não vá alguém menos avisado achar que eu estava a usá-los no seu sentido literal. É que há gente para tudo!!!

Não fui eu que disse... "o monstro chama-se TLEBS." Mas tenho pena de não me ter lembrado disso.

« O monstro chama-se TLEBS. Para memória futura convém defini-lo desde já como o maior contributo dado por Portugal para a iliteracia das gerações futuras.»
Helena Matos, in "Público" de 11 /11/2006

Friday, November 10, 2006

A Primavera está a chegar???


Outono com cara de primavera.
Céu azul com nuvens esfarrapadas e formas bizarras.
Nem o cheirinho apetitoso das castanhas,
nem uma aragenzinha fresca no rosto,
só greves a desgosto...

Thursday, November 09, 2006

Wednesday, November 08, 2006

Telepatia

Fomos numa viagem-relâmpago ao Porto ver a Mãe. No caminho, disponível de espírito e do olhar, entremeadas as conversas e os pensamentos, pensei enviar uma mensagem. Nos segundos seguintes, toca o telemóvel. O nome no visor surgiu telepático e intermitente. Atendi , ouvi a voz e fiquei tão pasmada que a minha própria voz saía arrastada de incredulidade. Já me aconteceu, várias vezes, um pensamento assim, que se concretiza a seguir, sem que eu faça nada... mas reajo sempre da mesma maneira. Pasmada. Já nos encontramos no "messenger" em vez de trocarmos telefonemas, cartas ou irmos até ao café, mas estas experiências, embora me tragam quase sempre alegrias, mexem comigo, e ainda estremeço de certas coincidências escritas sabe-se lá em que patamar das nossas vidas. Ainda por cima, sem bateria, ficámos a meio da gargalhada e da ocorrência do dia, do reconhecimento de que a internet é mesmo uma grande estrada, é imparável e é incontrolável. Para o bem e para o mal, como todo e qualquer invento, funciona.
A Mãe lá estava, débil e queixosa, no cantinho do seu sofá, estremeceu-lhe a voz, quando nos viu. Animou-se e conversou. Destes dias. Doutros dias. De dias de há muito. O Pai enlaça as peripécias da sua vida construindo redes de estórias e episódios infindáveis, como se nunca tivéssemos saído de junto dele, na mesma cadência entusiasmada com que as viveu. Agora pensa que precisava de ter dinheiro para contratar uma secretária e conseguir escrever tanta vida.
Rumo à auto-estrada, erguia-se lá para os lados de Espinho, para as bandas do mar, um sol vermelho-cereja, enorme sol-poente redondo impressionante riscado de umas nuvens cinza-escuras. Sem hipótese de o fotografar, abandonei-me ao deslumbramento do fim de tarde naquele quadro impressionante, afastando-me na velocidade dos 120. A noite ainda nos apanhou no caminho.

Tuesday, November 07, 2006

Portugal


Portugal
à luz da TLEBS ( "nova"??? Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário)
nome próprio
não animado
não humano


Eis a verdade na Gramática!!!

Saturday, November 04, 2006

A Minha Mãe


Penso muitas vezes na minha Mãe, em particular, quando ela está doente. Não penso nela velhinha, sentada no seu sofá ao cantinho da sala ou à porta à espreita de quem parte e de quem chega. Penso na mulher de vinte anos da foto, provavelmente a primeira foto que ela tirou. Vinte anos de uma beleza entre serena e altiva, como uma princesa, rosto de uma beleza sã e escorreita. Apenas lavado com água da fonte. Cabelo penteado para trás, com umas ondinhas e apanhado, na nuca, com uma rede. E uns brincos-lágrima nas orelhas.
Penso na mulher da foto. Saiu da casa na aldeia perdida no Douro e andou por terras que ela nem imaginaria que existiam. Nasci eu e assim ficámos ligadas para toda a vida.
Penso na mulher da foto. Na severidade e distância que a separavam de nós. Fruto da responsabilidade. Vejo agora que esse rigor derivava da juventude e da educação. Às vezes, andava bem disposta, outras vezes pesava-lhe, com certeza, o aborrecimento e a solidão. As tarefas repetidas todos e cada dia. As refeições, a roupa, a casa. Andar de terra em terra. Fazia amigos hoje e amanhã tinha que se despedir deles… E a casa, a roupa , as refeições. O marido e as filhas, a partir de certa altura, iam e vinham ao sabor dos horários do trabalho e da Escola para almoçar e para se meterem nos quartos a estudar e a ter conversas de meninas, risadas de jovens e para voltarem a sentar-se à mesa à hora do jantar. Quando a queriam meter nas conversas, já ela se tinha ensimesmado, farta de cumprir os horários dos outros. Estava sempre ali. A qualquer hora, quando saíamos e quando entrávamos em casa. Ria , às vezes, outras vezes, receava o eco das gargalhadas. Proibia a felicidade, sem mais nem menos. Se calhar, quando as circunstâncias afastaram o marido de casa, culpou-nos por não ter consigo o seu companheiro. Outras vezes, esses afastamentos temporários, davam-lhe outro ânimo, outro poder de decisão e tudo corria às mil maravilhas.
Penso na mulher da foto. Eu nunca quis aprender com ela a costura, os bordados e o croché. Escapava-me sempre, porque não me sentia com grande habilidade e não queria zangar-me com ela, sempre a corrigir qualquer veleidade em qualquer andança. A minha mana do meio sentava-se com ela no quartinho de costura e passavam horas naquilo de coser e fazer roupa e ainda hoje esta mantém essas inclinações manuais, que executa, se se dispuser a isso.
Penso na mulher da foto. Era aquela a vida que ela quis viver? Que mistérios guardarão os seus pensamentos? As suas memórias? Que pensará de nós? Guardará alguma boa lembrança? Ou continua a julgar-nos com rigor e altivez? Saberá que me lembro daquele dia de rigoroso Inverno em Lagoaça? Tinha eu nove anos, fui levar o almoço ao meu pai, que andava com uns amigos a cortar um castanheiro para lenha. A neve cobria os caminhos. Já a ida me custara imenso, parecera-me longe, muito longe. À vinda , o frio atrofiara-me o pensamento. Só queria chegar a casa. O caminho alongava-se, interminável. Já não sentia as mãos. Os pés moviam-se maquinalmente. Apetecia-me chorar. A porta de casa não se aproximava nem por nada. Quando a minha Mãe me abriu a porta, chorei que nem uma desalmada. A minha mãe levou-me para junto da lareira. Pegou numa fralda da minha irmã pequenina, aqueceu-a e colocou-a sobre as minhas mãos, repetidamente até que o sangue começou a afluir de novo àqueles dedos pequeninos. Isso aconteceu porque ela estava sempre lá.
Muitos anos mais tarde, era Verão e eu acabara de saber o resultado do último exame da Faculdade. Estávamos as duas com a minha irmã mais nova, à porta do Liceu Infanta D. Maria. A minha irmã chegou radiante do último exame do Liceu. Guardei esse momento de sol e comunhão. Será que ela o viveu como eu? Mas vivemo-lo juntas porque ela estava sempre lá.
Penso na mulher da foto. Olho para as mãos da minha Mãe, com os ossos todos torcidos. E lembro-me dela agarrada àquele tanque a lavar a roupa. De Verão e de Inverno.
Assalta-me uma sensação estranha, quando penso que ela bem nos poderia ter dito que gostava de nós. As pessoas precisam de ouvir as palavras. Se calhar , a ela também nunca ninguém lhe tinha falado dessa necessidade. Pensaria que só era importante ter a comida na mesa, a casa limpa e a roupa lavada.
Se calhar, bastou-nos que ela estivesse sempre lá, como ainda hoje, quando chegamos a casa. Se calhar…
Um dia , houve o acidente de comboio. Quebrou-se-lhe o brilho e a postura de princesa. Nunca mais foi a mesma. Mas essa época , já a vivi de longe, escapou-se-me entre as pregas da vida.
Tocamos à campainha e ela está sempre lá.
Penso na mulher da foto. Parece mentira, mas é a minha Mãe.
Que pensará de mim a minha filha , se eu chegar a ser velhinha?

Wednesday, November 01, 2006

150 anos dos Caminhos de Ferro






















Os 150 anos dos Caminhos de Ferro em Portugal trouxeram-me à memória as minhas viagens de comboio. A automotora vermelha e branca de S. Martinho do Porto, as deslocações das férias grandes de qualquer sítio onde nos encontrávamos até Aregos ou Mirão ou Ermida, e regresso, com o ritual da contagem dos volumes todos não sei quantas vezes pelos meus pais. As viagens de um lado para o outro, traçado no nosso itinerário de vida. Os volumes eram as seiras, as cestas, as malas e as crianças, nós próprias, primeiro duas e , depois, três. Os volumes tinham vida própria , além de serem contados e recontados como soldados nas estações e , posteriormente, já dentro das carruagens. A minha mãe entrava primeiro com as crianças e o meu pai, do cais, passava-lhe pela janela grande, larga, escancarada os volumes todos um a um. Agora não se podia ter feito isso, que são todas superfechadas. Só depois , entrava ele, numa confusão de vozes, gestos e gritos no meio da Estação, espectáculo digno de ser visto. E a viagem começava, continuava até ao destino envolta em mil e uma peripécias.

As crianças cresceram e andaram em outras viagens.
Onde estavam elas há cinco anos?