
Penso muitas vezes na minha Mãe, em particular, quando ela está doente. Não penso nela velhinha, sentada no seu sofá ao cantinho da sala ou à porta à espreita de quem parte e de quem chega. Penso na mulher de vinte anos da foto, provavelmente a primeira foto que ela tirou. Vinte anos de uma beleza entre serena e altiva, como uma princesa, rosto de uma beleza sã e escorreita. Apenas lavado com água da fonte. Cabelo penteado para trás, com umas ondinhas e apanhado, na nuca, com uma rede. E uns brincos-lágrima nas orelhas.
Penso na mulher da foto. Saiu da casa na aldeia perdida no Douro e andou por terras que ela nem imaginaria que existiam. Nasci eu e assim ficámos ligadas para toda a vida.
Penso na mulher da foto. Na severidade e distância que a separavam de nós. Fruto da responsabilidade. Vejo agora que esse rigor derivava da juventude e da educação. Às vezes, andava bem disposta, outras vezes pesava-lhe, com certeza, o aborrecimento e a solidão. As tarefas repetidas todos e cada dia. As refeições, a roupa, a casa. Andar de terra em terra. Fazia amigos hoje e amanhã tinha que se despedir deles… E a casa, a roupa , as refeições. O marido e as filhas, a partir de certa altura, iam e vinham ao sabor dos horários do trabalho e da Escola para almoçar e para se meterem nos quartos a estudar e a ter conversas de meninas, risadas de jovens e para voltarem a sentar-se à mesa à hora do jantar. Quando a queriam meter nas conversas, já ela se tinha ensimesmado, farta de cumprir os horários dos outros. Estava sempre ali. A qualquer hora, quando saíamos e quando entrávamos em casa. Ria , às vezes, outras vezes, receava o eco das gargalhadas. Proibia a felicidade, sem mais nem menos. Se calhar, quando as circunstâncias afastaram o marido de casa, culpou-nos por não ter consigo o seu companheiro. Outras vezes, esses afastamentos temporários, davam-lhe outro ânimo, outro poder de decisão e tudo corria às mil maravilhas.
Penso na mulher da foto. Eu nunca quis aprender com ela a costura, os bordados e o croché. Escapava-me sempre, porque não me sentia com grande habilidade e não queria zangar-me com ela, sempre a corrigir qualquer veleidade em qualquer andança. A minha mana do meio sentava-se com ela no quartinho de costura e passavam horas naquilo de coser e fazer roupa e ainda hoje esta mantém essas inclinações manuais, que executa, se se dispuser a isso.
Penso na mulher da foto. Era aquela a vida que ela quis viver? Que mistérios guardarão os seus pensamentos? As suas memórias? Que pensará de nós? Guardará alguma boa lembrança? Ou continua a julgar-nos com rigor e altivez? Saberá que me lembro daquele dia de rigoroso Inverno em Lagoaça? Tinha eu nove anos, fui levar o almoço ao meu pai, que andava com uns amigos a cortar um castanheiro para lenha. A neve cobria os caminhos. Já a ida me custara imenso, parecera-me longe, muito longe. À vinda , o frio atrofiara-me o pensamento. Só queria chegar a casa. O caminho alongava-se, interminável. Já não sentia as mãos. Os pés moviam-se maquinalmente. Apetecia-me chorar. A porta de casa não se aproximava nem por nada. Quando a minha Mãe me abriu a porta, chorei que nem uma desalmada. A minha mãe levou-me para junto da lareira. Pegou numa fralda da minha irmã pequenina, aqueceu-a e colocou-a sobre as minhas mãos, repetidamente até que o sangue começou a afluir de novo àqueles dedos pequeninos. Isso aconteceu porque ela estava sempre lá.
Muitos anos mais tarde, era Verão e eu acabara de saber o resultado do último exame da Faculdade. Estávamos as duas com a minha irmã mais nova, à porta do Liceu Infanta D. Maria. A minha irmã chegou radiante do último exame do Liceu. Guardei esse momento de sol e comunhão. Será que ela o viveu como eu? Mas vivemo-lo juntas porque ela estava sempre lá.
Penso na mulher da foto. Olho para as mãos da minha Mãe, com os ossos todos torcidos. E lembro-me dela agarrada àquele tanque a lavar a roupa. De Verão e de Inverno.
Assalta-me uma sensação estranha, quando penso que ela bem nos poderia ter dito que gostava de nós. As pessoas precisam de ouvir as palavras. Se calhar , a ela também nunca ninguém lhe tinha falado dessa necessidade. Pensaria que só era importante ter a comida na mesa, a casa limpa e a roupa lavada.
Se calhar, bastou-nos que ela estivesse sempre lá, como ainda hoje, quando chegamos a casa. Se calhar…
Um dia , houve o acidente de comboio. Quebrou-se-lhe o brilho e a postura de princesa. Nunca mais foi a mesma. Mas essa época , já a vivi de longe, escapou-se-me entre as pregas da vida.
Tocamos à campainha e ela está sempre lá.
Penso na mulher da foto. Parece mentira, mas é a minha Mãe.
Que pensará de mim a minha filha , se eu chegar a ser velhinha?