

Cidade da Guarda ( Centro), 5 de Outubro de 2006, Feriado Nacional( Implantação da República, por dia e mês equivalentes, no ano de 1910). 10h50m de um bonito dia de Outono.
Sem comentários.

Enrolou-se o vento nas folhas das árvores como se agitasse cabelos emaranhados.
O céu tomou o negrume da noite a anunciar água.
As pessoas recolhem numa correria agasalhada.
Desatou a chover. Desabam as constipações.
Meto-me a caminho debaixo das pingas, a cabeça encafuada num capuz. Adoro andar à chuva como gostei em tempos de chapinhar nas poças de água brilhante. Corro sempre o risco de ouvir o que já ouvi por mais que uma vez "que andas tu a fazer à chuva feita parva?" Naqueles outros tempos também corria o risco de levar alguma que outra sova, o que nunca me impediu de meter pela poça dentro satisfeita da vida.
Havia outra casa em Vilar Formoso. Eram tempos de verão e ternura, calor e férias grandes, juventude e idealismo nas ideias e nos amores. Os corações andavam leves e ternurentos. Todos os sonhos se desenhavam possíveis. Corriam risos frescos a toda a hora. As amizades registaram-se para a vida. Mesmo se deixaram de se encontrar com regularidade todas as personagens, o reencontro é sempre como se fosse o dia seguinte. Ficou também a cumplicidade baseada na amizade dos pais de longa, longa data. Hoje, já nem se sabe como tudo começou. Episódios soltos marcam( marcaram) as vidas de cada um. Se começa a falhar a memória de um nome, de um lugar especial, alguém se lembra e desfia o rosário. Vem tudo à lembrança, aberta a gaveta há tanto tempo fechada. Andava aquele nome a tamborilar por entre os neurónios. Vinha à memória o nome da irmã. Em cada encontro inopinado, uma ternura sem limites unia as pessoas e o nome abafado. Da vez mais recente, ficou o cérebro à procura, sem encontrar; a pergunta lançada através da net não encontrou eco. A pergunta rondou o sono, quando se desliza devagarinho para esse estado hipnótico. Não se achou a resposta. Esta manhã, por meio de outra personagem, convívio quase diário, sem esforço, por maior proximidade geográfica e amizade mais contínua, a personagem com nome esquecido ganhou nome. Como a memória prega partidas tão bizarras! Assente a questão, surgiram das gavetas menos frequentemente abertas as tardes e noites frias dos Invernos da Beira Alta, em frente à enorme fogueira no Turismo, local de igual refúgio do intenso calor do estio. Os encontros entre pessoas de tão longe, os casamentos, os filhos, as separações, mas, sobretudo, a inocência dos afectos que se pensava serem para sempre. A pitoresca história da Madalena que não era a da Bíblia, o fim de semana, a atracção pelo V. , o postal escrito no comboio de regresso, entre risinhos nervosos, ( como é que vividos de um lado e de outro ainda se lembram e se completam estes instantes??? ) o sucesso e entusiamo da chegada dessas palavras românticas, o namoro. História esta aferrolhada há tanto que só a conversa entre intervenientes a podia recuperar de repente. São histórias que só poucas personagens sabem, as tais que cimentam a cumplicidade nestes episódios , breves, porém consequentes. A partir de um simples postal enviado de um comboio da Linha da Beira , escrito num impulso, com o coração em sobressalto, na euforia dos primeiros amores, construiu-se depois uma vida... Ele acabara de chegar da tropa, ela dava aulas na primeira Escola ( Preparatória de Anadia) que eu conheci do outro lado da barreira ( a mesma que foi inaugurada por um certo Presidente da República de nome Américo Tomás- aquele que tinha a foto pespegada na parede ao lado de outro professor de Coimbra com um crucifixo ao centro, ouvi dizer que ainda sobra por algumas paredes a cruz(!)- , o mesmo da passagem pela escolinha primária de Lagoaça anos antes, a mesma escolinha que ainda há dias andou pelas notícias por ter encerrado, fechado, desaparecido!!! esta nota parece uma pescadinha de rabo na boca!) .
Enfim! Um fim de semana e um postal e um comboio!
Estas imagens saltam talvez incompreensíveis, porque todas enroladas pelos ventos do passado...
Já tem nome a amiga desses tempos...





particularidade, nunca respondem a ninguém,





Foto: Sé Catedral da Guarda, vista a partir dos " balcões" da Praça Velha.







